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18/03/2018

As consequências de uma metodologia adequada e eficiente

Os estágios de desenvolvimento levam em conta as características físicas, intelectuais e socioafetivas

No nosso contexto formativo, podemos generalizar um pouco e afirmar que o aprendizado é deixado ao acaso. O termo “grade curricular”, por exemplo, é muito associado ao ensino escolar, onde se respeita o processo de desenvolvimento do indivíduo de forma integral, ou seja, o programa de formação consiste no desenvolvimento intelectual, pessoal, social e físico. Entretanto, esta estrutura é muito pouco utilizada em nossas categorias de base, acabando por fortalecer avaliações subjetivas e sem critérios e favorecer aqueles jogadores que por algum motivo saltam aos olhos em dado momento.

Pensando então em organizar este processo, faz sentido levar em conta as fases de desenvolvimento do jovem futebolista utilizando uma estrutura hierarquizada que descreva quais são os pontos mais importantes a serem trabalhados nos treinos e que ajude a selecionar de forma racional as atividades a serem realizadas. Além disso, um programa de formação estruturado e organizado inclui abordagens para 1) o ensino, aprendizagem e avaliação, 2) qualificar as relações entre treinadores e treinador-jogador e 3) sustentar os valores incorporados pelo clube.

Mas quais seriam estes estágios e por onde poderíamos começar?

Uma das maneiras mais simples é realizar o agrupamento por faixa etária e então partir para observações mais específicas (desenvolvimento motor, físico, técnico-tático, cognitivo, socioafetivo, etc). Desta forma, o caminho de desenvolvimento que o jogador percorre durante anos apresenta-se claro e sustentado por princípios que respeitam suas características e necessidades, permitindo ainda, que o jovem adquira autonomia nas atividades habituais de maneira progressiva.

Na figura abaixo, podemos ver um pequeno exemplo de como cada estágio promove um foco de desenvolvimento diferente, e como esta estrutura ajuda a saber quando os jogadores deveriam iniciar (-) e quando deveriam mostrar competência (+) em certas habilidades.

Figura retirada do livro Complete Soccer Coaching Curriculum for 3-18 Year Old Players: Volume 1

 

Com isto em mente, a condução do processo deixa de ser somente subjetiva e favorece a uma melhora progressiva dos jovens jogadores. Mas antes de qualquer coisa, é muito importante que os treinadores entendam sobre cada estágio de desenvolvimento e o nível de proficiência do jogador.

Por isso, não podemos trabalhar ao acaso implementando os mesmos conteúdos e métodos de treino nos diferentes escalões. Da iniciação ao alto rendimento, os jovens precisam passar por um processo de formação coerente, com objetivos, estratégias e conteúdos adequados. Neste processo, é essencial que os princípios de jogo estejam presentes.

Estes princípios são basicamente um conjunto de normas que orientam a tomada de decisão dos jogadores, sendo colocados como conteúdos centrais do processo de ensino/aprendizagem e devem ser ensinados de forma explícita. Começando pelos princípios fundamentais (*Progressão, Contenção, Cobertura Ofensiva, Cobertura Defensiva, Mobilidade, Equilíbrio, Espaço e Concentração), podemos possibilitar aos jogadores que participem inúmeras vezes e de forma direta no jogo. Isto importa pois, um grande número de ações ajuda o praticante a melhorar a execução técnica que o jogo exige, proporciona informação suficiente para tomadas de decisão mais rápidas e acertadas, além de transformar a atividade em algo mais dinâmico e motivante.

Mas estes comportamentos são inerentes ao jogo, ou seja, se manifestam independentemente do modelo de jogo adotado. Aqui nos deparamos com situações de jogo que podem variar desde um simples 1×1, até situações de 3×3 com ocorrências mais espontâneas e comportamentos mais imprevisíveis, podendo-se observar situações similares, mas nunca iguais.

Evidentemente, o clube precisa promover o próprio jogo. Assim, o ensino evolui progressivamente em direção aos princípios específicos de organização coletiva. Aqui evidenciamos a necessidade de compreender o jogo, de se ajustar ao que ocorre perto da bola mesmo estando distante dela, de perceber o que fazer em função de ter ou não a bola e atuar de acordo com o modelo de jogo adotado. Trata-se do ensino dos princípios de organização coletiva (Princípios Gerais, Princípios Específicos e Princípios Estruturais), ou seja, a parte previsível do jogo, aqueles comportamentos que tendem a ocorrer de forma predominante e que são treinados diariamente.

Neste sentido, a exercitação do modelo de jogo objetiva o modo como se pretende jogar. Trata-se do ponto de partida essencial e referencial, estabelecendo linhas orientadoras que indicam o caminho para a resolução das situações de jogo com pleno sentido coletivo e uma organização eficiente.

Resumidamente, um programa de formação ajuda a estabelecer padrões para cada estágio de desenvolvimento de forma que:

  • O progresso dos jogadores e treinadores possa ser monitorado.
  • Metas e melhorias possam ser estabelecidas.
  • Os jogadores possam ser desenvolvidos de forma apropriada.

Esta estrutura fornecida pelo clube, facilita a transição dos jogadores entre os escalões promovendo a continuidade daqueles que merecem, a coerência na avaliação final e maior compreensão e cooperação da equipe de treinadores no modelo utilizado pelo clube.

 

* Na literatura o 1º princípio ofensivo é definido como “Penetração”, mas por se tratar de um conteúdo formativo acredito que “Progressão” seja mais apropriado.

**Uma leitura bastante interessante a respeito do tema, é o livro Complete Soccer Coaching Curriculum for 3-18 Year Old Players: Volume 1

 

 

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