Universidade do Futebol

Entrevistas

03/10/2014

Cristian de Souza, técnico do Figueirense sub-20

Apesar de o Brasil já contar com bons profissionais atuando na área do treinamento nas categorias de base dos clubes, o trabalho de formação de novos futebolistas no país ainda está muito longe do que é considerado ideal para abastecer de forma contínua as equipes profissionais e a seleção brasileira.

Mesmo alguns clubes oferecendo boas estruturas, campos de treinamento, alojamentos, comissões técnicas preparadas, para as suas jovens promessas no futebol, a ausência de um padrão nos processos de trabalho, nos conceitos utilizados, além da exigência de resultados por parte das direções e a falta de profissionais qualificados na área de coordenação técnica, dificulta o desenvolvimento de uma metodologia de formação de novos atletas.

“Os clubes não sabem que tipo de atletas querem desenvolver. Vivemos da aleatoriedade da descoberta do talento individual, do jogador formado na rua, rico em habilidades motoras, do jogador maturado precocemente, que gera ‘resultados positivos na base’, etc. Há exemplos de clubes como o nosso, que prezam pela qualidade individual de seu jogadores, outros pela capacidade física e competitiva”, afirma Cristian de Souza, treinador do Figueirense sub-20.

Com experiência nas categorias de base do futebol do Rio Grande do Sul, o jovem profissional enfrenta os mesmos problemas e dificuldades agora no clube catarinense. Com isso, ele já tem conhecimento do caminho que o futebol brasileiro deve trilhar para voltar ao protagonismo do cenário mundial.

“Devemos criar de fato uma escola brasileira de futebol, onde se possa, em médio e longo prazo, ser desenvolvido um documento orientador metodológico, com a nova cara do futebol brasileiro, sem cópias metodológicas e de modelos de fora, mas sim com a nossa cultura de futebol, através de reuniões semestrais, entre os clubes ditos formadores, etc.”, aponta.

Nesta entrevista, Cristian de Souza ainda falou sobre a sua preocupação com as características humanas dos jogadores durante a formação e qual o nível técnico e de inteligência de jogo do jogador brasileiro atualmente. Confira:  

 

Universidade do Futebol – Como foi sua trajetória profissional até chegar ao Figueirense?

Cristian de Souza – Alternei em ser jogador de futebol de campo e futsal dos 14 aos 23 anos, e na época já cursava Educação Física. Quando deixei de jogar, logo me tornei treinador das categorias de base do Clube Esportivo de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. Permaneci no clube por oito anos, passando por todas as categorias do clube até chegar à equipe profissional, na qual fui auxiliar técnico permanente por dois anos.

Já no ano de 2008, me tornei treinador principal no Campeonato Gaúcho, daquele mesmo ano. Logo após fui ser novamente auxiliar técnico em alguns clubes do interior do Rio Grande do Sul, e passei por Veranópolis, Ulbra e Pelotas. Em 2009, fui contratado pelo Grêmio, de Porto Alegre, para ser treinador da categoria sub-17. Seis meses depois passei à categoria sub-20, e na sequência assumi o Grêmio B. Fiquei no clube até o final do ano de 2011.

No mesmo ano, retornei para o Pelotas para exercer a função de coordenador técnico do clube. Na metade de 2012, aceitei o convite para assumir a coordenação técnica e metodológica, bem como treinar a categoria sub-17 do Fragata FC, da mesma cidade, clube de propriedade do ex- capitão da seleção brasileira Emerson da Rosa, até ser contratado no início deste ano pelo Figueirense, aqui de Santa Catarina.

O nível técnico e de inteligência de jogo é baixo, principalmente nas equipes profissionais. E é nossa forma treinar e jogar, enfim, de conceber o jogo que nos leva a isso. O jogo brasileiro, em geral, tirando algumas poucas exceções, está hoje baseado no jogo físico de força, mais suado do que pensado, como costumo dizer, afirma o técnico do Figueirense sub-20

Universidade do Futebol – Como se dá a integração entre as equipes de base e o departamento de futebol profissional no Figueirense?

Cristian de Souza – O clube está passando por um momento delicado na Série A do Campeonato Brasileiro, lutando para se manter na elite para o ano que vem. Houve algumas mudanças bem importantes no comando técnico (duas trocas de treinadores desde o início do ano). Aconteceram também trocas na área executiva e de gestão do profissional e das categorias de base.

E tudo isso gera um período de adaptação de quem está chegando para assumir estas funções, como também dos que aqui já estavam para se adequar as novas diretrizes. Acredito que a partir de agora, com a melhora na classificação da equipe profissional e com o tempo maior destes novos profissionais dentro do clube, o equilíbrio se restabeleça.

Ideias e soluções existem, profissionais capacitados também, o que precisamos é ter uma instituição capacitada e digna que leve essas e outras tantas formas de melhorar o futebol do Brasil para a prática, e logo. Caso contrário, perderemos de vez a capacidade de voltarmos a ter o protagonismo, já perdido, do futebol mundial, aponta Cristian de Souza

Universidade do Futebol – O modelo de jogo das categorias de base do Figueirense é o mesmo para o sub-15, sub-17 e sub-20? Existe alguma preocupação neste sentido, ou cada treinador determina o modelo que pretende jogar?

Cristian de Souza – O Figueirense tem de certa forma uma cultura de futebol, que elege a qualidade técnica dos seus jogadores como ponto principal em suas equipes. Também assume uma postura de protagonista do jogo, principalmente no âmbito estadual.

Desde a minha chegada, venho levando à discussão com os demais treinadores, membros de comissões e coordenação técnica, a importância de incrementarmos a esse modelo de jogo uma visão mais competitiva e tática/estratégica. Acredito que estamos, mesmo de maneira lenta e gradual, evoluindo neste sentido, buscando um padrão comportamental e conceitual, nos diferentes momentos do jogo, em todas as categorias.

O Figueirense tem de certa forma uma cultura de futebol, que elege a qualidade técnica dos seus jogadores como ponto principal em suas equipes. Também assume uma postura de protagonista do jogo, principalmente no âmbito estadual, explica

Universidade do Futebol – Na sua avaliação, os clubes de formação do Brasil, de maneira geral, sabem que tipo de atletas querem desenvolver? Explique, por favor.

Cristian de Souza – Não sabem, não. Vivemos da aleatoriedade da descoberta do talento individual, do jogador formado na rua, rico em habilidades motoras, do jogador maturado precocemente, que gera “resultados positivos na base”, etc. Há exemplos de clubes como o nosso, que prezam pela qualidade individual de seu jogadores, outros pela capacidade física e competitiva.

Agora, falta de maneira geral, uma sequência de trabalho em nosso futebol (do campo à gestão), uma filosofia de futebol nos clubes, uma identidade, e uma metodologia de formação.

No nosso trabalho de formação, a busca é permanente por “caráter” quando se escolhe um jogador. E essa é uma das dificuldades, porque só se descobre as pessoas com o passar do tempo e principalmente na hora do desconforto. Mas, quem quer jogadores em um modelo de jogo coletivo e alta complexidade, como o nosso, precisa ter jogadores de bom caráter, no mínimo em 80% do seu elenco, analisa o treinador

Universidade do Futebol – No Figueirense, existe algum processo de seleção para contratação de treinadores para base? Quais os critérios são utilizados nestas contratações?

Cristian de Souza – Acredito que ainda não exista. A minha contratação, por exemplo, foi feita por meio de uma indicação do então gerente de futebol das categorias de base do clube, após a observação do meu trabalho na minha antiga equipe.

Universidade do Futebol – Cada vez mais as grandes equipes se preocupam com as características humanas dos jogadores (perseverança, trabalho em equipe, responsabilidade, etc.). Como você e o Figueirense entendem estas questões na formação de novos futebolistas?

Cristian de Souza – No nosso trabalho de formação, a busca é permanente por “caráter” quando se escolhe um jogador. E essa é uma das dificuldades, porque só se descobre as pessoas com o passar do tempo e principalmente na hora do desconforto.

Mas, quem quer jogadores em um modelo de jogo coletivo e alta complexidade, como o nosso, precisa ter jogadores de bom caráter, no mínimo em 80% do seu elenco. Meu modelo de jogo me cobra isso o tempo todo, porque quero marcação zonal, quero meu time jogando com linhas altas e compactas, com uma transição defensiva agressiva, para não deixar o adversário se organizar para atacar. Exijo marcação mista e linha alta nas bolas paradas etc.

Já comprovei na prática, que em grupo de baixa média de caráter, todos esses princípios são impossíveis de se alcançar na prática. Inclusive, é importante ter uma boa média de caráter também entre membros de comissão técnica, funcionários e direção do clube.

Precisamos rever diversos conceitos, como calendário, idades e divisão de categorias, tamanho dos campos, traves e quantidade de jogadores nas idades menores, exigência de resultados por parte das direções, falta de profissionais qualificados nos grandes clubes na área de coordenação técnica/metodológica, entre outros, lista Cristian de Souza

Universidade do Futebol – O que você acha do nível técnico e de inteligência de jogo do jogador brasileiro atualmente?

Cristian de Souza – O nível é baixo, principalmente nas equipes profissionais. E é nossa forma treinar e jogar, enfim, de conceber o jogo que nos leva a isso. O jogo brasileiro, em geral, tirando algumas poucas exceções, está hoje baseado no jogo físico de força, mais suado do que pensado, como costumo dizer.

São jogos de muita baixa complexidade tática e estratégica. Muitas vezes, são 22 jogos dentro de um, onde cada jogador faz o seu jogo, toma as suas próprias decisões, vira um jogo sem lógica, à mercê da qualidade individual e do momento anímico das equipes.

Sempre que possível, conversamos com os jovens atletas, não somente da categoria sub-20, mas também de outras idades, falando sobre essa transição da base para o profissional, que é muito complicada. E para que nunca desistam dos seus sonhos, completa o profissional da área do treinamento

Universidade do Futebol – A grande maioria dos jogadores da base não chegará ao futebol profissional por "N" motivos. Como prepará-los para que esta frustração não atrapalhe a formação do cidadão? Existe alguma preocupação sua neste sentido?

Cristian de Souza – Apesar de ter a formação acadêmica de educador, acredito que essa questão não deva ser de nossa preocupação. Nossa que eu digo é em relação à comissão técnica, já que variadas obrigações no dia a dia dos clubes nos consomem tempo e preocupação. Acredito que estamos despreparados para essa importante questão.

Isso tem de ficar a cargo de um setor mais especializado dentro dos médios e grandes clubes, principalmente. Áreas como a psicologia, pedagogia, assistência social, seriam as mais indicadas e competentes para cuidar deste, digamos, período pós-futebol de tantos jovens, que sabemos que não vão alcançar a categoria principal, e principalmente se manter do esporte para o resto da vida.

Mas sempre que possível conversamos com os jovens atletas, não só da categoria sub-20, mas também de outras idades, falando sobre essa transição da base para o profissional, que é muito complicada. E para que nunca desistam dos seus sonhos.

Falta de maneira geral, uma sequência de trabalho em nosso futebol (do campo à gestão), uma filosofia de futebol nos clubes, uma identidade, e uma metodologia de formação, diz o profissional das categorias de base

Universidade do Futebol – Em sua opinião, o que deve mudar no trabalho das categorias de base nos clubes brasileiros? De forma geral você acredita que o trabalho é bem feito, pelo menos nos grandes clubes?

Cristian de Souza – Tem muita coisa para ser mudada. O momento atual, pós-Copa, nos mostra isso de maneira bem clara, pensar que o 7×1 foi algo isolado, é um tremendo erro, e nós que vivemos do futebol não podemos compactuar. O fatídico Brasil e Alemanha, juntamente com outros tantos vexames dos últimos anos do futebol brasileiro, são apenas a ponta do iceberg, temos todos a nossa parcela de culpa.

Falando mais especificamente de base, precisamos rever diversos conceitos, como calendário, idades e divisão de categorias, tamanho dos campos, traves e quantidade de jogadores nas idades menores (sub-8 a sub-12 ), escolha de jogadores maturados em detrimento de jogador mais técnicos e com maior projeção futura, pela exigência de resultados por parte das direções, falta de profissionais qualificados nos grandes clubes na área de coordenação técnica/metodológica, exigência de qualificação para profissionais que queiram trabalhar nos clubes de formação, principalmente nas idades mais sensíveis (sub-15 pra baixo).

Criar de fato uma escola brasileira de futebol, onde se possa, em médio e longo prazo, ser desenvolvido um documento orientador metodológico, com a nova cara do futebol brasileiro, sem cópias metodológicas e de modelos de fora, mas sim com a nossa cultura de futebol, através de reuniões semestrais, entre os clubes ditos formadores, etc.

Ideias e soluções existem, profissionais capacitados também, o que precisamos é ter uma instituição capacitada e digna que leve essas e outras tantas formas de melhorar o futebol do Brasil para a prática, e logo. Caso contrário, perderemos de vez a capacidade de voltarmos a ter o protagonismo, já perdido, do futebol mundial.

 

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