'Devolva-nos o nosso jogo': entrevista com Helena Costa, do SL Benfica

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Em Portugal, o futebol é o principal esporte e a sua seleção, seus times e seus jogadores estão entre os melhores do mundo. No entanto, quando falamos sobre futebol feminino, o cenário é completamente diferente. Ainda, nomes como Helena Costa estão consertando a ideia portuguesa de o futebol ser um “jogo para homens”!

Trabalhando nas Escolas de Futebol do SL Benfica sub-11, Helena Costa ganhou a experiência e a confiança que a fez dar os primeiros passos no jogo adulto. Ela começou a trabalhar com um time masculino de futebol amador e, rapidamente, Helena foi convidada para a Premier League feminina. Depois de apenas três temporadas, ganhou o campeonato Português e, por duas vezes, a Copa Portuguesa. O segredo de Helena é que “as sessões de treinamento podem produzir milagres”.

As diferenças entre homens e mulheres

“Existem diferenças científicas óbvias entre homens e mulheres, especialmente em termos de velocidade e força, mas no jogo, e estamos falando sobre jogo de futebol, eu não tenho uma abordagem diferente na maneira de trabalhar. O que pode me fazer mudar a abordagem e o estilo de treinar é o jogador, o time, a qualidade e a personalidade dos atletas, mas, definitivamente, não o gênero.

Ainda, depois das minhas experiências, acredito que mulheres são mais curiosas, portanto, perguntam muito mais porque, realmente, querem melhorar o seu jogo, enquanto, homens são mais desejosos a simplesmente aceitar as suas tarefas.

Então, eu simplesmente treino futebol e, de acordo com a minha visão, esse processo tem que ser baseado totalmente no lado tático do jogo e na decisão progressiva. Também dou muita importância na maneira que o meu time defende, porque, se somos bons defendendo, temos mais do que 50% de chance de vencer o jogo”.

Defendendo em zona e pressão

“Geralmente, todos os meus exercícios têm relação com o jogo e não isolo nenhum aspecto, ainda que às vezes possa dar mais importância a um determinado fundamento. Por exemplo, posso criar exercícios para trabalhar a defesa em zona, especialmente, no começo da temporada e, se estou trabalhando com novos jogadores. Mas acredito, que se há algo que você realmente sente é importante para a maneira que você joga, esse procedimento tem que estar em qualquer situação. Nesse exemplo, ainda que eu crie um exercício no qual o meu foco é o ataque, o procedimento de zona para o outro time, ainda tem que estar presente, porque isso tem que ser parte do jogo.

Então, por exemplo, quando estou tentando trabalhar a minha organização defensiva, tento criar situações de jogo onde sempre dou superioridade em termos de números para o ataque. Então, os jogadores têm que colocar em prática todos os princípios defensivos, de acordo com a nossa organização em zona. O mesmo ocorre para o ataque, se eu quero trabalhar os princípios defensivos dos meus jogadores de ataque, a filosofia é exatamente a mesma, e o que eu quero focar é sempre exceder o número, porque se deixo a vida deles mais fácil durante os treinos, nós só estaremos preparando os atletas para terem sucesso nesses exercícios, não no jogo, pois nos jogos as coisas não são fáceis.

Ainda, a principal característica dos treinos é que todos acontecem a partir de situações de jogo, onde tudo que pode acontecer na partida existe, e transições sempre terão que ocorrer. Isso é o que eu defendo. Defesa em zona sempre tem a ver com organização, mas também com o procedimento do jogador, e isso deve estar sempre no treinamento. O mesmo acontece com a pressão. Eu posso organizar o meu time, indicando onde pressionar mais e menos, e criar treinos para estimular mais pressão, mas, na verdade, esse é um procedimento que sempre tem que existir quando o time não está com a posse de bola ou sempre que um jogador perde a bola. Portanto, é algo que realmente tem que estar em todos os exercícios, em todos os momentos de treino em que essas situações acontecem”.

Organização ofensiva e tomada de decisão

“De acordo com a minha visão, não acredito em trabalhos utilizando jogos de sombra, sem nenhuma oposição. Por quê? Pois se estou trabalhando no ataque, preciso ter defensores, e quero mais defensores do que atacantes. Nesse caso, seria pouco comum pedir para os meus atletas passarem a bola somente aqui, e depois disso, ali, etc. Na maneira que trabalho, isso não é possível, porque precisa ser o jogo, para mim, o jogo é o treino e o treino é o jogo.

Obviamente, temos nossa própria organização, nossos princípios, nossas linhas de passe prioritárias, mas, a decisão final é sempre do jogador. Ainda, eles têm que seguir nossos princípios e, por exemplo, se quero que os meus atacantes sempre criem uma linha de passe, e isso tem que acontecer, o que não pode ocorrer é a bola ir para eles, porque o jogo muda constantemente, e isso tem que ser a melhor opção naquele exato momento. Portanto, tudo depende de decisões e isso é o motivo pelo qual eu disse no começo que nada é mais importante para mim do que o aspecto tático do jogo e as decisões dos jogadores.

Para mim, treinar como se joga é praticar tomadas de decisões de acordo com os papéis dos jogadores e isso só será possível criando-se situações como as da partida, nas quais existe a imprevisibilidade, a oposição e muitas outras coisas que os jogadores não podem controlar, as quais serão, em situações de mudança, suas próprias ações e decisões.

Portanto, para mim, treinar não é nada além do que criar situações que façam os jogadores entenderem o que está acontecendo ao redor deles, o denominado “ler o jogo” e, de acordo com a estratégia e os princípios do jogo escolhidos para o time, ensiná-los a selecionar as melhores respostas/decisões dependendo das diferentes situações que eles enfrentam”.

Preparando-se para um jogo específico

“Quando se está treinando para uma partida contra um adversário específico, não se pode simplesmente isolar determinados aspectos só porque eles ocorrem com maior frequência. Mas, apesar disso, tem que se criar situações como as do jogo, nas quais coisas inesperadas sempre podem acontecer, assim como na partida – mas também, criar condições para as principais características do seu adversário aparecerem, e essa é a única maneira de fazer os seus jogadores encararem as situações, entendê-las, e tentarem escolher as melhores possibilidades de decisão para solucionarem os problemas que eles estão tendo segundo aquele plano de jogo.

Isso é onde a qualidade do treinador, analisando as situações, e ainda mais importante, na maneira que se comunica com os seus jogadores, em termos de retorno de informações são muito importantes. Sou muito exigente como treinadora, e não posso simplesmente deixar as coisas acontecerem erradas. Por essa razão, especialmente no começo da temporada, realmente torno a vida deles difícil, mas tão logo as coisas começam a funcionar de acordo com as minhas expectativas, reduzo a frequência das minhas intervenções e começo a me preocupar mais em munir retornos de informações positivos para os meus jogadores.

Além disso, não mudo a maneira de jogar por causa do adversário. Acredito nas minhas forças e tento otimizá-las ao máximo. Então, geralmente, o que costumamos fazer é ficarmos mais alertas para as forças e os comportamentos do adversário. Assim, não somos pegos de surpresa.

De acordo c
om o sistema de jogo, também sou uma das treinadoras que irão dizer que é algo pelo que eu não me interesso.

Para ser honesta, geralmente, prefiro jogar com dois atacantes, mas, por exemplo, neste ano, com um time menos experiente, joguei no 4-5-1, porque queria um melhor balanço no que se refere à organização no meio de campo. Mas isso depende da característica dos jogadores e das dinâmicas que você pode criar com eles, mais do que simplesmente jogar com esse ou com aquele sistema. Portanto, posso jogar com qualquer sistema em que ache que os atletas se encaixam melhor, mas não há nada mais importante do que fazer os jogadores realmente acreditarem na maneira como eles estão jogando”.

Eu não acredito em trabalhar utilizando jogos de sombra, sem nenhum adversário
 

Importância da técnica e da musculação

“Eu sou uma fã da chamada ‘metodologia do treinamento integrado’, porque não acredito em fazer as coisas separadamente. Se não separo o jogo para trabalhar certos aspectos dele, certamente, não farei isso para trabalhar algo que não tem nada a ver com o jogo. Mais uma vez, quero melhorar a técnica do jogador, mas não acredito simplesmente em fazer isso mecanicamente. Para mim, isso tem que ser desenvolvido durante o jogo.

Posso criar situações onde, por exemplo, estou trabalhando principalmente os passes e recepções, ou uma determinada finta, mas ainda assim, não isolo não isolo um aspecto e o trabalho sozinho. Só acredito em fazer isso em uma situação de jogo, onde esse aspecto pode acontecer, mas vários outros também, e isso é que faz com que se melhore a técnica, porque esse é o jogo.

Fisicamente, sigo os mesmos princípios. Como treinadora, existem exercícios para futebol, além daqueles que têm uma bola para motivar os jogadores a trabalharem fisicamente, com mais vontade. São os instrumentos perfeitos para trabalhar as capacidades físicas que você quer, e sente que são requeridas e necessárias para o jogo, trabalhando com tempo, espaço, quantidade de jogadores, descanso e relação de trabalho, etc. Por essa razão, certamente, passarei minhas duas horas de treino trabalhando o futebol, a maneira que nós jogamos, porque eu sei fisicamente os atletas estarão preparados.

O jogo de futebol é algo que as pessoas geralmente veem como algo imprevisível, por conta das variáveis que podem existir. Porém, quanto mais tempo você passa trabalhando no jogo, mais previsível você o torna para o seu time.

Portanto, sempre treino todo o jogo, e meu interesse é em tentar melhorar certos aspectos que sinto que precisam ser aperfeiçoados, mas isso sempre acontecerá jogando-se o jogo com alguns condicionantes, mas onde tudo pode acontecer, onde decisões têm que ser tomadas a todo tempo e onde a intensidade está sempre no máximo.

Não acredito em criar exercícios mais relaxantes porque é sexta-feira e temos jogo no domingo. Por exemplo, nesse caso, o exercício simplesmente possui uma duração menor, mas não me peça para reduzir a intensidade. E por quê? Pois no jogo nunca se relaxa. A intensidade deve estar lá sempre, porque quero meus times sempre jogando em alta tensão”.


4v4
Organização:
– Jogo normal de 4v4
– Três gols em cada lado do campo; para criar mais oportunidades e para aprender a usar a extensão do gramado (criando um lado forte e um fraco). Isso garante que você terá melhores oportunidades de ataque e claras posições de defesa.

Objetivo:
O principal objetivo é organizar o time defensivamente, criando pirâmides e linhas diagonais baseadas no posicionamento da bola e o(s) jogador(es) defendendo.

8v8
Organização:
– Jogo normal de 8v8
– Três gols em cada lado do campo; para criar mais oportunidades e para aprender a usar a extensão do gramado (criando um lado forte e um fraco). Isso garante que você terá melhores oportunidades de ataque e claras posições de defesa.

Objetivo:
O principal objetivo é organizar o comportamento do time defensivamente, criando pirâmides e linhas diagonais baseadas na posição da bola e os jogadores defendendo, agora, com duas linhas defensivas.

Desenvolvimento:
– Acrescente um defensor atrás do gol em cada time. O zagueiro do time que está atacando pode atacar para criar inúmeras situações.
– Enquanto o seu time estiver na defesa, o defensor tem que ficar atrás do gol, e o time adversário não pode marcar no gol onde o defensor está.
– Melhorar a transição.

8v6 com goleiros
Organização:
Jogo normal, onde o time branco pode marcar o gol nas duas traves defendidas por um goleiro cada. Só vale o gol após o time passar pelos marcadores.

Objetivos: time de oito
– Defesa em zona.
– Fazer a ligação para fugir da pressão
– Toda a vez que o goleiro tiver a posse da bola, ele terá que passá-la para um dos zagueiros.

Objetivos: time de seis
– Organizado para pressionar: quando a bola for passada da direita para a esquerda, o time tem que pressionar imediatamente com os atacantes e laterais que estiverem nesse lado, e o resto da equipe reajusta-se para a pressão por zona.
– Transições: rapidamente alce a bola para o ataque quando ela for recuperada.

Fonte: Soccer Coaching International – http://www.soccercoachinginternational.com

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