Universidade do Futebol

Colunas

07/03/2018

Conhecimento no futebol

"Olhamos para o jogo com o conhecimento que temos dele" (Juanma Lillo)

Depois de um período ausente, retorno para escrever as colunas com uma periodicidade de 15 em 15 dias. Entendo que poderei abranger temáticas pontuais e que realmente adentrem o cotidiano e o contexto dos leitores. Bem, vamos ao que interessa.

O mundo em si é uma diversidade, o futebol mais ainda. Pontos de vistas são levantados a todo instante, palavras e expressões são pronunciadas com seus únicos, poucos ou muitos significados. Dentro deste ambiente, um mundo definitivamente “circular” surge. E o futebol, apesar de ter seus desenhos gerais marcantes, é um pouco isso: um fenômeno antropológico em que cada contexto abarca alguns traços culturais exclusivos, hábitos e costumes.

E no Brasil, evidente, temos isso e uma maneira de assistir o jogo, organizar um clube, um processo de treinar, de jogar, de formar jogadores e encarar a derrota ou a vitória. É algo que vem de gerações, de anos, não é certo ou errado, apenas singular. Isso acentua uma “determinada construção de conhecimento”. Ademais, julgar se é correta ou não comparativamente a outras culturas não é o predicado da questão.

Mas apesar desse mapa, atualmente vivemos numa rede e numa proliferação informacional que temos que reconhecer que há uma cultura “macro global”, ou o entendimento que o mundo não acaba no final da minha rua. Isso proporciona uma permuta e uma correlação de ideias que se bem concebidas criam cenários que não desvirtuam a cultura local e sua identidade. Essa sintomática do velho com o novo e da cultural local com a cultura não local, ainda é um paradoxo. Entender que atualmente temos que estar com “os demais” para nos sustentar como ser humano em transformação, abre horizontes variados.

Até por que a humanidade, a espécie humana, além desses aspectos regionalizados mais particulares, também está evidenciada pelos códigos ambientais globais que carregamos desde quando nascemos, ou seja, fomos criados e estruturados por uma simbologia reducionista, pelo parcelamento e pela diminuição em qualquer parte do mundo. Desde as primeiras instruções de nossos pais, a escola e nossos primeiros conhecimentos de treino e de jogo, fomos orientados pela e para unilateralidade e redução sem nos darmos conta de nada.

Bom, essa tendência da cultura que cega e dos códigos ambientais que paralisam, são evidências que dificultam o entendimento da realidade, instante e unidade. Então, essa combinação entre cultura e códigos ambientais arrasta repercussões no conhecimento de todas as áreas, mas especialmente para as principais do futebol: jogador-jogador, jogador-treinador e treinador-jogador.

Assim, o conhecimento de jogo e sua expressão dentro das quatros linhas é baseado pelo que expressamos e o que conhecemos, e não é uma interpretação apenas dos diferentes meios e diferentes formas de jogar, mas sim uma interpretação da raiz etnológica, axiológica e praxiológica dessa construção do conhecimento e sua transferência com realidade, instante e unidade. Dessa identificação, alguns perfis de “conhecimento” que temos no futebol podem ser vistos na sequência.

Conhecimento por chavões (sempre a mesma coisa)

No futebol temos verdades absolutas que ficarão eternizadas até a extinção do esporte. Independente do que está acontecendo e das particularidades contextuais, aquelas mesmas expressões ou definições pronunciadas a vida toda, sempre estarão à tona. Basicamente são aspectos repetidos que viraram verdades e servem de protocolos para qualquer área, sem reflexão ou evolução, podendo ser oriundos de experiências passadas, de pessoas que treinaram daquela forma ou venceram daquela forma no passado algumas vezes.

Conhecimento por que ouvi alguém falar (escuto e faço sem contexto)

Habitualmente quando ouvimos alguém falar algo, especialmente pessoas que tem um currículo vencedor, pessoas em cargos superiores, pessoas que têm um peso em escolhas, pessoas do momento, amigos ou até mesmo pessoas que formam opinião com veículos informativos, começamos a balançar algumas ideias que temos e submergimos um pouco naquilo. Se alguém falar que é certo, é bom, vai resolver e colocar aquilo como fundamental sem conhecer a realidade, o dia a dia pode perder suas circunstâncias naturais. Essa excitabilidade de ouvir algo e querer aplicar negligenciando a realidade, é um problema sintomático que enfrentamos atualmente muito pela falta de coragem e convicção.

Conhecimento por modinhas (copio da internet)

Nossa geração está obcecada pela busca. Isso é fantástico. A globalização no futebol vem gerando cada vez mais materiais e possibilidades. Mas ao mesmo tempo em que lemos e assistimos com muito mais frequências, copiamos também mais. Esse é o problema: como o copiar afeta na transferência de conhecimento? Essa utilização da cópia pela cópia não reproduz fidedignamente o conhecimento e transfere muito pouco pra a prática. A internet, dependendo como usada, ao mesmo tempo em que é importante para as novas concepções, é também um cancro para a alienação da tarefa principal de um processo que é a criatividade.

Conhecimento por conceitos mecanizados (desnaturalizo o jogador)

Nos últimos anos começamos a abordar com frequência a palavra conceito. Mas o que é realmente um conceito? Acredito que estamos num processo de persuasão conceitual que aparentemente demonstra supostas vantagens momentâneas para o ambiente envolvido ou para a formação de jogadores. Apenas ensinar uma somatória de conceitos, intervindo nisso sem levar em consideração que os jogadores em si carregam conceitos e o quanto isso tira sua autonomia, parece algo conflitante. Por mais que pareça transcendental, dependendo da forma como o conceito é abordado e planificado, pode ser danoso. Os melhores conceitos estão na realidade, nas relações gerais e no jogo, ou seja, nas relações dos jogadores e na simplicidade da interação com o tempo-espaço-bola-companheiro-adversário.

Conhecimento por interpretação real do que realmente está acontecendo em cada treino e cada jogo (enxergo realidade, instante e unidade)

Uma das questões difíceis do futebol é olhar para o aqui e agora e viver nele. Identificar a atividade atual, as novas adaptações no curso das interações, levando em consideração a subjetividade do jogador que constrói seu contexto local com novas experiências, é um grande dilema. O dia a dia é o maior referente evolutivo-vivo como fonte de compartilhamento de informações e interpretações. Não podemos ficar o tempo todo atrelado em papéis, em ideias passadas e certezas conceituais mastigadoras. A co-construção entre jogadores e treinadores, gera uma interpretação que todas as mudanças que ocorrem dentro do ambiente, terão uma consciência interpretativa que é mutável todo o tempo, elevando o nível de conhecimento sobre o jogo em todos os pormenores e em todas as coordenações pretendidas. Merleau-Ponty fala que “a percepção não é apenas consagrada no mundo que a rodeia ou simplesmente restrita por ela; ela contribui para a interpretação deste mundo circundante. O corpo dá forma ao seu ambiente ao mesmo tempo em que é harmonizado por ele”.

Não há verdades absolutas em cima do conhecimento, mas o grande desafio atual é ter uma sensibilidade mais aguçada do que realmente está acontecendo com a realidade, o instante e a unidade e perceber se sua escassez, inércia ou transformação (aí depende da transformação do conhecimento), representa realmente um contexto natural que se comunica harmonicamente.

O conhecimento não é único ou pré-existente em um só lugar, ele está expresso em cada situação peculiar. O conhecimento é uma arte, a aquisição do conhecimento é uma busca sem fim. Podemos ter diversos estímulos, mas todo o conhecimento do mundo nunca será suficiente se não interpretarmos o que realmente está acontecendo. Como treinadores, interpretar o jogo ou o treinamento é uma revelação criativa que pode melhorar se suprimirmos duas questões: abolir nosso ego inflado dominador de certezas inegociáveis e reconhecer que as interações potenciais dos jogadores em cada dia e em cada jogo nunca serão as mesmas, ou seja, o verdadeiro conhecimento, o conhecimento transformador, vem da inteligência contextual e situacional de um caminho que não existe de antemão, que vai emergindo enquanto os passos são dados.

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