Universidade do Futebol

Gepeef

17/06/2011

Do jogo ao esporte e à competição – parte I

Quando falamos de jogo e esporte, nem sempre estamos tratando do mesmo assunto. Alguns autores aqui apresentados irão nos elucidar sobre as características de cada um, assim como quando podemos considerá-los “o mesmo fenômeno”. Da mesma forma, os mesmos autores também explicam termos como lúdico, brincadeira, brinquedo e competição, os quais, atualmente encontram-se tão imbricados na literatura, principalmente quando se trata de jogo, que para nossa discussão é necessário que os mesmos sejam diferenciados.

Esta é a primeira de três partes de uma análise ligada à pedagogia do esporte, que será apresentada nas próximas semanas na Universidade do Futebol.

Falando apenas de jogo, o qual é considerado uma categoria maior na qual se engloba a dança, a luta, a ginástica e o esporte (família do jogo), podemos considerá-lo como algo sem compromisso com nada fora dele mesmo, que não se relaciona com o passado ou com o futuro, e sim uma atividade do presente. Como exemplo, podemos citar crianças jogando amarelinha (FREIRE, SCAGLIA, 2003).

Para Magnane (1969, p. 143-4), “Jogo e prazer do jogo manifestam-se simultaneamente e se confundem. Separá-los é perder de vista o jogo e passar, de um salto, ao estudo do exercício.” Este autor considera que, durante a iniciação das técnicas gestuais, a seriedade é inevitável, porém passageira, e isso ocorre quando a técnica se torna aprendida e renovada pelo próprio atleta.

Segundo Kishimoto (2002, p. 13), “Pode-se falar de jogos políticos, de adultos, crianças, animais ou amarelinha, xadrez, advinhas, contar estórias, brincar de “mamãe e filhinha”, futebol, dominó, quebra-cabeça, construir barquinho, brincar na areia e uma infinidade de outros.” No entanto, a autora acredita que apesar de todos serem chamados jogos, os mesmos têm especificidades que os diferenciam como descrito abaixo:
 

[…] no faz-de-conta, há forte presença da situação imaginária; no jogo de xadrez, regras padronizadas permitem a movimentação das peças. Brincar na areia, sentir o prazer de fazê-la escorrer pelas mãos, encher e esvaziar copinhos com areia requer a satisfação da manipulação do objeto. Já a construção de um barquinho exige não só a representação mental do objeto a ser construído, mas também a habilidade manual para operacionalizá-lo. (KISHIMOTO, 2002, p. 13).
 

Kishimoto (2002) ainda diferencia brinquedo de jogo e jogo de não-jogo. Para ela o jogo possui um sistema de regras para ser utilizado, o qual não permeia diretamente o uso do brinquedo, uma vez que este, assim como uma boneca que a menina usa para brincar de “mamãe e filhinha”, supõe uma relação íntima com a criança e uma indeterminação quanto ao seu uso, ou seja, a mesma boneca pode ser utilizada pela mesma criança para brincar de “professora a aluna.” O mais importante disso tudo é que “a infância expressa no brinquedo contém o mundo real, com seus valores, modos de pensar e agir e o imaginário do criador do objeto”. (KISHIMOTO, 2002, p. 19). Logo, não há regras para se utilizar o brinquedo, mas uma habilidade mental que a criança escolhe de acordo com seu conhecimento.

Diferentemente da brincadeira, no jogo, mesmo que se tenha um brinquedo, como uma bola de futebol, quando se define que vai ocorrer um jogo é porque as regras estão sendo definidas – quando não conhecidas – ou confirmadas – quando já conhecidas – pelo grupo. E a perspectiva é que esse jogo seja sempre semelhante, ou seja, essa bola será sempre utilizada com a mesma perspectiva, por exemplo, fazer gol ou pontuar.

A função da atividade é a mesma que ocorre no exemplo acima com a boneca, brincar; no entanto, aqui o brinquedo serve de objeto para uma atividade mais sistematizada, que é o jogo, pois brincadeira “é a ação que a criança desempenha ao concretizar as regras do jogo, ao mergulhar na ação lúdica.

Pode-se dizer que é o lúdico em ação. Desta forma, brinquedo e brincadeira relacionam-se diretamente com a criança e não se confundem com o jogo.” (KISHIMOTO, 2002, p. 21).

Quando diferencia jogo de não-jogo, Kishimoto (2002) está se referindo a outros diferentes significados do brincar, pois pode se perceber um mesmo comportamento como jogo ou não-jogo. Por exemplo:
 

Se para um observador externo a ação de uma criança indígena que se diverte atirando arco e flecha em pequenos animais é uma brincadeira, para a comunidade indígena nada mais é que uma forma de preparo para a arte da caça necessária à subsistência da tribo. Assim, atirar como arco e a flecha, para uns, é jogo, para outros, é preparo profissional. (p. 15).
 

Pelo exemplo acima podemos perceber o quanto é difícil elaborar uma definição de jogo que englobe a multiplicidade de suas manifestações reais.

Contato: taniabas@terra.com.br

Referências

FREIRE, J. B.; SCAGLIA, A. J. Educação como prática corporal. São Paulo: Scipione, 2003.

KISHIMOTO, M. T. (Org.) Jogo, brincadeira e a educação. 6ª. Ed. São Paulo: Cortez, 2002.

MAGNANE, G. Sociologia do esporte. São Paulo: Editora Perspectiva, 1969.

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