Universidade do Futebol

Entrevistas

07/04/2006

Coronel Marcos Marinho

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Marinho é a favor da
profissionalização da arbitragem

 

A arbitragem paulista no ano passado virou, literalmente, caso de polícia, devido às denúncias de armação de resultados pelo ex-árbitro Edílson Pereira de Carvalho.

 

Coincidência ou não, o homem que foi escolhido para assumir a comissão de arbitragem da Federação Paulista de Futebol (FPF) e recuperar a credibilidade dos árbitros de São Paulo, foi o coronel Marcos Marinho.

 

O coronel Marinho, hoje oficial da reserva, depois de 30 anos de serviços prestado à corporação da Polícia Militar, desde outubro de 2005, trocou o comando do Segundo Batalhão de Choque da Polícia Militar do Estado, para chefiar o quadro de apitadores da principal federação do país.

 

Antes de se tornar o responsável pela arbitragem da FPF, o Marinho comandou o policiamento nos estádios de futebol do Estado por 17 anos.

 

Em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol, o coronel Marinho conta como surgiu a proposta para assumir a presidência da comissão e os projetos para o Paulistão 2007. Ele também avalia o atual estágio da arbitragem paulista e revela que chefiar os quase 500 árbitros do quadro da FPF é mais difícil do que comandar um destacamento de 700 policiais em dia de jogo.

 

Universidade do Futebol – Como surgiu a proposta para assumir a presidência da comissão de arbitragem da FPF?

Coronel Marcos Marinho – Foi um convite pessoal do presidente (da FPF, Marco Polo Del Nero), já que ele queria uma pessoa completamente neutra, sem vínculos com clubes, para começar um trabalho novo de reestruturação da arbitragem e de recuperação da credibilidade.

 

Universidade do Futebol – Qual era a situação dos árbitros quando assumiu o cargo?

Coronel Marinho – Senti que eles estavam muito desprotegidos, faltava uma estrutura que pudesse dar mais respaldo e segurança ao quadro de árbitros. Porém fiquei muito surpreso em relação ao bom nível, de formação e cultural, destes profissionais.

 

Universidade do Futebol – É mais difícil comandar o destacamento da polícia em dia de jogo ou administrar os problemas da arbitragem?

Coronel Marinho – Aqui você tem de ser mais político, ter um jogo de cintura maior, é preciso ouvir as reclamações dos dirigentes e aceitá-las, porque faz parte do nosso trabalho. Escutar os árbitros também, mas o trato com ambos é muito bom, pois são pessoas de muito bom nível. Por outro lado, no comando do destacamento a nossa autoridade é maior, ou seja, temos maior ascendência sobre os soldados e, por isso, acaba ficando mais fácil o controle dos problemas.

 

Universidade do Futebol – Quais foram as principais mudanças feitas pelo senhor na arbitragem, além da introdução do ponto eletrônico?

Coronel Marinho – Criamos um regulamento para os árbitros, com critérios objetivos quanto às avaliações, sorteios, obrigações e direitos. Também dividimos os quadros de árbitros em três grupos, Ouro, Prata e Bronze, e assim estabelecemos os sorteios para definirmos os trios para cada jogo. O regulamento foi criado para criar normas para os árbitros e para a própria comissão, de forma transparente. Outra novidade é o ranking dos árbitros, em que os pontos são distribuídos de acordo com a performance deles nos jogos, nos testes físicos, práticos e teóricos. Vale lembrar que sanções administrativas e reclamações com fundamento, feitas pelos dirigentes, acarretam na perda de pontos no ranking. A finalidade dele também é de estabelecer um critério mais claro para definir os sorteios conforme a importância dos jogos e dos campeonatos.

 

Universidade do Futebol – E em relação à condição técnica e física o que mudou na tua gestão?

Coronel Marinho – Maior número de avaliações por ano. Hoje realizamos cinco provas técnicas sobre regras e outros temas pertinentes a atividade e mais duas físicas. Através do monitoramento do GPS e de estudos realizados sobre a dinâmica do jogo, estabelecemos uma média ideal em relação à quilometragem percorrida pelos árbitros, que seria entre 9 e 14 km por partida. De acordo com esse estudo podemos melhorar a preparação dos árbitros na questão física.

 

Universidade do Futebol – Como classifica a arbitragem deste Campeonato Paulista?

Coronel Marinho – De forma geral, diria que boa. Tenho como parâmetro o número de reclamações que sofremos dos clubes. No início de minha gestão eram cinco ou seis por rodada, agora este número caiu para duas ou três. Então, acho que melhoramos uns 50 por cento. Mas é claro que buscamos melhorar ainda mais e iremos, pois o trabalho de reestruturação da arbitragem está apenas começando.

 

Universidade do Futebol – O menor número de críticas dos clubes se deve a quê?

Coronel Marinho – A algumas medidas que tomamos para melhorar este relacionamento com os clubes. Uma delas foi implantar um rodízio de arbitragem, com isso, em 19 rodadas, no máximo um árbitro apitará três jogos da mesma equipe. Isso evita os desgastes naturais entre árbitros, atletas, técnicos e clubes.

 

Universidade do Futebol – Qual seria o maior problema da arbitragem atualmente?

Coronel Marinho – Na minha opinião é o árbitro não ser profissional e não poder se dedicar integralmente a sua preparação. Ele teria que ter a mesma rotina dos atletas, treinar antes dos jogos, preparar-se para cada partida e viver exclusivamente desta atividade.

 

Universidade do Futebol – A FPF tem sempre inovado nos campeonatos com a implementação de novas regras de jogo e recursos como o spray. O Paulistão 2007 terá alguma novidade?

Coronel Marinho – De acordo com estudos realizados, chegou-se à conclusão de que a desidratação afeta em muito a concentração, que é fator primordial para uma boa arbitragem. Então, a minha idéia é de que o árbitro possa se hidratar durante o jogo e, para isso, ele levaria junto ao uniforme, um recipiente de 300ml com água ou isotônicos.

 

Universidade do Futebol – Depois dos casos do Edílson Pereira de Carvalho e do Paulo José Danelon, como ficou a imagem da arbitragem paulista?

Coronel Marinho – Ficou fragilizada e com pouca credibilidade.

 

Universidade do Futebol – O que é possível para evitar novos casos como estes?

Coronel Marinho – Hoje, todos os árbitros da FPF têm uma licença para apitar e a cada ano ela precisa ser renovada. Para isso, eles precisam apresentar certidões negativas de cartórios e de antecedentes a cada renovação. Desta forma temos maior controle sobre a situação de cada profissional.

 

Universidade do Futebol – Como foi ou está sendo o trabalho de recuperação da credibilidade?

Coronel Marinho – É importante estabelecer uma blindagem ao árbitro, realizar uma fiscalização minuciosa do trabalho deles, com normas claras e estar sempre atento. Por isso a FPF criou a própria ouvidoria da arbitragem, para receber denúncias, e a corregedoria, para investigá-las. Queremos fazer tudo da forma mais transparente possível.

 

Universidade do Futebol – Como avalia algumas mudanças no sistema de arbitragem, como aumentar o número de árbitros e assistentes em campo, como em outros esportes?

Coronel Marinho – É uma questão complicada, pois a Fifa padroniza a arbitragem no mundo todo e sendo assim, algumas destas mudanças são inviáveis pelo custo. Algumas federações não teriam condição de pagar dois árbitros por jogo. Mas em relação, ao menos, aos lances de gol e se a bola entrou ou não, temos que fazer algo neste sentido, pois é humanamente impossível, em certos casos, o assistente assinalar com precisão este tipo de jogada.

 

Universidade do Futebol – E o uso da tecnologia na arbitragem, como o auxílio da TV, chip na bola e outros?

Coronel Marinho – O problema é o mesmo, quem arcaria com a introdução deste chip em todas as bolas dos campeonatos? O custo também é alto. O mesmo se aplica ao uso da televisão.

7/4/2006

 

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