Universidade do Futebol

Gief

14/08/2007

De Miller a Barbosa

“Em 1894, trazendo em sua mala duas bolas e um livro de regras, Charles Miller introduziu o futebol no Brasil.”

É com a frase acima que a grande maioria das narrativas envolvendo a história do futebol brasileiro começa. O que há por trás dessa frase? Qual o verdadeiro significado que a eterna repetição deste mito fundador quer dizer? São estas perguntas (e algumas outras) que me proponho a responder neste artigo, procurando analisar através de dois eventos (A introdução do futebol no Brasil e a derrota do Brasil na Copa de 50), a associação feita entre o mesmo futebol e uma certa identidade nacional, dentre várias maneiras, por meio da construção das narrativas supracitadas.

O mito fundador de Charles Miller

Acredito que os dois grandes fundadores desta mesma narrativa sobre o futebol brasileiro, e de que alguma maneira virou um senso comum, na medida que durante muito tempo pouco se questionou sobre estas, são Mario Filho e Thomas Mazzonni. Ambos jornalistas e autores de obras pioneiras “O Negro no Futebol Brasileiro” e “História do Futebol Brasileiro”, em que reforçam a tese de Charles Miller como introdutor do futebol no país. Mas mais importante do que a tese em si, o que mais importa é a maneira como ela é contada.

Charles Miller, brasileiro filho de pais britânicos, foi ainda jovem para a Inglaterra estudar, prática comum não apenas entre membros da colônia inglesa no Brasil, como também da elite brasileira desde dos tempos da colônia. Refletindo uma característica marcante desta mesma elite até os dias de hoje, a de estar sempre mais preocupada com o exterior do que com o seu próprio país.

E foi na terra de seus antepassados que Miller, revelando-se um grande adepto de práticas esportivas, tomou contato com o futebol, obtendo um relativo sucesso como jogador de sua escola e de algumas seleções regionais do interior da Inglaterra. Terminado os estudos volta ao Brasil, de acordo com as grandes narrativas, imbuído pelo desejo de apresentar à seus compatriotas a prática desta novidade inglesa. E é justamente como novidade, ou melhor, como uma curiosa moda importada, que o futebol chega aqui, atraindo o interesse de jovens oriundos da elite.

Está aí definida a primeira característica do futebol, em seu início aqui no Brasil, como uma prática restrita às elites, sem praticamente nenhuma participação popular, e como fruto de atos individuais, no que diz respeito ao seu aparecimento para esses lados.

Segundo Benedict Anderson o conceito de nação é uma idéia politicamente imaginada, ou seja, é um conceito limitado e inventado. E dentro da invenção de uma certa identidade brasileira o futebol é um traço marcante e de certa forma definidor desta mesma nacionalidade. E se esta prática lúdica significa tudo isso, ao refletirmos sobre as origens de sua chegada no Brasil, estamos também refletindo sobre a criação desta mesma identidade nacional atrelada ao futebol. Então o que o mito fundador de Charles Miller nos revela?

Partindo da idéia de Roberto DaMatta de que “o esporte faz parte da sociedade, tanto quanto a sociedade também faz parte do esporte” (DaMatta, 1982, P.46) ou seja, entendendo futebol como um microcosmo dentro do macrocosmo da sociedade brasileira, é possível tirar ao menos uma grande conclusão do significado do mito-fundador de Miller: a de que a sociedade brasileira tem como única classe condutora e agente de seus destinos a abstrata idéia de uma elite.

Tudo que acontece em nossa sociedade, só assim ocorre pois existe um grupo de eleitos que permite que isso assim ocorra. O futebol apesar de seu indiscutível traço popular que hoje possui, segundo o “mito de Miller” só o é assim, pois existiu uma elite que o trouxe para o Brasil e que consentiu que este mesmo esporte se popularizasse. A mesma lógica valendo se a transportamos para um contexto mais amplo dentro da história brasileira, que é sobre aquela narrativa que versa sobre o “nascimento do Brasil”. Uma nação que nasceu naturalmente, sem qualquer espécie de conflito, por vontade quase que exclusiva de uma única classe social, as elites. Ou seja, reproduz a idéia de que “a nação é imaginada como uma comunidade porque, independentemente da desigualdade e da exploração reais que possam prevalecer em cada uma das nações, é sempre concebida como uma agremiação horizontal e profunda”.

16/7/1950 – Brasil 1 x 2 Uruguai

Apenas a análise do “mito de Miller” não basta para compreendermos o futebol como um dos definidores de uma certa nacionalidade brasileira, ele é apenas a semente dos usos que se faria do futebol posteriormente. Pois mesmo esse mito por si só não deixa claro outras características formadoras do nacionalismo, como principalmente a idéia de alteridade, a definição de nós mesmos à partir do outro, do diferente. Este aspecto é muito mais perceptível quando analisamos as narrativas envolvendo a seleção brasileira em épocas de Copa do Mundo, quando aparentemente a grande maioria da população se une para assistir aos jogos, causando por vezes grandes êxtases ou traumas nacionais. No caso deste último, talvez o mais emblemático seja a derrota da seleção brasileira para a uruguaia na final da Copa do Mundo de 1950, disputada aqui no Brasil.

“Cada povo tem a sua irremediável catástrofe nacional, algo como uma Hiroshima. A nossa catástrofe, a nossa Hiroshima, foi a derrota frente ao Uruguai, em 1950.” (RODRIGUES, 2002, P. 67) Talvez poucos eventos dentro da história brasileira sejam capazes de causar tamanha comoção como esta partida de futebol. Freqüentemente, o 16 de julho de 1950 é lembrado. “É talvez a maior tragédia da história contemporânea do Brasil” (PERDIGÃO, 1986, P.22), diz Roberto DaMatta.

Esta derrota frente ao Uruguai, mais do que adiar a conquista da Copa do Mundo pela seleção brasileira irá desencadear, através do futebol, uma discussão que volta e meia reaparece sobre o caráter do brasileiro: “As comunidades deverão ser distinguidas, não pelo seu caráter falso/ genuíno, mas pelo modo como são imaginadas”. Ou seja, ao sermos derrotados em casa – em uma época que tudo parecia conspirar positivamente, pela primeira vez na história, de acordo com o imaginário então dominante – justamente naquela atividade em que julgamos ser os melhores e que nos distingue de todas outras nações do mundo, entramos em crise. Pois o que nos tornava diferentes ou superiores aos demais, com esta humilhante derrota, não passava de uma mera ilusão.

É dentro deste quadro de desilusão nacional que Nelson Rodrigues, um dos principais cronistas esportivos do período, cria o conceito de “complexo de vira-latas”. Este conceito pode ser traduzido, nas palavras do próprio Nelson, como um nacionalismo as avessas, que só será revertido através do próprio futebol que o gerou com a vitória da seleção na Copa de 58. Mas está vitória não bastará para eliminar a lembrança de 50 e o traço recorrente de nossa personalidade nacional. A cada derrota, o gol de Ghiggia contra Barbosa é lembrado e o complexo de vira-latas retorna, tamanha associação que feita entre futebol e identidade nacional.

A memória na nacionalidade é, sobretudo, um processo de esquecimento programado através do qual é feita uma seleção do que lembrar e do que esquecer, transparecendo na narrativa que este mesma nacionalidade organiza. O futebol como traço definidor de uma específica nacionalidade brasileira, contribui dentro desta mesma narrativa, e a derrota de 50 faz parte dela. Este jogo, apesar da lembrança negativa que pode vir trazer para a memória nacional, não faz parte dos fatos a serem esquecidos, pois ele é o nosso grande trauma, a ferida dentro de nossa nacionalidade. Por isso constantemente lembrado, conforme atesta Paulo Perdigão em seu livro Anatomia de um Derrota, justamente sobre aquele Brasil e Uruguai.

“Quem se lembra das datas exatas das vitórias do Brasil em 58, 62, 70? Mas todos sabem que dia foi 16 de julho 1950, apesar de tanto milhares de jogos que se realizaram depois. Uma lenda passada de geração a geração. Hoje, como todos, eu conto a meus filhos a história dessa Copa do Mundo que poderia ter sido do Brasil, mas que foi para o Uruguai.” (PERDIGÃO, 1986, P.182)

Conclusões finais

É óbvio que a rápida análise aqui realizada não encerra uma análise sobre a relação entre o futebol e a identidade nacional no Brasil. Menos do que isso, o objetivo aqui foi demonstrar algumas possibilidades de estudo envolvendo a temática em questão, a partir da escolha, de maneira subjetiva, de dois eventos isolados dentro das narrativas feitas sobre o chamado esporte bretão em terras brasileiras.

Por outro lado, também foi um dos propósitos deste trabalho evidenciar o universo de possibilidades que estudos sobre a história do futebol no Brasil, pode trazer e contribuir para reflexões sobre nacionalismo e identidade nacional.
 

*Fernando José Lourenço Filho é historiador, mestrando em História Social pela USP e membro do Gief (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre o Futebol). Contato: fjlfilho@usp.br

Bibliografia de apoio

ANDERSON, B. : Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e a expansão do nacionalismo. trad. da 2ª , Ed. Rev.; 2005.
DAMATTA, Roberto. Esporte na sociedade: um ensaio sobre o futebol brasileiro. In:
DAMATTA, Roberto (org.). Universo do futebol: esporte e sociedade brasileira.
Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982.
MILLS, John R. Charles William Miller (1894-1994) – Memoriam SPAC. São Paulo: Price Waterhouse, 1997.
RODRIGUES, N.: A Pátria em Chuteiras. São Paulo, Companhia das Letras, 2002.
FILHO, M.: O Negro no Futebol Brasileiro. Rio de Janeiro, Maud Editora/ Faperj, 2003.
MAZZONNI, T.: História do futebol brasileiro. São Paulo, Edições Leia, 1950.
PERDIGÃO, P.: Anatomia de uma derrota. São Paulo, L&PM Editores, 1986.

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