Universidade do Futebol

Futciência

15/08/2012

Craques na mira da justiça

Há quase dois anos, o ex-goleiro do Flamengo, Bruno Fernandes de Souza, responde em prisão ao processo que o acusa de ter organizado o sequestro e o assassinato da ex-amante, a modelo Eliza Samudio, desparecida desde julho de 2010. Mas o escândalo causado pelo jogador não é a exceção envolvendo boleiros nas páginas policiais, embora, seja um dos exemplos mais extremos.

Casos de repercussão semelhante, como o homicídio culposo cometido pelo jogador Edmundo, “o Animal”, e o flagrante com armas e suposto envolvimento com drogas do craque Adriano, ex-corinthians, escandalizam a opinião pública e desafiam a justiça a esclarecer os fatos com precisão.

Mas além da decepção do público em geral, essas personalidades do futebol também podem perder o crédito diante dos próprios patrocinadores, com quem estabelecem contratos que vão muito além do que apresentam em campo. E uma vez perdida essa credibilidade, até onde seria possível recuperá-la? Estratégias de marketing e de relações públicas seriam suficientes? Quais seriam as medidas adequadas para contornar a crise?

O Professor-mestre e jornalista especializado em negócios do esporte, Anderson Gurgel, defende que em casos de menor gravidade, esses trabalhos têm resultados positivos, mas em situações extremas, como o caso do ex-Flamengo, os problemas tendem a pesar mais do que os atributos de carisma e empatia do jogador, ou mesmo do que sua performance nos jogos. “Em situações de fuga de concentração e frequência em casas noturnas, por exemplo, ainda é possível reverter o quadro, mas no caso do Bruno, eu não consigo imaginar grandes clubes, envolvidos com empresas de ponta, querendo relacionar sua marca a ele, pois não é algo comum”, justifica.

Também compartilha da mesma opinião o diretor da agência Press FC, Fernando Mello, que presta serviços de assessoria de imagem e consultoria a clubes nacionais. “Acho muito difícil a reconstrução da imagem de um atleta acusado de um crime hediondo. Não há precedentes deste caso no esporte mundial, um crime com tamanha crueldade. Sinceramente, não vejo qual trabalho de relações públicas ou de marketing possa ser feito em uma situação como essa.”, opina.

Já o diretor executivo da L Signo Comunicação, Luciano Signorini, acredita que o trabalho de gestão da imagem pode ser feito da mesma forma, contanto que se considerem os agravantes do segundo caso. “Teria que seguir a mesma linha estratégica: entregar nas mãos do advogado a responsabilidade de porta-voz, e deixar o jogador falar somente quando tiver algo realmente importante para revelar, pois, nesses casos de escândalo, não é bom expor muito o cliente”, explica Signorini. O assessor gerenciou a imagem do jogador Edmundo na época da condenação pelo crime de infração de trânsito que levou três pessoas à morte, e durante sua estreia como comentarista esportivo.

Contra ou a favor

A atuação da imprensa também pode construir ou deturpar uma imagem por meio da comoção pública. E no mundo do esporte não é diferente. De acordo com o advogado criminalista Paulo Cremonesi, que já atendeu personalidades como o jogador Paulo Nunes e os técnicos Luiz Felipe Scolari e Vanderlei Luxemburgo, os veículos de comunicação são os principais responsáveis por levar ações penais ao conhecimento da população, influenciando indiretamente no resultado do processo. “A maioria dos jornalistas que eu conheço não entende o contexto jurídico dessa questão, mas o clamor público em cima do júri, gerado pela divulgação de casos de grande magnitude, influencia de tal maneira, que, às vezes, acabamos não tendo um julgamento muito isento”, pontua.

Para a Dra. Eliana Passarelli, promotora do Juizado do Torcedor, o algoz da imagem do jogador pode ser o próprio patrocinador, em função de interesses comerciais.

”Você não sabe até que ponto esse patrocinador está afim de manter a imagem dele forte ou de vender a condição em que ele está . O apelo de marketing em relação à marca é bastante significativo”, revela.

Torcedores de atletas

Mesmo sob influência da mídia, os torcedores dos clubes nacionais, em geral, parecem não se importar muito com as peripécias e irregularidades jurídicas dos jogadores, mas avaliam sua condição técnica e reposta dentro do campo. Além de torcerem pela equipe, também torcem pelos atletas, ainda mais quando esses são estrelas, como Neymar, Edmundo, Ronaldo e até mesmo, o polêmico Bruno. “Com certeza a torcida apoiaria a volta dele, sim, se ele desempenhasse bem o seu papel nos jogos. E o tempo se encarregaria de anular os agravantes”, declara o flamenguista Denilson Cafala, estudante de engenharia, sobre o regresso do ex-goleiro ao rubro-negro.

Para o torcedor do Vasco, Lucas Rocha, em casos gerais, essa “segunda chance” depende tanto do jogador quanto da mentalidade da torcida e da diretoria. Ele cita o exemplo do jogador Adriano. “Ele não deu certo no Corinthians, mas é o maior anseio da torcida do Flamengo, para fazer companhia a Ronaldinho e Vagner Love”, compara o estudante de comunicação social. Ele afirma que apoiaria a entrada de um atleta com problemas na justiça no Vasco, caso o time carecesse, mas também destaca a importância da boa condição técnica. “Se o jogador não estiver em grande fase, críticos surgiram por todos os lados”, concorda.

O envolvimento de atletas com escândalos de origem judicial é um fenômeno que abrange diversas esferas da sociedade, contudo o maior prejudicado com a situação é sempre o próprio jogador, devido ao ônus da cobrança, sofrido em função da fama. “Ele é um ídolo, e como tal, também é uma imagem, com atributos de carisma, performance e empatia. Se essa imagem está brilhando mais, os problemas são amenizados, mas o contrário também é real”, conclui o Professor-mestre Anderson Gurgel.

*Orientada por Rodrigo Viana, professor de pós-graduação em Jornalismo Esportivo na FMU

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