Universidade do Futebol

Gepeef

12/10/2010

Comportamento ruim: falta de treino ou compulsão à repetição?

O profissional que trabalha com Psicologia do Esporte busca proporcionar que o atleta melhore ou mantenha seu rendimento. No entanto, o que muitas vezes vemos, quando acompanhamos um atleta, ou uma equipe, é uma compulsão à repetição de um comportamento que atrapalha o rendimento. Explicações há muitas, mas nenhuma ou quase nenhuma faz com que na próxima competição o atleta não repita esse comportamento. Se o problema fosse resolvido apenas com mais treino, quase nenhum atleta de alto rendimento erraria mais! O problema vai além.

Até mesmo a mídia, que nesse ano de Copa do Mundo aproveitou diversos acontecimentos dos prováveis chamados à seleção brasileira de futebol masculino para vender seus meios de comunicação, facilitou essa observação. Ou seja, nem precisa ser da área do esporte para saber dessas repetições, mas é preciso um olhar atento.

Em “Além do Princípio de Prazer”, Freud (1920 – 1922, p. 29 -30) discute que a pessoa não pode recordar a totalidade do que nele se acha reprimido, e o que não lhe é possível recordar pode ser exatamente a parte essencial. Dessa maneira, a pessoa não adquire nenhum sentimento de correção da construção teórica que lhe foi comunicada. É obrigada a repetir o material reprimido como se fosse uma experiência contemporânea. Eis aí a repetição do comportamento. Também diz que as resistências da pessoa originam-se do ego e então, imediatamente, perceberemos que a compulsão à repetição deve ser atribuída ao reprimido inconsciente.

Esse fato, por exemplo, o reprimido inconsciente, não é levado em consideração por muitas teorias psicológicas. Acreditando que boa parte daqueles que trabalham com o esporte em seus aspectos psicológicos não consideram a existência do inconsciente, já dá para começar a compreender porque muitos atletas, principalmente os mais destacados pela mídia, continuam repetindo comportamentos destrutivos como foi considerado o caso do Adriano, ex-jogador do Flamengo. Este, provavelmente, não foi escalado para a seleção brasileira que disputou a Copa este ano por seus comportamentos repetitivos e não aceitos para a função que exerce. Mas será que algo está sendo realizado para que ele entenda o porquê de suas atitudes? Nesse sentido, acredito que se a Psicanálise for incluída num trabalho com esse atleta, por exemplo, o direito ele poderá alcançar – compreender sua compulsão à repetição.

Para Freud (1920 – 1922, p. 31) não há dúvida de que a resistência do ego consciente ou inconsciente funciona sob a influência do princípio do prazer; ela busca evitar o desprazer que seria produzido, pela liberação do reprimido. Porém, como explicar a compulsão à repetição – manifestação do reprimido – relacionada com o princípio do prazer, que é o que todos dizem buscar na vida? É claro que a maior parte do que é reexperimentado sob a compulsão à repetição deve causar desprazer ao ego, pois traz à tona as atividades dos impulsos reprimidos. Isso causa desprazer para um dos dois sistemas (consciente ou inconsciente) e, simultaneamente, prazer para o outro.

Laplanche e Pontalis (2001, p. 307) descrevem que efetivamente os exemplos apresentados por Freud indicam que ele só invoca a compulsão à repetição para traduzir experiências relativamente específicas. Um deles é:

1. Quando surge uma fatalidade externa de que o sujeito se sente vítima, e parece que com razão (por exemplo, quando um atleta erra muitos passes durante um jogo).

De acordo com esse exemplo podemos lembrar algumas frases emitidas por atletas durante entrevistas para a mídia tentando explicar o ocorrido: “Não estou jogando bem hoje”, “Não estou numa boa fase” ou “O campo estava ruim”.

O esporte é cheio de mitos. Não penso que a Psicanálise deva ajudar a derrubá-los, mas ela pode facilitar os atletas a entenderem o que lhes acontece e o que, a partir disso, podem fazer, seja para alcançarem um melhor rendimento ou para fazerem outra escolha. Até mesmo para nada fazerem, apenas saberem e não se sentirem injustiçado. E isso se estende a todos os outros profissionais que trabalham com os atletas, como a comissão técnica, em especial seu principal líder, o técnico, que é o “comandante” de diversas pessoas com compulsão à repetição, ou seja, além da sua própria compulsão à repetição, também tem que orientar “diversas outras”. Ou seja, o entendimento de que o inconsciente existe e que se manifesta pode ajudar e muito nesse trabalho.

Referências

FREUD, S. Além do Princípio de Prazer. (Parte III). In: FREUD, S. Além do Princípio de Prazer. Psicologia de Grupo e outros trabalhos. Vol. XVIII. (1920-1922). Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1987.

LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. VOCABULÁRIO DA PSICANÁLISE. Tradução de Pedro Tamen. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

*Contato: taniabas@terra.com.br

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