Covid-19 e a influência no desempenho das equipes europeias

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A pandemia provocada pelo vírus COVID-19 alterou drasticamente as condições do futebol competitivo em todo o mundo, com o cancelamento ou adiamento da maioria das competições em andamento. Entre fevereiro e março de 2020, como toda população, os jogadores profissionais de futebol tiveram suas vidas restringidas e aderiram ao isolamento social. Sem a previsão de retorno, as comissões técnicas dos clubes elaboraram protocolos de treinamento individuais com intuito de manter a aptidão física dos atletas1.

Por ser um jogo de equipe, manter a forma do atleta através do treinamento individual é um grande desafio, devido à dificuldade de adequar ao treino ações intensas específicas do futebol, como cabeceio, chutes, mudanças de direção, aceleração, desaceleração2. Além destes fatores, é muito difícil para o atleta ter a motivação necessária para manter diariamente uma intensidade satisfatória do treinamento prescrito a distância, sem a presença dos companheiros de equipe e comissão técnica.

Num segundo estágio, os jogadores começaram a treinar em pequenos grupos com estrita restrição de contato e o retorno aos campeonatos ocorreu após poucas semanas de preparação da equipe.

Fica evidente que os treinamentos aplicados durante a pandemia não foram suficientes para a preparação ideal do atleta, portanto, é esperada uma menor aptidão física, maior fadiga e elevado risco de lesões durante os jogos oficiais.

A mudança drástica que a pandemia trouxe em contextos “externos” como jogos, treinos e campeonatos, se fez também no “mundo interno” através dos pensamentos, sentimentos e comportamentos dos atletas e comissão técnica.

Um cenário completamente novo leva a mudanças transformadoras que modificam e influenciam a forma do indivíduo agir e reagir diante do que era habitual.

UEFA CHAMPIONS LEAGUE NA PANDEMIA

Paralisada em 11 de março, a Champions League retornou no dia 07 de agosto nas quartas de finais, com um novo formato, contendo sede única para as rodadas finais e partidas sem público. Classificados para esta fase estavam o Atalanta, Atlético de Madrid, Barcelona, Bayern de Munique, Lyon, Manchester City, Paris Saint-Germain e RBR Leipzig.

Os alemães Bayern de Munique e RBR Leipzig juntamente com os franceses Lyon e Paris Saint-Germain avançaram para as semifinais. Os alemães destacaram-se por sua organização tática e preparo físico enquanto os franceses pela qualidade técnica de seus jogadores. A final entre Paris Saint-Germain e Bayern de Munique foi realizada recentemente em 23/08, em que a equipe alemã sagrou-se campeã. 

O desempenho dos times alemães foi surpreendente, o novato RBR Leipzig chegou às quartas de finais eliminando um grande time espanhol, o Atlético de Madri e a campanha do Bayern de Munique foi irretocável, os números impressionaram, 11 jogos e 11 vitórias, primeiro clube a ganhar a campeonato com aproveitamento de 100%, 43 gols em 11 jogos, média de 3,91 gols por partida, a maior da história da Liga dos Campeões.

Vários fatores podem ter influenciado o sucesso dos alemães na competição, o principal é a volta às atividades coletivas relativa antecedência, se comparados aos adversários. Fatores como estratégias de treinamento adaptadas nas diferentes fases da pandemia e protocolos eficazes de segurança contra contaminação criaram um contexto para volta aos treinos e campeonatos, o que se acredita ter dado significativa vantagem às equipes alemãs.

Um fato interessante é que fora de campo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a Alemanha apresentou melhor enfretamento à COVID-19 em relação aos países dos times adversários nas quartas de finais: Itália, Inglaterra, França e Espanha, com menor número de mortos por milhão de habitantes, conforme demonstrado no infográfico ao lado.

O número de mortos na Alemanha é cerca de 7 vezes menor que no Reino Unido, 6 vezes que na Espanha e Itália e 4 vezes que na França.

Não há até o momento comprovação científica que a relação de óbitos pelo COVID-19 menor da Alemanha tenha trazido vantagens para o futebol, mas é possível conjecturar que este fato pode ter dado condições melhores de treinamento bem como maior tranquilidade para os atletas e familiares durante o ápice da pandemia na Europa.

Nessa capacidade do sistema nervoso de promover adaptações e superar situações difíceis reside a ajuda para lidar com as incertezas neste mundo em contínua mudança, fato que pode ter sido determinante para os alemães nesse confronto. Todo esse contexto pode ter propiciado melhores condições de treinos. No mundo esportivo, a tendência é que quanto mais e melhor se treina, mais bem preparado o atleta e toda uma equipe estará para enfrentar os desafios competitivos. Neurociência e desempenho costumam andar de mãos dadas.

Referências

1. Mohr M. et al. Return to elite football after the COVID-19 lockdown. Managing Sport and Leisure, 2020.

2. Bangsbo J. et al. Training and testing the elite athlete. Review. Journal of Exercise Science and Fitness, 2006.

1.Psic.: Teor. e Pesq. vol.17 no.2 Brasília May/Aug. 2001 – Artigo Plasticidade Neural: Relações com o Comportamento e Abordagens Experimentais.

HANSON, R. “O cérebro de Buda: neurociência prática para a felicidade.” (Tradução Bianca Albert) 1.ed São Paulo: Alaúde Editorial, 2012.

2.SWART, T. A neurociência da criatividade. Disponível em: <https://ssir.org/books/excerpts/entry/the_neuroscience_of_creativity#/>. Acesso em: 25 ago. 2020.

Educador físico e doutor pela Universidade Federal de São Paulo com pós-doutorado pela UNESP/Rio Claro. Possui experiência na área de Fisiologia do Exercício em grandes clubes do futebol brasileiro.

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