Dani Morales, treinador do Litex Lovech sub-19, da Bulgária

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Diferentemente do que ocorreu com o futebol na Alemanha desde os anos 2000, quando o esporte ganhou um projeto unificado entre federações e escolas em todo o país, a Bulgária ainda tem muitas dificuldades de se implantar um forte investimento na formação continuada nas categorias de base dos clubes.

Assim como acontece no Brasil, a falta de suporte das entidades que organizam o futebol local, além dos clubes não valorizarem o trabalho realizado para o desenvolvimento de novos talentos, também atrapalha a evolução do futebol praticado na Bulgária, país que não disputa uma Copa do Mundo desde 1998, na França.

Mas, Dani Morales tenta remar contra essa maré e tem conseguido desenvolver um trabalho focado na formação de jovens futebolistas naquele futebol do leste europeu. Treinador do Litex Lovech sub-19, o brasileiro radicado na Bulgária desde que se aposentou como jogador se orgulha de dizer que 60% do time profissional são formados no próprio clube, além do título da categoria na temporada 2013/2014.

“Na Bulgária, ainda precisamos de uma melhor organização e suporte da federação, tudo aqui fica por conta dos clubes, que por sua conta não valorizam como deveriam o trabalho de formação. São poucos os clubes que investem na base, por isso ainda há muito jogador estrangeiro no país”, aponta Dani Morales.

Com apenas o ensino médio completo quando saiu do Brasil, ele terminou sua formação acadêmica no país europeu. Atualmente, já tem as licenças C e B da Uefa, e agora aguarda uma vaga no curso do nível A, que permite o profissional trabalhar como auxiliar técnico no time principal dos clubes de toda a Europa.

Neste âmbito, no entanto, Dani Morales vê vantagens por atuar na Bulgária em relação ao futebol brasileiro. “Esta é uma situação que, por estarmos no leste europeu e estamos perto de tudo, temos bons cursos aqui na Bulgária e a nossa federação faz intercâmbios com outras federações de países como Alemanha, Áustria, Bélgica, Holanda, que hoje desenvolvem um trabalho de organização excelente. Também troco informações com treinadores da Inglaterra, Coreia, China, Japão. Acho que esse tipo de contato é muito válido, pois atualmente o trabalho teórico é importante também. Você tem de estar sempre se atualizando, não somente na prática do treinamento, e sim em tudo o que nele se envolve”, completa.

Nesta entrevista exclusiva à Universidade do Futebol, concedida diretamente da Bulgária, Dani Morales ainda fala sobre como vê o jogador de futebol búlgaro atual em termos técnicos e de inteligência de jogo e quais os principais desafios de se trabalhar nas categorias de base por lá. Confira a íntegra:  

 

Universidade do Futebol – Qual é a sua formação acadêmica e como se deu sua trajetória no futebol profissional?

Dani Morales – Meu nome é Daniel Alexandre Morales Batagello, sou natural de Jau, no interior de São Paulo, e tenho 38 anos. Tenho ensino médio e cheguei a cursar até o primeiro ano da faculdade de Educação Física, quando tive que interromper o curso por causa do futebol. Na época, o meu treinador era José Poy, então do XV de Jaú, e ele me disse que era para eu escolher (entre a faculdade e o futebol).

Então, comecei minha carreira jogando nas categorias de base do XV de Jaú, em 1995, e subi para o profissional do mesmo clube. Naquele ano, subimos para a Série A-1 do Campeonato Paulista. Daí, fiquei no clube até 1997. Um ano depois, fui para o Mogi Mirim disputar o Estadual e na mesma temporada tive uma passagem pelo Fernandópolis-SP.

Entre janeiro de 1999 a junho de 2000, trabalhei no Garça-SP, onde no mesmo ano, depois de um bom trabalho, fui emprestado ao Coritiba para a disputa do Campeonato Brasileiro. Lá, o próprio clube adquiriu meus direitos e fiquei no Coritiba até 2002. Após essa passagem, de 2003 até 2011, joguei em várias equipes da Primeira Divisão da Bulgária até me aposentar.

Joguei em várias equipes da Primeira Divisão da Bulgária até se aposentar. Mas, antes de parar de jogar futebol, eu já tinha em mente um projeto de fazer cursos de treinador. Sempre fui muito interessado nas questões técnicas e táticas e, no meu último ano como jogador, já tinha frequentado um curso, lembra Dani Morales

Universidade do Futebol – Como você se preparou para se tornar treinador? Como se atualiza em relação às novas demandas de treinamento e ideias de futebol?

Dani Morales – Antes de parar de jogar futebol, eu já tinha em mente um projeto de fazer cursos de treinador. Sempre fui muito interessado nas questões técnicas e táticas e, no meu último ano como jogador, já tinha frequentado um curso, o UEFA-C, que dá direito de se trabalhar em escolinhas com crianças, e também já estava cursando o seguinte (UEFA-B), o qual finalizei no ano seguinte.

Aqui na Bulgária, como em toda a Europa, você necessita desses cursos da Uefa para exercer a função de treinador. Então, já tenho dois cursos e falta mais dois, porque depois que você finaliza um (nível), tem que ter um estágio para poder avançar para o próximo, isso sem falar que há muitos candidatos. Agora estou na lista de espera para a licença UEFA – A, esta já permite o profissional trabalhar como auxiliar técnico no time principal dos clubes de toda a Europa.

Esta é uma situação que, por estarmos no leste europeu e estamos perto de tudo, temos bons cursos aqui na Bulgária e a nossa federação faz intercâmbios com outras federações de países como Alemanha, Áustria, Bélgica, Holanda, que hoje desenvolvem um trabalho de organização excelente.

Também troco informações com treinadores da Inglaterra, Coreia, China, Japão. Acho que esse tipo de contato é muito válido, pois atualmente o trabalho teórico é importante também. Você tem de estar sempre se atualizando, não somente na prática do treinamento, e sim em tudo o que nele se envolve.

O trabalho tem que ser árduo para chegar ao time principal e ficar lá, como acontece aqui no nosso clube. Na Bulgária, ainda precisamos de uma melhor organização e suporte da federação, tudo aqui fica por conta dos clubes, que por sua conta n&atild
e;o valorizam como deveriam o trabalho de formação, aponta o treinador

Universidade do Futebol – Conte-nos um pouco sobre as suas funções e o seu trabalho no Litex Lovech? Há quanto tempo está no clube e como é o seu dia a dia no clube?

Dani Morales – Estou no clube desde janeiro de 2013 e hoje trabalho com a categoria sub-19, pela qual fomos campeões da temporada 2013/2014. Fui convidado pelo dono clube, que já investe há muito tempo no futebol da Bulgária, temos uma das melhores academias de futebol do país, academias que nos últimos anos rendeu algumas boas transferências ao clube.

Também há vários jogadores no elenco principal, cerca de 60% são formados no próprio clube, uma política de paciência e de pés no chão. Nós, profissionais da base do Litex, nos reunimos toda segunda-feira e colocamos em pauta o trabalho semanal, problemas, soluções, etc. Além disso, trabalho como observador técnico para a equipe principal, analisando os nossos adversários.

Universidade do Futebol – Como funciona a legislação na Bulgária para se atuar como treinador de futebol? E quais as semelhanças e especificidades que a formação de treinador na Bulgária tem se comparado com as formações na Espanha, Itália, Alemanha e outros países europeus que têm uma tradição na formação de treinadores?

Dani Morales – A legislação búlgara segue as leis europeias (da Uefa). Esta organização é incumbida de organizar e dar suporte à Federação Búlgara de Futebol na escola de treinadores. Os cursos são anuais, sendo que são divididos em quatro semestres, ou seja, em um ano de curso você vai à escola de treinador quatros semanas (datas da escola de treinador), para sempre ouvir palestrantes holandeses e alemães, porque aqui na Bulgária seguimos a metodologia destes países.

Na semana do curso, as aulas são das 8h da manhã até às 7h da noite, inclui aulas teóricas na parte matinal e a tarde com aulas práticas, com disciplinas como preparação física, técnica, parte defensiva, organização tática, modelos de jogo, psicologia, etc.

E a diferença entre os países citados por você e o nosso é que os alemães, espanhóis e italianos têm um perfil meio diferente. E isso para nós é bom porque podemos aprender um pouco de cada método de trabalho. Dou um exemplo: os alemães trabalham a disciplina, organização de jogo, dinâmica, velocidade, já os espanhóis gostam muito da posse bola, jogo ofensivo, enquanto os italianos são voltados para tática, bolas paradas e têm um jogo menos dinâmico do que o alemão e o espanhol. Aqui na Bulgária, trazemos um pouco de cada cultura e tentamos colocar em prática.

Fui convidado pelo dono clube, que já investe há muito tempo no futebol da Bulgária, temos uma das melhores academias de futebol do país, academias que nos últimos anos rendeu algumas boas transferências ao clube. Também há vários jogadores no elenco principal, cerca de 60% são formados no próprio clube, uma política de paciência e de pés no chão, afirma

Universidade do Futebol – Qual a sua avaliação do trabalho realizado nas categorias de base no futebol búlgaro? Cite os principais desafios e perspectivas, por favor.

Dani Morales – São poucos lugares (clubes na Bulgária) que dão um suporte ideal à categoria de base, isso é lamentável porque sempre falamos que temos que dar chance aos jogadores da base, mas se precisa de uma preparação adequada, se não o garoto chega, não rende e não tem mais chance.

O trabalho tem que ser árduo para chegar ao time principal e ficar lá, como acontece aqui no nosso clube. Na Bulgária, ainda precisamos de uma melhor organização e suporte da federação, tudo aqui fica por conta dos clubes, que por sua conta não valorizam como deveriam o trabalho de formação.

São poucos os clubes que investem na base, por isso ainda há muito jogador estrangeiro no país. A solução seria fácil de resolver, é só fazer como a Alemanha, o time principal tem um valor anual (gastos com salários, contratações, etc) e eles são obrigados pela federação alemã a destinar 10% às categorias de base no começo da temporada. Em todo o mundo se fala em mudanças, mas ninguém toma a decisão correta como fizeram os alemães. Assim é na Bulgária como no Brasil.

Estou no clube desde janeiro de 2013 e hoje trabalho com a categoria sub-19, pela qual fomos campeões da temporada 2013/2014. Nós, profissionais da base do Litex, nos reunimos toda segunda-feira e colocamos em pauta o trabalho semanal, problemas, soluções, etc, explica Dani Morales

Universidade do Futebol – De modo geral, o que você acha do jogador de futebol búlgaro atual em termos técnicos e de inteligência de jogo? E qual o paralelo você faz com o jogador brasileiro?

Dani Morales – O jogador búlgaro tem uma boa condição técnica, gostam de jogar futebol, têm prazer em jogar, mas ainda têm uma mentalidade fraca, por isso há bastante jogador estrangeiro no país. Isso é o mais desagradável para um treinador, assumir um time com falta de personalidade. E, infelizmente, isso acontece bastante aqui.

Já a inteligência de jogo se ganha treinando muito. É claro que há jogadores que já tem isso com eles, mas são 5% deles, a maioria se ganha com o treinamento diário. O jogador brasileiro, por sua vez, acredita no seu potencial e sempre tem a cabeça voltada para o jogo, e ao que eles mais amam, o futebol.

O jogador búlgaro tem uma boa condição técnica, gostam de jogar futebol, têm prazer em jogar, mas ainda têm uma mentalidade fraca, por isso há bastante jogador estrangeiro no país. Isso é o mais desagradável para um treinador, assumir um time com falta de personalidade. E, infelizmente, isso acontece bastante aqui, diz o técnico da base do Litex Lovech


Universidade do Futebol – Fale um pouco sobre como se dá a relação entre você e os atletas. Quais as principais dificuldades de gerir um grupo com jogadores de diversas nacionalidades? É possível perceber as influencias culturais na forma de jogar de cada jogador?

Dani Morales – No momento trabalho com a base, mas já trabalhei em um clube com muitos estrangeiros, eram 14. Muito. E a situação é delicada porque você tem que dar atenção a todos por igual, são 25 atletas de diferentes nacionalidades, diferentes pensamentos e o mais importante é que você tente fazê-los a pensar como um todo (grupo). Por isso, suas ideias têm de ser claras e deve mostra-los que o mais importante é o coletivo e não a nacionalidade de onde cada um veio.

Acho também necessário o treinador se interessar pela cultura do atleta estrangeiro, como família, comportamentos, etc. O José Mourinho, por exemplo, é um treinador que já lidou com muita gente, de diversas nações, e ele mesmo disse que se senta com qualquer um e debate (conversa) qualquer situação que for, seja ela física, psíquica, emocional, médica, etc.

Esta é uma situação que, por estarmos no leste europeu e estamos perto de tudo, temos bons cursos aqui na Bulgária e a nossa federação faz intercâmbios com outras federações de países como Alemanha, Áustria, Bélgica, Holanda, que hoje desenvolvem um trabalho de organização excelente. Aqui na Bulgária, trazemos um pouco de cada cultura e tentamos colocar em prática, afirma

Universidade do Futebol – Fala-se muito que os treinadores e os jogadores brasileiros são atrasados taticamente em relação ao futebol europeu, mas pouco se discute quais são estes atrasos. Em sua opinião, quais as principais diferenças na organização do jogo em nível tático? Seja ele individual, de pequenos grupos ou coletivo?

Dani Morales – Eu, particularmente, não acho que os treinadores brasileiros estejam atrasados taticamente, penso sim que alguns deles sejam desinteressados em se aprofundar nos trabalhos desenvolvidos em outros países da Europa e até mesmo da Ásia e dos Estados Unidos. Você sempre vê bons trabalhos desenvolvidos nesses lugares também.

No Brasil, há uma pequena parte que estuda muito esses sistemas usados mais na Europa, como por exemplo, na Bulgária, onde se usa muito o sistema tático 1-4-2-3-1, ou na Holanda, que tem treinadores fiéis ao 1-4-3-3, com pontas bem abertos. Já na Alemanha variam de 1-4-2-3-1, 1-4-1-4-1 e 1-4-4-2, enquanto na Inglaterra tem o tradicional 1-4-4-2, com duas linhas de 4 jogadores bem fechadas e organizadas.

Agora, no Brasil, são poucos os treinadores que saem do tradicional 1-4-4-2 com o chamado quadrado ou losango no meio de campo. Mas, pelo que estou vendo desde o ano passado no Campeonato Brasileiro, alguns clubes já estão usando alguns exemplos europeus de modelo de jogo e até mesmo na forma de treinamento. Ou seja, treinar o que vai fazer no jogo. Atualmente, tudo gira em torno do grupo coletivo, por isso, na Europa valoriza-se muito mais o coletivo e não o individual.

A legislação búlgara segue as leis europeias (da Uefa). Esta organização é incumbida de organizar e dar suporte à Federação Búlgara de Futebol na escola de treinadores. Os cursos são anuais, sendo que são divididos em quatro semestres, com palestrantes holandeses e alemães, porque aqui na Bulgária seguimos a metodologia destes países, explica Dani Morales

Universidade do Futebol – Hoje em dia, em sua opinião, quais os principais fatores que definem o resultado de uma partida?

Dani Morales – Com certeza, fatores como o espírito de equipe, organização tática, jogo coletivo, entre outros. Mas, o mais importante é o jogador saber que o nome que ele leva à frente da camisa (emblema do clube) é mais importante do que o nome que vem atrás da camisa (nome do jogador). Por isso, penso que o coletivo é bem mais importante do que o individual.

 

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Willian santos
Willian santos
4 anos atrás

Muito legal o trabalho gostaria de fazer parte de uma equipe dessas..

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