Universidade do Futebol

Entrevistas

12/06/2015

Coordenador do Caprres, centro de reabilitação do Vasco

Você já parou para pensar em quanto custa para um clube a manutenção de um jogador que se machuca? São meses pagando salários para um funcionário que não pode contribuir em campo, afinal. Alex Evangelista tem de trabalhar constantemente com esse raciocínio. O fisioterapeuta e fisiologista coordena desde o início de 2015 o Caprres (Centro Avançado de Prevenção, Reabilitação e Rendimento Esportivo), uma das maiores apostas do Vasco da Gama.

“Você diminui o custo do clube. O Vasco só teve quatro jogadores machucados no ano inteiro. Um jogador com lesão de grau 3, que fica dois meses parado, pode ser um custo de R$ 400 mil para o clube. Eu tento usar essas coisas para mostrar e não me fundamentar pela vitória. Por acaso, veio o Campeonato Carioca e nós ganhamos, mas não era isso que eu queria que eles associassem ao trabalho. A gente buscou vincular aos lucros, como a redução do número de exames e a redução do consumo de medicamentos. O próprio atleta está mais bem monitorado. Você monta um laudo, e até para vender o jogador depois é mais interessante”, explicou o profissional em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

O trabalho constante de “venda”, cujo foco é mostrar a efetividade do centro e de um controle adequado de tudo que acontece com os atletas, ainda é reflexo da estrutura do futebol – ceticismo e cultura de resultados, por exemplo. No Vasco, Evangelista não tem sofrido com isso – principalmente porque atletas e comissão técnica demonstram afinidade com o trabalho.

Com isso e os resultados de curto prazo, o profissional agora tenta tirar o Caprres do papel. O centro hoje é um conceito, mas a diretoria tem planos para inaugurar ainda em 2015 um espaço físico que consiga acomodar o conceito de transdisciplinaridade que o aparato sustenta. São profissionais de diferentes áreas trabalhando em conjunto para a preparação dos atletas.

Em entrevista exclusiva, Evangelista ainda fala sobre o contato com a NBA (liga profissional de basquete dos Estados Unidos). O profissional ajudou num processo de recuperação do brasileiro Leandrinho, que defende o Golden State Warriors, e desde então se aproximou dos atletas que disputam a competição. E isso já influenciou o cotidiano dele no futebol.

Universidade do Futebol – Como começou sua história com o esporte?
Alex Evangelista –
Eu estudei fisioterapia. Era oficial do Exército, mas resolvi sair porque me apaixonei pela fisioterapia. Logo que me formei, fui atender uma menina que tomou um tiro na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. O dono da universidade me chamou para atendê-la, e eu fiz um trabalho com eletroestimulação para aumentar a força muscular. Hoje isso é comum, mas na época eu fui chamado de “mago”. Isso chamou a atenção de um jornalista chamado Washington Rodrigues, o Apolinho, que me convidou para dar uma entrevista na rádio Tupi. Aí o Eurico Miranda me convidou para ir trabalhar no Vasco em 2002.

Universidade do Futebol – E sua vivência fora do Brasil?
Alex Evangelista –
Em 2005 o [técnico] Oswaldo de Oliveira me chamou para ir trabalhar com ele no Qatar. Fui para lá, voltei e aí fiz uma palestra na seleção da Alemanha sobre o uso do Power Plate. Peguei esse trabalho e implante no Vasco em 2006. Em 2007, o Oswaldo novamente me chamou para trabalhar com ele no Japão. Fiquei seis anos lá e voltei para trabalhar no Botafogo, depois do Estadual de 2012. Em 2014 eu fui para o Santos, e voltei para o Vasco neste ano para coordenar o Caprres.

Universidade do Futebol – O que você já conseguiu mudar no Caprres?
Alex Evangelista –
Na verdade, mudei praticamente tudo. Acredito que para um sistema funcionar ele precisa estar totalmente azeitado e que todas as pessoas precisam acreditar plenamente no projeto porque há desgaste o tempo todo. Mudamos toda a parte estrutural e agora vamos construir um espaço físico para formalizar o conceito. Todos os equipamentos de ponta vão estar concentrados nesse local, que vai ser em São Januário.

Alex Evangelista, que coordena o centro de recuperação do Vasco, já ajudou a tratar Steph Curry, jogador mais valioso da atual temporada da NBA.

Universidade do Futebol – Quanto custará a implantação total do projeto? De onde vêm os recursos e qual será o tamanho do empreendimento?
Alex Evangelista –
A parte financeira não sou eu que vejo, mas sei que há parceiros que se interessaram pelo projeto. Sobre o tamanho, isso é o marketing que resolve. A gente montou algo que não fosse tão caro, até para não inviabilizar, mas que tivesse uma garantia mínima de qualidade. Temos um espaço para psicologia, nutrição, preparação física, fisioterapia… Hoje, só Arsenal, Chelsea e a seleção da Alemanha contam com algo parecido.

Universidade do Futebol – Quais são as bases teóricas que norteiam o projeto?
Alex Evangelista –
O conceito principal é a transdisciplinaridade. Todos os profissionais têm envolvimento. Se um jogador está fatigando muito e não tolera determinados tipos de treino, a gente envolve o preparador físico, mas também nutricionista, psicólogo, fisioterapeuta. A abordagem pode ser diferente de acordo com as necessidades dele. Um entra na área do outro, e para isso é necessário termos equipamentos que consigam avaliar com precisão.

Universidade do Futebol – A participação de profissionais de diferentes áreas não chega a ser uma novidade no cotidiano do futebol brasileiro, mas a proposta de um trabalho integrado entre essas searas é menos usual. Como é feita essa integração?
Alex Evangelista –
Sim, é isso: o organograma é multidisciplinar, e isso todo clube tem. O diferencial aqui é: temos um equipamento que mensura a força do cara, por exemplo. É o mais eficaz do mundo em análise de força. A gente vai lá e verifica o cara para ver se ele tem equilíbrio e simetria muscular. A partir daí vai identificar se durante o período do salto a fonte energética deu suporte para o cara continuar saltando, por exemplo. A gente faz uma série de outros testes, analisa a força excêntrica e a força concêntrica. Analisa tudo, e num conceito geral a gente identifica quem precisa atuar mais.

“Como um jogador da NBA, com 2,11m e aquele peso, consegue ser rápido e voar tão longe nos saltos? O treino do cara só pode ser muito bom. Além da genética, você pode tirar alguma coisa disso. Foi isso que eu fui buscar”

Universidade do Futebol – Você disse que apenas Arsenal, Chelsea a seleção da Alemanha têm centros com estrutura parecida. Por quê?
Alex Evangelista –
No Brasil, o São Paulo foi inovador com relação ao espaço físico, mas eu não conheço o Reffis. O Atlético-MG tem um centro de treinamento que é uma perfeição, o Cruzeiro sempre teve, o Santos tem o Cepraf. São alguns bons exemplos de centros, mas a questão é que vamos ter no Vasco um espaço físico para reunião de todos os profissionais. Não sei como funciona lá, mas é claro que o São Paulo serviu de fonte de inspiração. Sobre o Cepraf eu posso dizer porque trabalhei lá: sempre achei os espaços maravilhosos, só que distantes uns dos outros. O nutricionista tem de saber o que acontece com a relação de força do atleta. Da mesma forma, o preparador físico precisa saber se aquela relação de força tem algo a ver com algum substrato energético. O fundamento do treino é ele ganhar performance, e isso engloba tudo.

Universidade do Futebol – E a relação com a comissão técnica? Um trabalho com esse perfil não adianta se não tiver respaldo de quem está no campo, não é?
Alex Evangelista –
A gente faz reuniões semanais – até diárias, quando necessário –, e o treinador passa a ideologia tática dele. Tudo é monitorado para ajudá-lo. Se existe uma utopia, o que estamos vivendo hoje é isso. O treinador aprova, os auxiliares se entrosam e procuram saber o que está acontecendo. Pode ser que o médico ache que um atleta não tem de ir para campo, mas aí o treinador coloca a posição sobre o treino e o médico diz: “ah, isso ele pode fazer”.

Universidade do Futebol – De onde vem a base para esses conceitos do Caprres? Da sua vivência empírica, do seu conhecimento acadêmico ou um pouco de cada?
Alex Evangelista –
Antes de tudo, da experiência de morar fora. Eles não têm a nossa vivência no futebol, mas eu fui experimentando coisas diferentes. Vi como a seleção da Alemanha estava treinando, trabalhei na NBA com o [Golden State] Warriors. Você vai juntando informações de todos os lados quando elas cabem de forma contundente. Fora o conhecimento, é claro: fiz meu primeiro doutorado na Unesp, e agora vou estudar odontologia na USP. Aliás, esse é mais um exemplo de transdisciplinaridade: a articulação temporomandibular tem tudo a ver com força. Sabe aqueles dispositivos que as pessoas colocam na boca e que são interoclusais? Eles permitem uma mastigação melhor, um posicionamento melhor, e os músculos posteriores reagem melhor a isso. O Cristiano Ronaldo usa.

Universidade do Futebol – Como essas experiências fora do país contribuíram para o seu conhecimento?
Alex Evangelista –
Até em coisas muito simples. Por exemplo: como você explica para mim que um cara alto é taxado como um cara lento, mas o [jamaicano Usain] Bolt é recordista mundial [dos 100m e dos 200m rasos]. Você pode dizer que ele tem vantagem por ser magrinho, esguio, e que isso pode ser uma alavanca. Ele pode ter passadas maiores. Agora, como um jogador da NBA, com 2,11m e aquele peso, consegue ser rápido e voar tão longe nos saltos? O treino do cara só pode ser muito bom. Além da genética, você pode tirar alguma coisa disso. Foi isso que eu fui buscar.

Universidade do Futebol – Como funciona esse processo de captação de conhecimento? Você apenas assiste aos treinos, discute isso com alguém, filma…?
Alex Evangelista –
Primeiramente eu filmo. O debate científico é com a minha equipe aqui no Vasco. Um dos meus preparadores é coordenador de educação física na Universidade Estádio de Sá, por exemplo. O Mauro tem um lastro muito grande e trabalha com futebol de alto nível desde 1995. A nutricionista é da seleção brasileira, e a psicóloga já trabalhou em vários clubes do Brasil. A gente senta e debate para tentar enquadrar os métodos à realidade.

Universidade do Futebol – Todos os conceitos que você apresenta parecem bastante fundamentados, mas como é a relação das outras pessoas do clube com isso? Afinal, uma das dificuldades de qualquer abordagem científica no futebol ainda é derrubar o modus operandi enraizado…
Alex Evangelista –
Tudo que nós fazemos é baseado em estudo, mas nem toda teoria você consegue aplicar pela necessidade de vitória constante. Eu tentei usar a prática associada à teoria. Sei que correr em volta do campo emagrece, por exemplo, mas sei que em tiros curtos o atleta emagrece e trabalha potência. O Caprres não usa resistência sem bola. Não é uma loucura da cabeça de ninguém. O futebol precisa disso.

Universidade do Futebol – E a relação com os atletas? Eles também compram essa ideia?
Alex Evangelista –
Como eu disse: se há utopia, estou vivendo isso. Viemos para Mangaratiba fazer uma intertemporada, por exemplo. Normalmente, tirar o cara do habitat gera reclamações. Os caras estão aqui felizes porque veem o objetivo e a evolução do próprio corpo. Eles compraram a ideia. É extenuante porque o atleta acaba trabalhando em dois períodos, mas ele percebe que tem fundamento.

Universidade do Futebol – Como funciona o seu trabalho com a NBA? De onde surgiu o convite?
Alex Evangelista –
A relação com a NBA surgiu com uma lesão do [ala-armador brasileiro] Leandrinho. Ele teve um problema no [ligamento] cruzado anterior, e os Estados Unidos têm processos que são engessados e pragmáticos. Acontece que as clínicas lá são dentro de hospitais, e a visão desportiva é completamente separada. Não existe, praticamente. Aí deles deram um prazo de um ano e oito meses para a recuperação, mas nós voltamos em seis meses. Eles desacreditavam e botaram o Leandrinho para jogar no Pinheiros porque era muito arriscado fazer um contrato, mas quando ele começou a virar cestinha o Phoenix veio e o pegou. Aí, jogando bem, ele foi para o Warriors. Passei a ser mais procurado por jogadores. O Kobe Bryant me procurou.

Universidade do Futebol – E a partir disso você desenvolveu um serviço customizado?
Alex Evangelista –
Não. A NBA é informal. Eles até queriam que eu fosse para lá agora, nas finais, para acompanhar o Leandrinho. Eu tratei o Clay [Thompson], o [Steph] Curry, e eles queriam que eu fosse. Mas com a situação atual do Vasco, não podia sair. É algo bem informal, mesmo, mas é até melhor para mim.

Universidade do Futebol – Como está o cronograma de implantação do Caprres? A partir de quando você acredita ter protocolos em execução que estejam totalmente alinhados?
Alex Evangelista –
Então: sobre essa questão de prazos eu não sei. Como estou fora do circuito que tem sido resolvido pelo marketing, sei apenas que estão acontecendo reuniões. Temos uma maquete pronta, um espaço em que a construção vai acontecer e uma ideia de que neste ano o projeto esteja pronto.

Universidade do Futebol – Como funciona a questão de comunicação interna de um projeto assim? O investimento não é pequeno, o futebol é um meio cheio de ceticismo, e imagino que vocês sofram questionamentos muito vinculados ao desempenho do time.
Alex Evangelista –
Em vez de trazer o papel para dentro do clube, estamos levando o que é feito no clube para certificar cientificamente. Por exemplo: não há como alguém argumentar que um jogador correndo em volta do campo é bom. Essa é uma atividade que vai usar a fibra do tipo 1, lenta, e o futebol é um esporte de demanda mista. Não é um treinamento ideal, e se eu treinar potência eu trabalho fibras musculares do tipo 2B. Para o preparador físico fazer isso, ele tem de mostrar cientificamente que aquilo é fundamentado. Eu uso o treino de futebol e embaso cientificamente. Mas acaba que eu vou vender um produto, sim: o time está correndo mais? Está machucando menos? Se for assim, não há argumento. Você diminui o custo do clube. O Vasco só teve quatro jogadores machucados no ano inteiro. Um jogador com lesão de grau 3, que fica dois meses parado, pode ser um custo de R$ 400 mil para o clube. Eu tento usar essas coisas para mostrar e não me fundamentar pela vitória. Por acaso, veio o Campeonato Carioca e nós ganhamos, mas não era isso que eu queria que eles associassem ao trabalho. A gente buscou vincular aos lucros, como a redução do número de exames e a redução do consumo de medicamentos. O próprio atleta está mais bem monitorado. Você monta um laudo, e até para vender o jogador depois é mais interessante.

Universidade do Futebol – Os primeiros meses do ano já foram suficientes para as pessoas do clube entenderem isso ou ainda há resistência?
Alex Evangelista –
Muito. A gente percebe isso até pela disponibilidade de construir um espaço que não é barato.

Universidade do Futebol – Hoje em dia, o trabalho que vocês fazem é muito reativo (pegar atletas que estão no elenco, aprimorar a condição deles e impedir que eles se machuquem, por exemplo). Existe uma ideia também de usar esses dados para definir quais jogadores podem ser contratados no futuro?
Alex Evangelista –
Sim, existe. Porque aí você já tem um norte: de que tipo de atleta você gosta, que tipo de valência você busca. Você pode montar um perfil e ter um norte.

Universidade do Futebol – Como é o controle desses dados? Como eles são tabulados, armazenados e cruzados?
Alex Evangelista –
Ainda é muito recente. Como a gente ainda está comprando equipamentos, algumas coisas acontecem por experiência e feeling. Mas isso não é o ideal e não é o que vai acontecer na frente. A gente está comprando um GPS validado cientificamente, uma célula de carga para mensurar força, um equipamento de ponta para antropometria. Não existe mais medição por dobra cutânea. No fim do ano a gente vai sentar e organizar um laudo com o departamento de inteligência e fazer um diagnóstico.

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