Universidade do Futebol

Eduardo Barros

28/07/2012

Dirigentes e investidores: aprendam sobre a (boa) formação

Três notícias futebolísticas dos últimos dias, aparentemente desconexas, têm uma significativa relação. Por terem ocorrido coincidentemente em uma mesma semana motivaram-me a escrever sobre o que elas representam.

A primeira diz respeito à convocação de um atleta para a seleção brasileira sub-15, formada por jogadores nascidos em 1998, que se reuniu na Granja Comary para um período de treinamentos. É o início da preparação da categoria comandada por Emerson Ávila que, em 2013, estará no “ano bom”.

A outra notícia se refere à opinião de Seedorf em relação a um dos seus companheiros no Botafogo. Após orientá-lo defensivamente quanto à sua tomada de decisão para desarmes, o jogador holandês elogiou-o publicamente quanto ao seu jogo ofensivo: “é muito dinâmico e não enrola com a bola no pé”.

Por último, a contratação de um lateral direito pela equipe do Real Madrid. A princípio a contratação é para a equipe B, porém, como nem todos os atletas iniciaram a pré-temporada, o jogador, que tem sido convocado para os últimos jogos da seleção brasileira sub-20, está treinando com a equipe principal.

O primeiro atleta ainda é um adolescente e fez parte somente de uma convocação. No entanto, ter oportunidade de ser lembrado num momento em que a CBF tem divulgado a importância de um trabalho de base em longo prazo, que reflita positivamente no elenco principal, é considerável.

O segundo, em fase final de formação com apenas 20 anos, busca um espaço na equipe carioca. Neste momento, poder ter como conselheiro o experiente Seedorf pode cortar-lhe bons caminhos na busca pela titularidade.

Já o último, igualmente jovem, viveu em pouco mais de um ano uma ascensão profissional meteórica. Após a Copa São Paulo de 2011, o atleta foi negociado com o Fluminense, disputou as competições juniores daquele ano, a Copa São Paulo de 2012 e após a disputa do torneio Oito Nações pela seleção, foi transferido para o Rio Ave. Não ficou nem um mês em Portugal antes de ser emprestado por seis temporadas ao clube que tem Mourinho como treinador.

José Marcos, Gabriel e Fabinho. Três atletas em clubes e momentos distintos da carreira, mas com um ponto em comum: tiveram importante passagem pelo mesmo clube formador.

O primeiro por dois anos, durante 2010 e 2011 e os outros dois, por seis anos, de 2005 a 2010.

Frutos de uma boa formação, claro que sem desconsiderar as passagens pelos seus respectivos clubes posteriores, o posicionamento que cada um destes atletas tem atingido em suas carreiras evidencia o que é urgente e sabido por alguns profissionais do futebol, porém, desconsiderado pela grande maioria dos dirigentes e investidores.

Como nos orgulhamos em afirmar, no Brasil, somos cerca de duzentos milhões de treinadores. Entre esses duzentos milhões encontram-se muitos dirigentes e investidores que creem ter a fórmula certa para prosperar no futebol.

A partir dessa visão, contratam, dispensam, gerenciam, gastam, competem e investem sem critérios eficazes, o que em médio-longo prazo leva para a insustentabilidade.

A solução seria buscarem informações do que é tendência na ciência do treinamento em futebol para formarem equipes de trabalho capazes de agregar valor a cada um dos atletas em formação num determinado clube. Com um trabalho qualificado, invariavelmente, os resultados (promoção de jovens valores, negociações, sustentabilidade, retorno financeiro) apareceriam.

Como a solução praticada não é essa, temos que observar exemplos quase que cotidianos de equívocos técnicos permitidos por deficiências administrativas. Por exemplo, a opinião de Zinho ao mencionar uma das justificativas ao demitir Joel Santana. O dirigente disse que o Flamengo precisa de um treinador com ideias novas. A ideia nova não deve partir do treinador e sim da gestão da instituição. É ela quem deve saber o que é ou não atual.

Quanto àquele clube formador, que os resultados continuem aparecendo e os referidos atletas, além de outros também, se destaquem no mercado do futebol para que sirvam como bons exemplos aos questionamentos feitos por aqueles que são avessos ao conhecimento.

Espero, somente, que esses que são avessos ao conhecimento não digam que foram meras coincidências…

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br
 

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