Universidade do Futebol

Gepeef

26/06/2011

Do jogo ao esporte e à competição – parte II

Huizinga (2001) foi um historiador que analisou a importância do papel do jogo no desenvolvimento da civilização. Segundo este autor o jogo é mais antigo que a cultura e por isso afirma que a civilização humana não acrescentou qualquer característica essencial à idéia geral de jogo, e, em certo sentido, o jogo é também superior ou pelo menos autônomo em relação a ela. No entanto, o jogo constitui uma das principais bases da civilização. Huizinga também considera que o jogo tem uma função significante, ou seja, no jogo há “[…] alguma coisa ‘em jogo’ que transcende as necessidades imediatas da vida e confere um sentido à ação”. (p. 04).

Para Huizinga (2001), as teorias do jogo partem do pressuposto de que o jogo se acha ligado a alguma coisa que não seja o próprio jogo, que deve haver alguma espécie de finalidade biológica. Mas a intensidade do jogo e seu poder de fascinação não podem ser explicados a partir da biologia. Pois é nessa intensidade, fascinação, capacidade de excitar, que reside a própria essência e a característica primordial do jogo.

Poderíamos acreditar que a natureza poderia nos ter oferecido todas essas funções úteis de descarga de energia excessiva, de distensão após um esforço, de preparação para as exigências da vida, de compensação de desejos insatisfeitos etc., sob a forma de exercícios de reações mecânicos. Mas não: ela nos proporcionou a tensão, a alegria e o divertimento.

De acordo com a definição de Huizinga (2001) seguem algumas características do jogo:

1. Atividade voluntária/livre: a atividade sujeita a ordens pode ser, no máximo, uma imitação forçada. Para o sujeito adulto é uma função que facilmente poderia ser dispensada, mas se torna necessidade urgente na medida em que o prazer por ela provocado a transforma numa necessidade. O jogo liga-se à condição de obrigação e dever apenas quando constitui uma função cultural reconhecida;

2. O jogo não é vida “corrente” nem vida “real”: trata-se de uma fuga da vida “real” para uma esfera temporária de atividade com orientação própria;

3. O jogo diferencia-se da vida “comum” tanto pelo lugar quanto pela duração que ocupa – o isolamento e a limitação: o jogo inicia-se em determinado tempo e chega a certo fim em outro. Há uma limitação do espaço, de maneira deliberada ou espontânea. E, assim como não há diferença entre o jogo e o culto, do mesmo modo o “lugar sagrado” – característica primordial de todo ato culto – não pode ser formalmente diferenciado do terreno do jogo;

4. O jogo cria ordem e é ordem: a menor desobediência à ordem “estraga o jogo”.

5. O jogo é tenso: a tensão causa incerteza e os jogadores, por sua vez, se esforçam para levá-lo até um desenlace positivo, ou seja, querem “ganhar” e acabar com aquela incerteza que gira em torno do mesmo. Contudo, quanto mais estiver presente o elemento competitivo, mais apaixonante se torna o jogo;

6. Todo jogo tem regras próprias: a desobediência às regras implica a destruição do mundo do jogo, uma vez que o árbitro apita e quebra o feitiço, retorna-se à vida “real”. No círculo do jogo as leis e costumes da vida quotidiana perdem validade. Essa supressão/omissão temporária do mundo habitual é inteiramente manifesta no mundo infantil, porém não é menos evidente nos grandes jogos.

Numa tentativa de resumir as características formais do jogo, Huizinga (2001, p. 16) coloca que este é:
 

[…] uma atividade livre, conscientemente tomada como “não séria” e exterior à vida habitual, mas ao mesmo tempo capaz de absorver o jogador de maneira intensa e total. É uma tentativa desligada de todo e qualquer interesse material, com a qual não se pode obter lucro, praticada dentro de limites espaciais e tempos próprios, segundo uma certa ordem e certas regras. Promove a formação de grupos sociais com tendência a rodearem-se de segredos e a sublinharem sua diferença em relação ao resto do mundo por meio de disfarces ou meios semelhantes.

Diferentemente de Huizinga (2001), Caillois (1990) considera o jogo a mola primordial da civilização e, por isso, o termo jogo designa não somente a atividade específica que nomeia, como também a totalidade de imagens, símbolos ou instrumentos necessários a essa mesma atividade ou ao funcionamento de um conjunto complexo. Por isso, o jogo combina em si as ideias de limites, liberdade e invenção, assim como exige atenção, inteligência e resistência nervosa. Para ele:
 

Os jogos são em número variadíssimos e de múltiplos tipos: jogos de sociedade, de destreza, de azar, jogos de ar livre, de paciência, de construção, etc. Apesar desta infinda diversidade, e com uma notável constância, a palavra “jogo” evoca por igual as ideias de facilidade, risco ou habilidade. Acima de tudo, contribui infalivelmente para uma atmosfera de descontracção ou de diversão. Acalma e diverte. […] A cada novo lance, e mesmo que estivessem a jogar toda a sua vida, os jogadores voltam a estar a zero e nas mesmas condições do início. (CAILLOIS, 1990, p. 9).
 

De forma resumida, são as características abaixo descritas que esse autor designa ao jogo. Uma atividade:

1. Livre: porque o jogador não é obrigado a jogá-lo e, por isso, o jogo se mantém divertido, atraente e alegre;

2. Delimitada: com limites de espaço e de tempo definidos, rigorosa e previamente definidos;

3. Incerta: seu desenvolvimento não pode ser determinado nem seu resultado obtido previamente, assim como é obrigatoriamente deixada à iniciativa do jogador certa liberdade na necessidade de inventar;

4. Improdutiva: uma vez que não gera bens, nem riqueza, nem elementos novos de espécie humana, e, salvo alterações de propriedade no interior do círculo dos jogadores, conduz a uma situação idêntica à do início da partida;

5. Regulamentada: sujeita a acordos que suspendem as leis normais e que instauram momentaneamente uma legislação nova, a única que conta;

6. Fictícia: acompanhada de uma consciência específica de outra realidade, ou de franca irrealidade em relação à vida normal.

Essas várias características do jogo são meramente formais, elas não consideram o conteúdo do jogo. Contudo, as regras são inseparáveis do jogo assim que este adquire aquilo que se pode chamar existência institucional. A partir desse momento, faz parte da cultura de um povo. São elas que o transformam em um veículo, e assim os jogos ilustram os valores morais e intelectuais de uma cultura, bem como contribuem para determiná-los e desenvolver.

Leia mais:
Do jogo ao esporte e à competição – parte I

Contato: taniabas@terra.com.br

Referências

CAILLOIS, R. Os jogos e os homens. A máscara e a vertigem. Lisboa: Cotovia, 1990.

HUIZINGA, J. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ª. Ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001.

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