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“Eles são brincalhões. E eu os deixo viverem”. Em diversos discursos, o treinador do Santos, Dorival Júnior, fez questão de reafirmar a postura que adotou neste primeiro semestre à frente do departamento de futebol do clube da Baixada. Com talentos do porte de Neymar e Paulo Henrique Ganso nas mãos, os quais receberam a parceria de outros jovens, como André, Felipe e Wesley, além de Robinho, estrela consolidada na casa, o comandante-técnico fez valer o momento mágico proporcionado pelos atletas e buscou apenas não atrapalhá-los. Deu certo.

“Nós colocamos uma máscara porque perdemos nossa ingenuidade. Não vou tirar isso desses meninos. Eles que vivam isso o máximo possível”, acrescentou Dorival, campeão paulista e finalista da Copa do Brasil em 2010 com os “Meninos da Vila” nova geração.

Apesar da postura humilde e muitas vezes pormenorizada de seu próprio trabalho, o técnico tem consciência de sua capacidade e da parcela de responsabilidade nesse projeto. Para construir tal ambiente de trabalho, algo que considera determinante para o sucesso em campo e a consequente conquista de vitórias, Dorival sempre se cercou de assistentes competentes e confiáveis. Denis Iwamura é um deles.

Profissional cuja carreira esteve intrinsecamente ligada ao Coritiba, Denis atuou ao lado de Dorival quando o ex-jogador foi convidado pela diretoria coxa-branca a assumir o time principal, em 2008. No Alto da Glória, faturaram o Campeonato Paranaense daquele ano. O reencontro ocorreu no início desta temporada.

Denis foi contratado para ser o analista de desempenho no staff técnico santista. Tal função havia sido realizada no tempo em que se “separou” de Dorival – o técnico dirigiu o Vasco da Gama, na campanha do acesso à Série A do Brasileiro. Mas desde 2006 que o profissional, com experiência na área de preparação física, atua com tecnologia esportiva.

“Minha função específica é traduzir para a comissão técnica os dados de desempenho técnico-tático, individual e coletivo da nossa equipe ao longo da temporada”, explicou Denis, nesta entrevista concedida à Universidade do Futebol.

Ele se utiliza de diversas ferramentas para avaliar as especificidades de atuação do grupo de jogadores (inclusive adversários), com parâmetros de posicionamento e comportamento. Estatísticas, vídeo análise, acompanhamento longitudinal das competições e alguns índices estabelecidos internamente compõem o banco de dados.

“O que está ocorrendo no Santos hoje é uma integração muito grande entre a comissão técnica e todos os departamentos do clube. Isso se deve à capacidade do Dorival Júnior, do Celso de Rezende e do Ivan Izzo em procurar aproveitar ao máximo o trabalho de cada um, dando oportunidades a todos para que desempenhem suas funções”, revelou Denis, que também falou sobre o sistema AMISCO, de Rafa Benítez, as dificuldades de implementação de plataformas desse tipo no futebol brasileiro e o que aprendeu na “Universidade” Coritiba.


Trabalho integrado no Santos é comandado por Dorival Júnior, que dá liberdade aos seus assistentes técnicos, como Denis
 

Universidade do Futebol – Sua formação é em Educação Física, com especialização em treinamento desportivo. Como foi seu ingresso no ambiente do futebol?

Denis Iwamura – Fui atleta amador e universitário. Quando passei no vestibular de Educação Física (em 1998), um antigo treinador estava trabalhando como preparador físico dos juniores do Coritiba e me convidou para estagiar no clube na área de preparação física. Iniciei como estagiário não-remunerado da categoria sub-15. Em 2000, me tornei preparador físico das categorias sub-11 e sub-13.

Em 2004, fui promovido a preparador físico do sub-15. No ano seguinte, recebi o convite do então preparador físico Róbson Gomes para fazer parte da comissão técnica principal do Coritiba como auxiliar dele.

Em todos os anos de categorias de base me dediquei a assistir os preparadores físicos e treinadores das demais categorias em treinamentos e com scouts técnicos durante os jogos.

Devido a essa experiência anterior com análise de desempenho nas categorias de base, passei também a auxiliar o responsável por essa área no clube. Em 2006 e 2007 me tornei o responsável pela análise de desempenho do Coritiba e continuei atuando como auxiliar da preparação física. Em 2008, o então gerente de futebol, Paulo Jamelli, decidiu que eu somente atuaria na área de análise de desempenho, função que exerço no Santos.

Universidade do Futebol – À época em que você estava no Coritiba, criou-se o departamento de scout, que avaliava adversários e montava um banco de dados de atletas. Poderia explicar a funcionalidade e o procedimento de uso dessa ferramenta?

Denis Iwamura – O departamento de scout do Coritiba foi um projeto piloto dentro do clube. Trabalhávamos à época eu e o Érielton Pacheco (Pachequinho). Estávamos tentando padronizar a observação e o catálogo de competições e atletas das diversas divisões do futebol brasileiro (profissional e categorias de base), gerando um banco de dados dos atletas em que fosse possível o mapeamento de desempenho desse atleta ao longo de sua carreira.

Esses dados serviriam de base para a diretoria e comissão técnica avaliar o perfil de possíveis contratações futuras. Paralelamente, atuávamos com a comissão técnica na observação dos adversários do clube nas diversas competições ao longo do ano.

Universidade do Futebol – No Santos, qual é o papel do analista de desempenho, função na qual você se enquadra?

Denis Iwamura – O analista de desempenho (AD) no modelo do Santos é um auxiliar técnico que pode também trabalhar diretamente no campo, especializado em ferramentas de tecnologia esportiva, avaliando as mais diversas variáveis técnico-táticas e traduzindo isso ao treinador para facilitar a transformação da informação em realidade de treinamento.

Como isso é possível? O AD deve ser um profissional com experiência no trabalho de campo de futebol e também preparado para operar as mais diversas ferramentas de análise técnico-tática do futebol.

Minha função específica é traduzir para comissão técnica os dados de desempenho técnico-tático, individual e coletivo da nossa equipe ao longo da temporada.

Nós utilizamos várias ferramentas, dentre elas o FootStats, vídeo análise, acompanhamento longitudinal das competições e alguns índices que estabelecemos internamente para avaliar o desempenho dos atletas. Também sou responsável, juntamente com os demais auxiliares técnicos, pela análise de desempenho técnico-tático dos adversários do Santos.

Contamos com uma equipe trabalhando na observação de jogos ao vivo, uma ilha de edição onde todos os jogos são gravados e, posteriormente, efetuamos a análise de todo o material coletado.

A parte mais importante é a maneira como essas informações vão chegar ao nosso treinador e aos nossos atletas. Procuramos traduzir as informações de maneira a facilitar seu entendimento, dando prioridade à qualidade das informações, e não à quantidade.

Os dados gerais dos atletas são utilizados por treinador, auxiliares, preparadores físicos, fisiologistas, diretoria e assessoria de imprensa. Todos procuram realizar um trabalho mais integrado possível, cada um respeitando a sua área de atuação e contribuindo para a evolução de desempenho da equipe.



O Guarani, cujas informações foram elencadas por Denis, apareceu como rival tanto na Copa do Brasil, quanto no Campeonato Brasileiro 


Universidade do Futebol –
A inserção de aparatos tecnológicos para auxílio da comissão técnica ainda é vista de forma limitada pelos clubes nacionais?

Denis Iwamura – A tecnologia esportiva ainda é vista com certa restrição pelos clubes brasileiros. Eu credito isso a dois fatores principais. Primeiro, a falta de cultura do futebol brasileiro em utilizar esse tipo de ferramenta, o que é comum em várias modalidades nos Estados Unidos e na Europa, como basquete, vôlei, e até mesmo o próprio futebol.

No Brasil, questiona-se sua aplicabilidade e capacidade de retorno, devido, em alguns casos, ao alto investimento financeiro. É uma consequência cultural que vem sendo lentamente mudada ao longo dos anos.

O segundo fator de restrição é a falta de profissionais capacitados a trabalhar com esses tipos de ferramentas. Nós ainda não temos cursos de formação de analistas de desempenhos, ou na área de alta tecnologia esportiva. O que temos são profissionais altamente qualificados na área técnico-tática e outros profissionais qualificados em tecnologia, porém ainda é necessária uma “ponte” entre esse dois especialistas para a formação de mão de obra qualificada.


A partir de vídeos e fotos, Denis visualiza o posicionamento do rival em cobranças de escanteio 
 

Universidade do Futebol – Qual era o diferencial encontrado no Coritiba, e o que Santos possibilita de positivo nesse sentido?

Denis Iwamura – O Coritiba foi a minha “universidade” de análise de desempenho. Foi o local que me deu a oportunidade de trabalhar e “testar” as mais diversas ferramentas e comprovar sua eficácia ou não no dia-a-dia de uma equipe profissional. O clube me abriu as portas para a área de análise de desempenho e pudemos crescer junto ao longo desses anos.

Em 2009, já contávamos com uma ilha de edição, estagiários para a coleta de dados de scouts técnicos das diversas categorias e o próprio departamento de scout, que apesar de novo, possibilitou uma nova forma de o clube “enxergar” a área de análise de desempenho.

Hoje, o Santos é um clube que conta com uma ótima estrutura de trabalho, e fui contratado para organizar essa área. A principal diferença no trabalho que realizo é que temos uma equipe de análise, principalmente em relação aos adversários.

Isso favorece uma troca muito grande de informações, o que é interessante para o crescimento geral da comissão técnica.

Também estamos incluindo recursos tecnológicos no dia-a-dia de trabalho, visando sempre trazer um maior número de informações de qualidade ao treinador.


Nas cobranças de faltas laterais, rival costuma lançar à frente quatro atletas mais altos: dados auxiliaram o posicionamento defensivo santista
 

Universidade do Futebol – O Rafael Benitez, ex-Liverpool e novo contratado da Inter de Milão, desde a época do Valencia, se ampara em um sistema chamado AMISCO – diversas câmeras espalhadas pelo estádio que analisam a movimentação de cada jogador, particularmente, e da equipe, como um todo. É viável um investimento desse tamanho na realidade brasileira?

Denis Iwamura – Eu conheço essa ferramenta. É muito boa do ponto de vista de análise de desempenho. Da maneira como é realizado na Europa, eu acredito ainda ser inviável financeiramente.

Na época em que estava no Coritiba, chegamos a contatar algumas empresas com esse tipo de serviço, mas em termos de Brasil, representa um investimento muito alto.

Nós já estamos estudando soluções para isso no Santos, e uma delas é a viabilização de uma empresa brasileira que ofereça o aparato tecnológico.


 

Universidade do Futebol – Como se dá a interação entre a preparação física e comissão técnica, departamentos médico e de fisiologia, e com o próprio trabalho realizado nas categorias de base do Santos?

Denis Iwamura – O que está ocorrendo no Santos hoje é uma integração muito grande entre a comissão técnica e todos os departamentos do clube. Isso se deve à capacidade do Dorival Júnior, do Celso de Rezende e do Ivan Izzo em procurar aproveitar ao máximo o trabalho de cada um, dando oportunidades a todos para que desempenhem suas funções.

Hoje, o comandante da preparação física do Santos é o Celso. A interação entre a preparação física e a comissão técnica é a melhor possível, uma vez que ele já trabalha com o Dorival há muitos anos. Ambos se conhecem muito bem e têm uma cumplicidade profissional grande.

A preparação física caminha junto com o departamento médico e a fisiologia. O departamento médico dá todo o suporte de avaliação e recuperação clínica para que todos os atletas estejam à disposição da comissão técnica para os treinamento e jogos, e o principal elo entre os setores é justamente o Celso.

A fisiologia atua como uma “bússola”, sempre procurando avaliar a real situação física dos atletas em relação ao desgastante calendário de competições. O preparador recebe essas informações e, juntamente com o treinador, define volumes e intensidades dos treinamentos de cada atleta dentro das sessões.

‘Parceiro de Júnior’, Ivan Izzo se atenta a atletas reservas e ministra palestras
 

Universidade do Futebol – O que diferencia hoje o trabalho entre preparadores físicos no Brasil, já que hoje o conhecimento está muito mais acessível?

Denis Iwamura – É verdade que o conhecimento está muito mais acessível hoje em dia. Porém, a maneira de utilização prática desse conhecimento é individual.

Pessoas formadas pelas mesmas instituições de ensino e tendo acesso ao mesmo conteúdo de determinada área de conhecimento podem atuar e se destacar profissionalmente de maneiras totalmente diferentes. É o conjunto do conhecimento, experiências anteriores, personalidade, etc. que forma o profissional.

O trabalho dos preparadores físicos hoje no Brasil, em minha opinião, é diferenciado pela maneira como cada profissional gerencia o seu grupo e a facilidade – leia-se, experiência e sensibilidade -, que tem de implantar o seu sistema de trabalho dentro de uma equipe de futebol.

A integração com o treinador e o conhecimento específico também são fatores extremamente importantes para o sucesso ou fracasso de um time.

Universidade do Futebol – Em se considerando a integração dos trabalhos físicos e táticos aplica
dos, nessa perspectiva, como você vê a inserção do preparador físico na comissão técnica daqui a alguns anos? Você acredita que existe chance de essa função perder sua aplicação?

Denis Iwamura – Eu acredito muito no modelo brasileiro de futebol. Nós temos um modelo e temos obtido sucesso com ele. É claro que é necessário sempre estar em evolução, e a preparação física não é diferente. Mas eu não acredito que o preparador físico vá perder sua aplicação, e sim, ampliá-la.

Há cada vez mais necessidade de se trabalhar de forma mais individualizada, específica e procurando potencializar a performance de cada atleta. É importante entender o jogo como um todo, mas também prestar atenção para cada detalhe separadamente.

Eu acredito na força dos departamentos no futebol (técnico, físico, psicológico, nutricional, fisiológico, médico, etc.) e no papel que desempenham no conjunto. Cada vez mais deveremos “liberar” o treinador para pensar o modelo de jogo, a estratégia e o gerenciamento da equipe, permitindo aos departamentos exercerem seus papéis.

Dentro desse contexto, o preparador físico exerce uma função estratégica, como elo entre a comissão técnica e os vários departamentos dentro de um clube de futebol.

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