‘Diferente’, goleiro carece de preparo psicológico alternativo

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Na quase totalidade de uma partida, atrás dele só há a rede do gol, situação real para definir o resultado de um jogo, a qual tem de ser evitada. Um erro pode significar perdas irreversíveis, pessoais e coletivas, elevando o grau de responsabilidade a esse profissional específico do futebol. A esfera apresentada demonstra a adversidade pela qual passa e a responsabilidade que detém um goleiro de futebol.
 
Função complexa, condicionada pela particularidade do papel no esporte coletivo mais popular do mundo, esse atleta é, em todos os sentidos, preparado de uma maneira diferente em relação ao elenco de um time profissional. Dentre eles, o quesito psicológico.
 
“O goleiro faz uma preparação técnica diferente dos demais atletas, tem exigências físicas diferentes e não pode ter uma orientação psicológica igual. É uma posição muito estratégica para o rendimento de um time e requer cuidados específicos”, avalia a psicóloga do esporte, Suzy Fleury.
 
Assim como as características físicas – as agremiações recorrem cada vez mais comumente a guarda-metas mais altos e mais fortes, que tenham agilidade e saibam também tenham capacidade de jogo com os pés -, há um padrão de personalidade definido para ele. Seria uma espécie de “critério de seleção para a função”, que cobra aspectos de liderança, capacidade específica de concentração e preparação para a comunicação.
 
“Não existe uma ferramenta ou uma estratégia específica para a preparação de goleiros, mas é claro que ele tem uma personalidade diferenciada. Isso é muito marcante em todos os atletas da posição. É preciso ter uma personalidade muito forte para suportar o isolamento e a frustração. Quando um goleiro faz boas defesas, só cumpre seu papel. Quando erra, a cobrança é maior do que para outros jogadores”, compreende também Anahy Couto, que trabalha na área.
 
“Orientador” de sua equipe em campo, o goleiro, apesar da distância física de companheiros e rivais no andamento geral de um confronto, por exemplo, carece de uma visão global e de uma compreensão própria nesse contexto. Isso faz aumentar ainda mais a exigência dele com ele mesmo, e do ambiente externo com o eventual camisa 1.
 
“Geralmente, o goleiro que não está preparado para lidar com a frustração e essa responsabilidade faz com que ele deixe de ser goleiro ainda na base ou na escolinha. A aceitação é parte do processo de formação e cria uma seleção natural”, aponta Couto.
 
“Durante a formação, o goleiro já vai se conscientizando sobre a relação que deve ter com o erro. Ele vai entendendo que a falha é parte de seu dia-a-dia e que ele não pode se abalar com isso. Trata-se de um complemento da base”, completa.

 
Dentro da psicologia do esporte, há três grandes blocos de atuação, nos quais o goleiro deve ser inserido e abordado: são a motivação, a concentração e o controle emocional. Frustrar-se, estar ansioso, alegre, em dúvida, enfim, situações emocionais estarão diretamente relacionadas com o desenvolvimento da maneira de pensar desses atletas.
 
O controle do pensamento e das crenças com o goleiro tem de ser mais trabalhado, pois, dentro de campo, o jogador de linha está correndo e tem ações mais automatizadas. Já o arqueiro, além de enxergar o jogo em uma perspectiva diferenciada, tem de controlar mais sua mente: é o espaço para divagar ou desviar seu foco do que acontece no jogo.
 
“Apesar de toda a preocupação e a necessidade de concentração, o goleiro não pode desenvolver a ansiedade negativa, que gera preocupação e nervosismo. Se ele começar a pensar ‘E se…?’ ou ‘Será que…?’, acaba desviando o foco do jogo e aumentando o grau de ansiedade improdutiva”, aponta Fleury, que está preparando um livro sobre o jogo mental.
 
“Além de preparar o goleiro para digerir as derrotas e os erros sem prejudicar seu desempenho, o psicólogo precisa se preocupar com esse tempo para pensar. O goleiro precisa estar focado no que precisa ser feito e não pode fugir disso. Ele precisa estar pronto para combater os adversários mentais periféricos”, complementa.
 
As alternativas apresentadas para tal realização são as técnicas de respiração, de concentração e de enquadramento. Assim, o goleiro estará se preparando para registrar “quadro a quadro” do que acontece em campo, minando seus “pensamentos soltos”.
 
Essa estratégia de meditação ativa está presente em outras modalidades que têm a questão mais desenvolvida – em especial, nas que dependem diretamente do desempenho individual. No tênis, na natação ou no atletismo, por exemplo, o esportista precisa ter o foco sempre direcionado ao momento. “O goleiro pode ser comparado, respeitando as devidas proporções, a um piloto de Fórmula 1. Há um time por trás, mas um momento de descontrole dele pode colocar tudo a perder”, finaliza Fleury.
 

*Colaboraram Guilherme Costa e Marcelo Iglesias

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