Universidade do Futebol

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09/02/2010

Considerações acerca das estratégias utilizadas pelos goleiros de futebol na tentativa de defender cobranças de pênaltis

Orientador: Dndo. Francisco Navarro

1 – Programa de Pós-Graduação Latu-Sensu da Universidade Gama Filho – Especialização em Metodologia da Aprendizagem e Treinamento do Futebol e Futsal

 Introdução
O presente estudo aponta para a necessidade do goleiro de futebol ter estratégias de defesas definidas diante das cobranças de pênalti, tal fato merece importância, pois os principais campeonatos do futebol mundial, não raramente são decididos por tais cobranças.

Objetivo
Observar e analisar o comportamento dos batedores e como procedem diante do evento e a partir disso, sugerir ao goleiro estratégias e procedimentos na tentativa de defenderem a esses arremates.

Revisão da literatura
A literatura traz observações e análises dos batedores, enquanto propõe ao goleiro estratégias para a defesa e indicam procedimentos que se adotem a fim de obter êxitos; Destaca-se também a preparação e o treinamento dos componentes físicos, técnicos, táticos, cognitivos e psicológicos do goleiro; Mostra análises e considerações acerca de duas estratégias, a de antecipação e a de espera.

Conclusão
A escolha por uma ou por outra estratégia está relacionada ao que se observa dos batedores e a detalhes circunstanciais do evento e é necessário reforçar a importância do desenvolvimento qualitativo dos componentes do treinamento.

INTRODUÇÃO

Muito tem se discutido nos últimos anos a atuação dos goleiros diante das cobranças de pênalti. Quando o goleiro defende um pênalti, é por sorte ou há como se trabalhar situações em que ele possa tirar proveito e aumentar suas possibilidades de defesas nas cobranças?

Fato importante a se considerar é que a probabilidade do batedor concluir um pênalti é extremamente maior que a do goleiro em defendê-lo, no entanto, por tal motivo, não buscar alternativas e recursos para que se consiga êxito na tentativa de defesa, acreditando apenas na sorte, seria uma atitude descompromissada e não inteligente.

Bonizzoni e Leali (1995, p.156) afirmam que o pênalti é sem dúvida a situação de jogo, em bola parada, mais difícil para o goleiro que, certamente, na maioria das vezes, está sujeito a sucumbir diante de uma cobrança bem realizada.

Conforme Wisiak e Cunha (2004, p.9) a análise das cobranças de pênaltis é importante para contribuir no seu esclarecimento e possibilitar futuramente o aperfeiçoamento de métodos de treinamentos para esta situação.

Tanto os que estão envolvidos na ação defensiva do pênalti, quanto os que se colocam em condição de convertê-lo, têm buscado estratégias eficientes e novas formas para melhorar o desempenho. Enquanto Silveira citado por Wisiak e Cunha (2004, p.10) simulou uma situação envolvendo cálculos e informações científicas à procura de evidenciar a necessidade de o goleiro antecipar – se à cobrança de pênalti para obter maiores chances de alcançar a bola, Lima Junior (2007, p.1) aponta que o desperdício das cobranças de pênalti seja de 25% a 33%, das cobranças realizadas e pelo fato de estar aumentando o numero de cobranças em jogos oficiais, torna – se evidente a necessidade de novas investigações que possam melhorar o aproveitamento do cobrador.

Carlesso (1981, p.26) afirma que da mesma maneira que os goleiros treinam e procuram soluções para defender os pênaltis, os batedores também treinam suas próprias formas de confundir os goleiros. É uma “guerra” de técnica e aprimoramento individual constante. Porém, apesar desta afirmação o goleiro pode ter alguma possibilidade conscientizando se de certos aspectos.

Ainda que o percentual de defesas seja baixo, segundo Lima Junior. (2007, p.1), o numero de pênaltis desperdiçados vem crescendo nas últimas competições. Certamente, além do nível do treinamento específico do goleiro, a tensão que envolve o evento, principalmente em decisões por pênaltis, traz uma pressão psicológica maior ao batedor, Wisiak citado por Wisiak e Cunha (2004, p.10). Fato que sem dúvida, deve ser explorado pelos goleiros.

Logo, assim como a preparação psicológica, a busca de conhecimentos, a análise dos adversários, o treinamento específico e o desenvolvimento de estratégias, podem contribuir para a evolução da performance dos goleiros.

O presente trabalho tem o objetivo de observar e analisar as considerações realizadas sobre o tema, investigar acerca dos procedimentos de preparação e treinamento do goleiro para a utilização da melhor estratégia de defesa nas cobranças de pênalti, para que este tenha seu aproveitamento melhorado diante do evento.

REVISÃO DA LITERATURA

FORMAS DE COBRANÇA E CARACTERÍSTICAS DOS BATEDORES

Para Mesa Mesa e Sáinz (2001, p.1), a reação do goleiro diante do pênalti pode ser determinada sob as circunstâncias de oferecimento ou não de indicativos (que podem ser verdadeiros ou falsos) pelo batedor.

Cobrança com indicativos

O adversário contribui para a reação do goleiro com determinada forma de movimento que indica a provável direção da bola e sua velocidade, tornando menos complexa a ação defensiva do mesmo. Kuhn, Miller citados por Kamp (2006, p.467) definem o batedor que executa tal cobrança como, batedor goleiro-independente, ele independe de qualquer forma de ação do goleiro para estabelecer sua maneira de arremate.

Cobrança com falsos indicativos

É realizada pelo batedor que certamente tem conhecimento do que sabe, analisa e interpreta o goleiro, pois dá a este, referências falsas do que irá fazer. Domingues (1997, p.96) cita o exemplo do batedor que toma longa distância para o arremate, indicando que este será forte e para determinada direção, mas na verdade, realizará um chute com pouca velocidade (colocado) e em direção oposta à que fora referenciada. Viana (1995, p.37), alerta para que o goleiro não se oriente pelo olhar do batedor, pois este de alguma forma tentará ludibriá-lo.

Cobranças sem indicativos

Kuhn, Miller citados por Kamp (2006, p.467) consideram o batedor que não dá indícios a que direção será seu arremate, como batedor goleiro-dependente, ele espera por alguma ação do goleiro para concluir o seu chute. Domingues (1997, p.99) o define como batedor “frio”, acrescenta que geralmente seu chute parte para o lado contrário ao que o goleiro vai e conclui que suas cobranças têm a mesma proporção para ambos os lados.

Análises das características dos batedores e observação de seus movimentos durante a cobrança

Bonizzoni e Leali (1995, p.156) apontam que os goleiros busquem conhecimentos sobre os futuros adversários e como estes atuam diante de um pênalti, sempre no intuito de aumentar as chances de defesa.

Conde (1999, p.122), atenta para que se observem as características do batedor (se é técnico ou de força), como chuta a bola, se toma ou não distância, também o ambiente no momento e demais variáveis, uma delas, se o batedor é destro ou canhoto. Da mesma forma, Ben-Sira citado por (Lima Junior, 2007, p.11) concluiu em seus estudos que atletas habilidosos posicionam o pé ao lado e próximo à bola, enquanto os não habilidosos posicionam o pé atrás da bola.

Em seus estudos Willians e Burwits citados por Wisiak e Cunha (2004, p.10) verificaram que prestar atenção no quadril do batedor momentos antes da cobrança aumenta muito a chance de o goleiro fazer a defesa, pois revela o canto em que o batedor irá chutar a bola.

Em cobranças penais o goleiro deve se por em posição de expectativa com o olhar bem fixo ao batedor e à bola, procurando observar a posição do pé e do quadril, a fim de acertar o canto em que este irá chutar a bola (Paoli, 200? p.35).

Maier (1981, p.73) aconselha que se observe a perna que o batedor apóia para o chute e reaja rapidamente.

Para Conde (1999, p.122-123), se o atleta chuta a bola com a perna esquerda, olha se o seu braço direito, quando esse separa muito do corpo, geralmente se chuta a bola à direita do goleiro, todavia se este braço estiver próximo ao corpo o pênalti será cobrado do lado esquerdo do goleiro. De forma contrária, se é um jogador destro, dá se atenção ao seu braço esquerdo, ao afastar se do corpo a direção da bola será o lado direito do goleiro, mas se o braço estiver junto ao corpo, à direção da bola será à esquerda do goleiro. Mas não é conclusivo que tais afirmações sejam integralmente certas devido à variedade de situações que envolvem as cobranças.

Figura 1: Batedor destro

Fonte: Conde (1999, p.122)

Lopes (1999, p.34) orienta a se saber em qual canto o batedor tem preferência para chutar a bola, observar os olhos do batedor, e descreve que as estatísticas mostram que, o batedor com o pé direito tem preferência pelo canto direito e vice-versa.

Viana (1995, p.37) aconselha a não olhar a movimentação do atacante, mas somente a bola.

A distância do batedor em relação à bola no momento da cobrança pode indicar como o ele irá cobrar o pênalti: Maior distância pode sugerir um chute forte, que provavelmente será direcionado num raio próximo ao meio do gol, isso se batedor tomar distância e arrancar em velocidade, se tomar distância e seguir lentamente para o chute, a tendência é que a bola seja colocada (menos força) e mais próxima ao canto, porém é uma prática pouco utilizada. Ao optar por arrancar em velocidade, por medida de segurança, é provável que o chute seja cruzado, ou seja, a bola seguirá para o lado contrário da perna que a chutou. No entanto, quando o cobrador parte lentamente para a bola há a possibilidade de o chute partir para o mesmo canto da perna que o realiza, (Domingues, 1997 p.96).

Porém, Wisiak (2006) verificou em suas análises que não há relação entre a velocidade média da corrida (não discrimina quando é contínua ou com pausa ou se há desaceleração) do batedor e a velocidade da bola, mas ao analisar a velocidade do chute cruzado, verificou que esta se apresenta maior (101,2 Km/h) em relação à velocidade (93,6 Km/h) do chute para o mesmo lado.

Figura 2: Batedor toma distância, arranca em velocidade e chuta cruzado com força.

Fonte: Domingues (1997, p.96).

Figura 3: Batedor toma distância, segue lentamente e chuta para o mesmo lado com menos força.

Fonte: Domingues (1997, p.96).

Quanto ao posicionamento do cobrador, caso ele tome pouca distância e fique de frente para a bola, tende a cobrar no lado contrário ao da perna utilizada para a cobrança, colocando – se lateralmente em relação à bola, provavelmente escolherá o mesmo lado para o arremate (Domingues, 1997, p.97).

Figura 4: Batedor próximo à bola, posicionado lateralmente, chute parte para o mesmo lado do pé que o realiza.


Fonte: Domingues (1997, p.97).

Estudos desenvolvidos por Savelsbergh e colaboradores citados por Wisiak (2006, p.14) verificaram que goleiros não experientes gastaram mais tempo focando o olhar no tronco, nos braços e no quadril. Já os experientes fixavam o olhar em maior parte do tempo na perna de chute, de apoio e na bola para obterem mais informações. Os experientes foram mais precisos em predizer a direção das cobranças (35,7 contra 25,9%).

A forma com que o batedor cobra um pênalti pode sofrer influência caso o gramado esteja molhado por causa da chuva. Domingues (1997, p.98) afirma que a batida ao canto contrário à perna que executa a cobrança (chute cruzado) parece ser a melhor alternativa para os batedores, pois o pé de apoio ganha maior estabilidade, oferecendo maior segurança para o êxito da cobrança. Conde (1999, p.123) conclui que nestas condições, o batedor chutará forte e provavelmente seu chute não será rasteiro.

Considerações acerca dos componentes do treinamento

Desenvolvimento das Capacidades Físicas

Dentre as capacidades físicas que importam serem desenvolvidas com o goleiro, para a situação do pênalti, destaca-se o desenvolvimento da força e da velocidade, especificamente em suas manifestações de força explosiva e velocidade de reação, respectivamente.

Os exercícios de força não têm apenas o objetivo de desenvolver força muscular, servem também, no âmbito desportivo, para desenvolver diretamente a velocidade, a coordenação dos movimentos, a rapidez, as reações motoras e a capacidade de relaxar os músculos, (Verkhoshansky e Oliveira citados por Bossi, 2008, p.28).

Força Explosiva

É caracterizada por aplicações de grandes forças no menor tempo possível contra uma resistência submáxima, fator determinante de rendimento, (Barbanti citado por Bossi 2008, p.26).

A pliometria, denominada por Verkhoshansky citado por Greco (2002, p.155.) como treinamento de força reativa é considerada como o método de treinamento que aumenta diretamente a performance competitiva, sendo ponte entre o desenvolvimento da força e potência (Bloomfield e colaboradores citados por Greco 2002, p.155).

Bossi (2008, p.26) afirma que o trabalho pliométrico é responsável por produzir uma reação explosiva, por meio de saltos, saltos em distância, entre outros movimentos.

Viana (1995, p.97) descreve que essa importante habilidade motora do goleiro, a força explosiva, pode ser aperfeiçoada por meio da velocidade de reação.

Velocidade de reação

Segundo Teleña citado por Viana (1995, p.97), velocidade é a faculdade, pertinente ao sistema nervoso, de receber um estímulo e convertê-lo em uma ordem motora, ou o mínimo de tempo utilizado para se dar uma resposta motora a um estímulo sensitivo.

Greco (2002, p.179) descreve que a velocidade de reação tem as seguintes classificações:

– Velocidade de reação: É o lapso de tempo entre o início de um estímulo e o início de uma resposta;

– Velocidade de movimento: Magill (citado por Greco 2002, p.179) diz que é o tempo necessário para realizar um movimento voluntário a partir da apresentação de um estímulo. A velocidade de movimento não possui relação com a velocidade de reação, isso significa que o indivíduo pode ter uma boa velocidade de reação e não ter uma boa velocidade de movimento ou o contrário (Rodrigues e Rodrigues citados por Greco, 2002, p.180) e;

– Velocidade de resposta: Inicia-se quando o indivíduo recebe a informação sensorial e termina quando o movimento é totalmente executado (Magill citado por Greco, 2002, p. 180).

A melhora obtida com o treinamento da velocidade reação é menor que a obtida com o treinamento de outras capacidades físicas, como, flexibilidade ou força, por exemplo. Porém, embora esteja muito relacionada à formação genética do goleiro (fibras musculares de contração rápida), sugere-se que no treinamento criem – se situações que apresentem respostas motoras rápidas após a percepção do estímulo, pois a velocidade de reação está ligada à coordenação do movimento, que é decorrente da informação percebida e transformada em ação motora (Fonseca, 1998, p.28).

No momento do pênalti o tempo de resposta torna-se fundamental para a ação defensiva do goleiro, ou seja, desde a percepção do estímulo (chute) até a realização da ação (movimento completo da defesa) é importante que ele seja rápido.

Desenvolvimento Técnico-Tático e Aspectos Cognitivos

Aspectos Técnico-Táticos

Viana (1995, p.37) afirma que não há uma receita infalível para que o goleiro possa defender um pênalti. Mas cita alguns procedimentos ou estratégias que podem confundir o atacante no momento do chute:

– Movimentar se para um dos lados como se fosse cair para este e cair para o lado contrário;

– Ficar parado na posição de expectativa baixa, pois os atacantes de modo geral esperam uma movimentação do goleiro para um dos lados, para que possam chutar a bola em direção oposta. Ao permanecer parado o goleiro os confundiria;

– Ficar na posição básica, com os joelhos semi-flexionados, braços em afastamento lateral, como cotovelos flexionados, movimentar braços e mãos, fazendo o corpo oscilar de um lado para o outro;

– Não se preocupar em agarrar a bola, mas procurar a todo custo impedí-la de ultrapassar a linha de meta;

– Quando o árbitro apitar; dar um ou dois passos à frente, pois dificilmente se determinará nova cobrança caso a bola seja defendida. No entanto, atualmente esta parece ser uma orientação que não convém, pois os árbitros têm observado o cumprimento da regra e esta não permite esse avanço e;

– Nos treinamentos, variar o máximo os atacantes, a fim de que possa experimentar um numero variado de reações.

Maier (1981, p.73); Paoli (200?, p.35) sugerem que nas cobranças penais, através de certas movimentações e simulações, o goleiro tente provocar no batedor uma imprecisão no chute. A regra permite ao goleiro movimentar se lateralmente sobre a linha, portanto, quando o atleta corre para chutar a bola, o goleiro poderá executar tais movimentações para por em dúvida onde seu oponente queira chutar a bola.

Bonizzoni e Leali (1995, p.156) sugerem que o goleiro a saltar lateralmente, que o faça ligeiramente à frente, conforme ilustração abaixo.

 

Figura 5: Ação do goleiro para diminuir o ângulo para chute do adversário

Fonte: Bonizzoni e Leali (1995, p.156).

Segurar a bola chutada em um pênalti é difícil devido à curta distância e aos fortes chutes. Por isso, em várias situações o goleiro é obrigado desviar a bola. Quando isso ocorre desvia se a bola para os lados e é importante que a equipe esteja estrategicamente posicionada para contribuir com a ação defensiva (Domingues, 1997, p.98; Conde, 1999, p.123).

 
Aspectos Cognitivos, Desenvolvimento da Atenção e da Percepção Visual

Aravena (1996, p.53) conclui que a atenção é um processo extremamente flexível, subordinada a uma estratégia cognitiva e sua relação com a visão é apenas funcional, ou seja, a atenção mantém o sistema visual pronto para, ao receber um estímulo, extrair deste as informações necessárias para que o indivíduo processe a resposta motora mais eficiente. A visão deve captar os sinais e as riquezas de seus detalhes e a atenção desenvolver-se para selecionar o que é mais relevante.

Para Coimbra (2001, p.31-32) a ação ganha praticidade pela capacidade sensorial do atleta, e o foco intuitivo estimulado, gera idéias criadoras qualificando-o a escolher, em frações de segundos, a melhor opção. O mecanismo de percepção é desenvolvido através da estimulação dos sentidos ao se trabalhar a discriminação visual, auditiva, olfativa, tátil e de paladar. Ao goleiro em sua preparação para o lance do pênalti importa estimular a discriminação visual desenvolvendo as seguintes capacidades:

– Acuidade visual: Distinguir formas e a exatidão dos detalhes, percebendo e estabelecendo a diferença entre os objetos, acontecimentos e ambiente observado;

– Acompanhamento visual: Acompanhar símbolos ou objetos com o movimento coordenado dos olhos;

– Memória visual: Lembrar de experiências visuais passadas quando é solicitado a executar um padrão motor observado previamente e;

– Diferenciação figura-fundo: Possibilita selecionar a figura dominante, destacando-a dos demais acontecimentos que ocorrem no contexto. O goleiro deve identificar o objeto dominante (bola e sua direção) e reagir a ele.

Preparação Psicológica

Em primeiro lugar, antes que se bata um pênalti, o goleiro deve acreditar que irá defendê-lo (Conde, 1999, p.122).

Para Domingues (1997, p.99) o maior sucesso para defender pênaltis de alguns goleiros em relação a outros, está na capacidade de concentração, que por sua vez, é adquirida nos treinamentos, quando ele simula situações reais. Orienta – se para que o goleiro não tenha um comportamento despretensioso, ainda que seja maior a possibilidade de acerto do batedor, empenhar-se para defender a penalidade é fundamental, pois, além de influenciar no resultado do jogo, certamente trás à equipe um efeito moral (entusiasmo) positivo na seqüência da partida.

Lopes (1999, p.34) destaca que, no momento do pênalti o goleiro deve manter se tranqüilo e transferir a responsabilidade ao batedor. Domingues (1997 p.95) afirma que da marcação de um pênalti até a sua cobrança, há um tempo médio de dois minutos e durante esse tempo o goleiro deve concentrar-se para tentar defender o arremate. Para isso, precisa afastar-se de qualquer tipo de tumulto, não envolver-se com reclamações com o árbitro ou companheiros e observar e explorar detalhes circunstanciais e a característica do batedor.

Para Wisiak citado por Wisiak e Cunha (2004, p.10) as condições psicológicas dos atletas envolvidos nas cobranças de pênalti, pode ser um dos fatores que contribuem para o insucesso dos batedores. Este fato, certamente deve ser explorado pelos goleiros por meio de alguma estratégia que desestabilize o adversário.

Estratégias de defesa

Em relação à tomada de decisão do goleiro, podem-se estabelecer duas estratégias para as defesas de pênalti: Estratégia de espera, quando o goleiro espera que o batedor toque a bola para depois definir sua defesa e; A estratégia de antecipação, quando o goleiro antecipa-se ao chute, tendo em vista adquirir um deslocamento em tempo de interceptar a bola.

Para definir a estratégia de defesas das penalidades é importante ao goleiro adquirir conhecimento prévio das habilidades dos batedores. Deve saber quem bate pênalti nas equipes adversárias, principalmente o lado do gol que preferem realizar suas cobranças (Domingues, 1997, p.98).

Silveira citado por (Wisiak e Cunha 2004, p.9-10) afirma através de cálculos e informações científicas, buscando evidenciar a necessidade de o goleiro antecipar se à cobrança de pênalti, que a bola numa cobrança de pênalti, levaria 0,57s para se chegar ao canto do gol a 16 cm do poste. Já o goleiro, nestas condições, levaria 0,99 s para ver o chute e alcançar a baliza lateral num salto, (Suzuki e colaboradores citados por Wisiak e Cunha, 2004, p.10).

Wisiak e Cunha (2004, p.11-12) destacam um estudo onde foram analisadas 12 decisões por meio de cobranças de pênaltis de campeonatos oficiais de grande destaque nacional e internacional do futebol de campo profissional. Foram analisadas atuações de 18 goleiros em 110 cobranças de pênaltis. Constatou se que das 110 cobranças, em 98 (89,1%) os goleiros se anteciparam e conseguiram efetuar 22 defesas (20%), enquanto os que não se anteciparam, 12 cobranças (10,9%) sofreram gols em todas. O estudo mostra, portanto, que há uma preferência dos goleiros em se antecipar às cobranças saltando para um dos lados e destaca ainda que em 98 (89,1%) cobranças os cobradores buscam os cantos da baliza.

Maier (1981, p.73) afirma que o goleiro que escolhe um dos cantos e se atira antecipadamente, joga com a sorte, pois os chutes mal dados nas cobranças de pênaltis não são menos freqüentes que o reconhecimento tardio, da direção da bola pelo goleiro. Porém, admite essa possibilidade caso o goleiro conheça a batida de seu oponente e o canto em que chuta.

Viana (1995, p.37) sugere a não saltar antes de a bola ser chutada, mas para isso, treinar repetidas vezes a caída após o chute.

Lopes (1999, p.33,34) argumenta que a distância do pênalti ao gol é curta e a velocidade que o chute dá a bola é maior que o tempo de resposta do goleiro, por isso ele tem que arriscar o canto em que irá se atirar para bloquear o chute. Mas sugere para não se atirar antes que o batedor esteja com o pé muito próximo da bola.

Embora Domingues (1997, p.99) observa que os batedores possam apresentar alguns indicativos da direção para onde será chutada a bola, sugerindo desta maneira, que o goleiro antecipe-se, destaca que há os batedores que esperam pela definição do goleiro em saltar para um dos lados do gol, depois arrematam ao lado oposto. Mas sabendo que o batedor tem essa característica, o goleiro tem que atrasar o máximo sua saída para a bola, a fim de acertar o canto. Geralmente o chute é sem força e colocado, pois o adversário bate quase parado. Com a antecipação diminui-se o tempo de resposta a um estímulo, mas há risco de que ela seja errada. Havendo uma antecipação temporal e espacial, ocorre a vantagem frente ao adversário, (Greco, 2002, p.181).

Na maioria dos estudos apresentados (Kuhn, 1988; Bigatão e colaboradores, 2003; Morya e colaboradores, 2003 a), a antecipação demonstra não ser eficiente para a realização das defesas, enquanto o mesmo não foi verificado por Wisiak e Cunha, 2004 (Wisiak, 2006, p.14). Mas argumenta que isso ocorre devido às diferenças na definição do início do procedimento de defesa apresentadas pelos estudos e considera haver a necessidade de se analisar o evento em condições próximas da situação de jogo e orienta para que a verificação do início da defesa seja mais precisa, pois a cerca de 300 a 500 milésimos de segundos antes de o cobrador tocar na bola, os goleiros já definem supostamente a direção da cobrança (Savelsbergh e colaboradores citados por Wisiak, 2006, p.15).

Conclusão

Conclui-se que a literatura apresenta razões convincentes tanto ao optar-se pela estratégia de antecipação, quanto pela estratégia de espera, no entanto a escolha depende de alguns fatores como: análise dos tipos de batedores; circunstâncias do evento e capacidades do goleiro.

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Contato: carloslimabrasil@bol.com.br

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