Como lidar com o processo das expectativas?

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No artigo anterior apresentamos o processo das expectativas “The self-fulfilling prophecy“. Nesta segunda parte, apresentaremos como lidar com esse processo.

Se o treinador conhecer bem o processo das próprias expectativas, poderá usar estratégias para não desenvolver uma “self-fulfilling prophecy” negativa. Algumas delas são: determinar as fontes de informações usadas para formar as expectativas; perceber que expectativas iniciais podem não ser precisas e devem ser constantemente reajustadas; dar a todos os atletas o mesmo tempo de oportunidades para o desenvolvimento técnico; assegurar-se de que todos os atletas tenham tempo sufiente para aprimorar os fundamentos; responder a qualquer tipo de erro com instrução construtiva; desenvolver bom relacionamento com todos os atletas e criar um meio-ambiente orientado ao desenvolvimento do bom desempenho (Burton & Bernie).

Se o atleta tiver uma boa relação com seu treinador, as chances serão maiores de que ele treinará de forma a procurar agradá-lo, e adequará o seu comportamento de acordo com as expectativas. Muitas pesquisas suportam essa tese. Um simples e claro exemplo é quando Canter e Canter (1997) dizem que alunos muitas vezes não se esforçam simplesmente porque não gostam do professor.

A diferença com o futebol é que, normalmente, os atletas são intrinsecamente motivados pelo esporte; Ainda assim, o relacionamento com o treinador pode modificar o comportamento dos mesmos. Sendo o futebol um esporte coletivo, isso é ainda mais complexo, já que cada atleta não deve somente confiar em si mesmo, mas também nos companheiros de equipe.

Isso dá ainda mais importância para o papel do treinador em criar um ambiente de boas expectativas dentro da equipe. Para isso, o treinador deve usar estratégias como ter o número e a qualidade das interações com todos os atletas de forma similar (Boynton & Boynton, 2005).

Não tomando esse cuidado, duas consequências negativas poderão ocorrer: os outros jogadores da equipe receberão uma mensagem clara do treinador de que o mesmo não acredita no jogador, e as chances serão grandes que isso influencie a opinião dos outros jogadores. A segunda consequência é que o próprio jogador terá a tendência de “se afastar” (tune-out) para proteger a própria auto-estima. As percepções do treinador são muito importantes para a escolha de decisões que mantenham a auto-estima de todos os jogadores assim como um ambiente de respeito entre os mesmos.

Outro ponto importante é a capacidade do treinador de lidar com frustração e estresse. Não é questão se você irá se frustrar ou estressar-se em algum momento, mas quando isso ocorrerá, e o mais importante, como você lidará com isso. (Zém & Kottler, 1993). Nestes momentos, as chances de tomar decisões irracionais aumentam. É fundamental conseguir reconhecer essas situações e criar estratégias para lidar com elas sem tomadas de decisões que poderão ser muito lamentadas no futuro.

Embora em alguns casos seja fácil perceber como um treinador privilegia determinados atletas, em outros, os sinais não são tão nítidos e os treinadores podem não perceber como estão beneficiando alguns atletas mais do que outros, o que poderá influenciar no desempenho dos mesmos assim como no “entrosamento” da equipe, tão importante para o sucesso da mesma.

Eliot et. Outros (1996) pesquisaram a relação entre “The self-fulfilling prophecy” e a eficiência de treinamento dos treinadores numa equipe de Basketball universitária e seus 23 atletas. A pesquisa considerou atletas de altas e baixas expectativas, percepção dos jogadores e feedback (retorno de informações).

Usando dois protocolos para analisar as informações (CBAS: Coach Behavior Assessment System e Cole-DAS: Cole’s Descriptive Analysis System) os resultados mostraram que os treinadores principais davam mais retorno sobre equívocos táticos e técnicos enquanto os auxiliares dos treinadores realizavam mais interações relativas à motivação e repetição. Os treinadores principais davam mais feedback de todos os tipos para os atletas de expectativas mais altas; e estes tinham uma visão dos treinadores mais positiva que os atletas de expectativas mais baixas. Os resultados mostraram uma diferença significativa entre as rotinas dos treinadores e aquelas definidas como ideais de acordo com a teoria da “Self-fulfilling prophecy“.

Existem algumas estratégias para um treinador testar seu próprio comportamento. Uma delas é a proposta do “Motivation in sport (2007)”. Segundo essa proposta, o treinador pode pedir para alguém filmar uma hora de treinamento. Essa hora pode ser escolhida entre algumas, sem que o treinador saiba, para diminuir a possibilidade de que o treinador altere seu comportamento pelo fato do treino estar sendo filmado.

Selecione os dois atletas com expectativas mais altas, e os dois com menos. Divida cada interação com os atletas em categorias como frequência, duração, sentimentos (em uma escala de 0 a 10, onde 0 é a mais fria, e 10 a menos fria). Depois, divida as interações em instrucional, feedback e outras. O último passo é comparar as médias dos valores dos atletas com maiores expectativas com aquelas dos atletas com expectativas mais baixas.

Uma estratégia mais simples, atualmente utilizada nos processos de formação dos jogadores nos EUA, é instruir aos treinadores de clínicas para interagir ao menos uma vez por dia com todos os atletas das equipes que eles estão treinando. Normalmente, no início da clínica, os atletas recebem um journal (espécie de diário) onde escrevem as coisas novas que aprenderam e as interações que tiveram com os treinadores.

Comentários finais

A “Self-fulfilling prophecy” é certamente um processo poderoso que deve ser compreendido por todos os educadores, incluindo treinadores.

Apesar de parecer incorreto sob o ponto de vista pedagógico, faz sentido que o treinador passe mais tempo interagindo durante os treinamentos com os atletas que estarão jogando mais ao invés daqueles que possivelmente não entrarão na partida. No entanto uma série de variáveis deve ser considerada em relação a essa frase que pode ser muito controversa.

A primeira variável é o tipo de grupo. Se for uma equipe profissional, não será difícil compreender que as ações serão escolhidas de acordo com um ponto de vista relacionado ao desempenho da equipe. Mesmo nesse caso, estratégias como dar aos auxiliares mais liberdade para interagir e motivar atletas que terão menos atenção do treinador principal devem ser utilizadas; desde que não se crie um clima de exagerada disputa ou de desrespeito entre os atletas e treinadores. Pelo contrário, essas interações devem visar não somente motivar todos os atletas como também criar um ambiente melhor dentro da equipe onde todos saibam da própria importância.

Se estivermos falando de escola de futebol, aula de educação física ou atividade similar, todos os alunos-jogadores têm o direito de ter a mesma atenção do professor-treinador. Nestes casos, o desejo do treinador de obter resultados em curto prazo não pode nunca “passar por cima” do direito dos jogadores de terem a mesma atenção do treinador.

O bom senso do treinador é a peça mais importante e fundamental para a escolha das ações que levarão a equipe a um bom ambiente de trabalho e respeito. No entanto, conhecimento de ciências como psicologia educacional e social, que abordarão aspectos como “The self fulfilling prophecies” podem ser de grande ajuda para que o treinador tenha o conhecimento necessário p
ara utilizar sua experiência e bom senso na condução do grupo rumo ao sucesso e pleno desenvolvimento de todos seus membros.

Bibliografia

Boynton & Boynton (2005) Educator’s Guide to Preventing and Solving Discipline Problems. Acessado dia 18 de Novembro, 2008 do site: http://www.ascd.org/publications/books/105124/chapters/Developing_Positive_Teacher-Student_Relations.aspx

Burton D. & Bernie H. Self-Confidence: The Key to Sport Success. University of Idaho. Acessado dia 25 de Novembro, 2008 do site: http://64.233.169.132/search?q=cache:zfLLQuQRokkJ:www.educ.uidaho.edu/sportpsych/305%2520Campus/Self_Confidence.ppt+self+fulfilling+prophecy+sports&hl=en&ct=clnk&cd=8&gl=us

Canter, L., & Canter, M. (1997). Lee Canter’s assertive discipline: Positive Behavior management for today’s classroom. Santa Monica, CA: Lee Canter and Associates.

Motivation in Sport (2007): mini-project #6: Self-fulfilling prophecy. Acessado dia 26 de Novembro, 2008 do site: http://www.educ.uidaho.edu/sportpsych/561/561-SFP.DOC

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