Universidade do Futebol

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28/03/2018

Copiar não é solução

"Quando o dedo aponta para o céu, o idiota olha para o dedo..." O menino de Sacrè-Coeur, do filme Le Fabuleux destin d'Amélie Poulain (2001)

Olá, caro leitor!

Como é do conhecimento (e alegria!) da grande maioria, mais uma Copa vem se aproximando!

O futebol já possui uma enorme exposição da mídia (dado que se comprova pelo fato de as receitas com direitos de transmissão serem as principais de vários clubes no Brasil e no Mundo) e, em tempos de Copa do Mundo, as atenções voltadas ao jogo e tudo o que o cerca são ainda maiores. Tudo relacionado ao jogo ganha uma repercussão maior nesse momento.

Voltando um pouco no tempo, cerca de 4 anos, é bem viva ainda a lembrança de 08 de julho de 2014, dia do fatídico 7×1 em favor da Alemanha. Foi notória, e ainda mais sustentada, a ideia de que nosso futebol vivia uma crise técnica (ideia que já refutei em minha primeira coluna nesta casa) que passava desde os nossos jogadores até aos nossos treinadores. Motivados por essa ideia, cresceu ainda mais o êxodo de treinadores (em todos os níveis de atuação) para o continente Europeu em busca de novos conhecimentos. O que é extremamente positivo!

Ainda assim, é preciso esclarecer que ir até a Europa para tão somente assistir sessões de treino, é deveras insuficiente para se afirmar que está atualizado com o que é feito de mais moderno no mundo do futebol, ou então, ler as biografias de treinadores de sucesso como Ferguson, Mourinho e Guardiola, ou muito menos, utilizar nomenclaturas rebuscadas para se traduzir como a equipe “A” ou “B” joga.

Será que, em matéria de conhecimento em Futebol, estamos realmente compreendendo o que é desenvolvido fora do nosso país? Será que tudo o que é produzido fora é adequado para nossa realidade? Possuímos as mesmas demandas?

A partir da expressão “complexo de vira-lata” (criada pelo dramaturgo Nelson Rodrigues para ilustrar a falta de autoestima do brasileiro), peço a licença poética para a parafrasear com a expressão “complexo de 7×1”. Pois desde aquele dia, a ideia de que está tudo errado no futebol brasileiro tem ganhado mais e mais força.

E os radicais estão dos dois lados! Pois existem também aqueles que, salivando soberba, apontam as cinco estrelas da camisa de nossa seleção, dizendo que não é preciso sair do país em busca de conhecimento, que não há nada de novo lá fora, que tudo de inovação que hoje se apresenta no futebol já havia sido desenvolvido antes pelos brasileiros.

E então eu lhe pergunto, leitor, quem está certo?

Saber jogar é a mesma coisa que saber ensinar/treinar? Ler livros ou escrever teses é a mesma coisa que saber ensinar/treinar? Assistir a uma sessão de treino ou ver o planejamento da sessão é a mesma que compreender o que ali está sendo feito? Aquilo que funcionou bem para Portugal, também funcionou para Espanha, Bélgica ou aqui no Brasil?

Senhores, a meu ver, no geral, o olhar está um tanto quanto à margem do problema… Erramos ao fazer o diagnóstico. A demanda de um, não necessariamente é a do outro. Pensamos num médico receitando remédio a um doente, ele pode até utilizar a mesma forma de diagnosticar e o medicamento para tratar dois pacientes, porém, de acordo com a gravidade da patologia de cada um, irá indicar a posologia do remédio. Precisamos entender melhor qual é a demanda dos nossos problemas! Para, então, conseguir buscar solução da melhor forma possível.

Não adianta dar respostas a perguntas que não foram feitas.

Por que a literatura do futebol português é amplamente difundida no Brasil e a do futebol inglês, italiano, alemão ou belga não é? Seriam os portugueses o farol do conhecimento em futebol, ou seríamos nós brasileiros que nos acomodamos pela facilidade de compreensão da língua?

Nosso futebol possui sim sérios problemas. Não me canso de dizer que basta olhar países com uma dimensão territorial e população muito menor (dado que também trouxe em minha primeira coluna aqui) e que tem obtido resultados significativos quanto à formação de jogadores, estrutura física e administrativa, qualidade de jogo de suas equipes e seleções nacionais, e também de conquista de títulos. Fazemos pouco com muito mais recursos humanos disponíveis em nosso país. E nossa visão do problema não pode ser fragmentada, não adianta “copiar” o tratamento que estas nações utilizaram para resolver os seus problemas, nossos problemas e demandas são diferentes! Ano após ano o Brasil e a América do Sul continuam sendo os polos que mais exportam jogadores para os grandes centros, seria então a qualidade técnica nosso maior problema? São muitos os que dizem que a qualidade técnica (como se o jogador fosse um boneco de Lego®) dos nossos jogadores diminuiu, que precisamos fazer treinamentos individualizados (e na maioria das vezes de forma descontextualizada do jogo), enfim, são vários os problemas levantados e muitas vezes identificados fora de uma ótica sistêmica da nossa realidade, e para solver esses “problemas”, buscam resoluções que funcionaram para os problemas do futebol de outros países, como se fosse tudo igual. Será que essa é realmente a melhor saída? Será que estamos realmente conseguindo diagnosticar nossos reais problemas?

Senhores, trouxe aqui vários questionamentos. E é válido ressaltar que não estou do lado de nenhum dos radicais, busco estudar e fazer uso do conhecimento desenvolvido por várias nações diferentes (e não somente de conteúdo específico do futebol), mas não descarto excelentes autores e profissionais que possuímos aqui (Alcides Scaglia, João Batista Freire, Israel Teoldo, Tite, Fernando Diniz e etc.), é preciso encontrar um equilíbrio nisso tudo, não desconsiderar tudo que é feito aqui para reproduzir tudo que é feito fora, e vice-versa! O olhar deve ser sistêmico, buscando visualizar a dimensão e necessidade dos nossos problemas.

Copiar não é a solução, e muito menos, ignorar.

Até a próxima, senhores!

Comentários

  1. Jefferson disse:

    Parabéns !
    Reflexão de suma importância para um trabalho de qualidade e bem direcionado.

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