Universidade do Futebol

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08/07/2016

Dois anos depois do 7×1 deles

“Gol da Alemanha”, “virou passeio”, “7 x 1”… Expressões que se incorporaram à fala do brasileiro após o dia 8 de julho de 2014. A derrota histórica imposta pelos alemães em pleno Mineirão escancarou o que muitos já haviam diagnosticado: o futebol brasileiro parou no tempo.

Nessa sexta-feira completam-se 2 anos do maior vexame esportivo do futebol brasileiro. Passado o baque, assentada a poeira, o que vem sendo feito para colocar o futebol brasileiro no caminho certo?

Os algozes do Brasil também tiveram seu 7 x 1. Na Eurocopa de 2000 os alemães foram eliminados na primeira fase com apenas um empate e na última colocação do seu grupo. Antes disso 3 a 0 contra a Croácia e eliminação nas quartas de final da Copa do Mundo da França em 98 e a vergonhosa goleada sofrida por 5 x 1 em Munique contra a Inglaterra nas eliminatórias para o Mundial de 2002. Insucessos talvez não tão traumatizantes quanto a goleada no Mineirão, mas suficientes para convencê-los de que algo por lá estava errado.

Começava o plano para a transformação do futebol alemão.

CATEGORIAS DE BASE

Em 28 de fevereiro de 2001, oito meses depois da eliminação alemã na Euro, a assembleia geral da Deutsche Fussball Liga – DFL, associação de clubes que organiza a Bundesliga, decidiu que a implantação de academias para desenvolver jovens talentos seriam obrigatórias para todos os clubes que disputassem a Liga. Na temporada seguinte, a exigência passaria a ser obrigatória também aos times da segunda divisão.

A realização da Copa de 2006 no país facilitou a adequação dos clubes que aproveitaram o momento propício para viabilizar suas instalações às novas exigências com o aumento do interesse público e privado em projetos ligados ao futebol.

Após 15 anos do início do plano, o investimento no desenvolvimento de jovens talentos, que permitiu melhorar a qualidade do jogo alemão, ultrapassou 1 bilhão de euros.

Atualmente a DFB é a maior associação esportiva nacional do mundo. São em torno de 6,8 milhões de futebolistas registrados em quase 26 mil clubes. Entre as temporadas de 02/03 e 15/16 a Bundesliga viu a média de idade de seus jogadores cair de 27,1 para 24,5 anos sendo que na primeira temporada analisada 50%   deles eram alemães e na última temporada o número subiu para 66%, ou seja, são mais alemães e mais jovens disputando as partidas do campeonato alemão. Realidade que ajuda a diminuir os custos com transferências e salários.

Bundesliga - Participação de Alemães Bundesliga - Média de Idade

FORMAÇÃO DE PROFISSIONAIS

A DFB – Federação Alemã de Futebol – teve e tem papel importante no processo de reestruturação do esporte no país. Uma das medidas implementadas desde 2001 é ministrar cursos para professores de educação física com o intuito de capacitá-los na identificação de talentos, mais de 20 mil foram qualificados entre 2001 e 2011.

Depois da péssima campanha de 2000, com apenas um empate contra a Romênia e derrotas para a Inglaterra e Portugal, a prioridade era mudar o jeito alemão de jogar. Para isso era necessário formar técnicos com uma nova visão moderna do jogo e do treinamento, intercâmbios com países e culturas considerados referências no desenvolvimento do futebol e do esporte.

DIREITOS DE TV

Em 2001 os direitos de televisão passaram a ser negociados pela DFL. O mais recente acordo negociado pela liga trará aos cofres dos clubes 4,64 bilhões de euros pelos direitos de transmissão das temporadas 17/18 até 20/21, um incremento de 85% ao acordo anterior.

A BUNDESLIGA

Bundesliga - Presença de Público

Bundesliga - Ranking de Ligas UEFA (1)

NO BRASIL

Achar que a grama do vizinho é sempre mais reluzente que a do próprio jardim e dizer que não tivemos quaisquer impactos é fechar os olhos para o que se é feito no país.

Para João Paulo Medina, criador da Universidade do Futebol, a principal lição tirada do 7 x 1 foi justamente de que é preciso pensar o futebol: “Não entendo que foram 2 anos perdidos. Serviu para um movimento de conscientização, de maior clareza da sociedade sobre as necessidades que nós temos. Pelo menos hoje já não se fala mais que não temos que aprender nada com ninguém” e pontua alguns itens que precisam de mudanças mais contundentes do que as que ocorreram de 2014 para cá. “O Arcabouço jurídico dos clubes e federações, que é antiquado e antidemocrático. A Segurança e presença de público nos estádios, oportunidade e obrigatoriedade de formação profissional, um calendário produtivo e mais racional, que hoje só atende aos interesses de poucos. E, por fim, mas não menos importante, a qualidade do jogo em relação a outros países que se desenvolveram mais do que nós nas últimas décadas”, analisa.

Para Eduardo Conde Tega, CEO da Universidade do Futebol, é preciso modificar a estrutura do futebol em todas as suas dimensões: “Não adianta fazer um comitê de reforma da CBF pra não mudar o essencial e priorizar só o topo da pirâmide. [o 7 x 1] É uma oportunidade para atacarmos vários problemas críticos que impedem o nosso desenvolvimento”, destaca.

Tudo o que foi feito na Alemanha não pode ser simplesmente copiado, muito menos em um país continental e multicultural como o Brasil. Alguns dos indicadores destacados acima, como a redução da idade dos jogadores da Bundesliga ou o aumento da média de público da competição mostram que a caminhada é lenta e gradual, os resultados começam a aparecer depois de alguns anos, não existe fórmula, nem pensamento mágico.

Medina destaca uma conversa que teve com um grande executivo da DFB no ano passado, ao questioná-lo em quem a Alemanha havia se inspirado para criar o plano para o seu futebol.

Após confessar que ninguém havia feito essa pergunta antes, o executivo respondeu da seguinte forma:

“Na organização de eventos e mídia, os EUA. Eles são imbatíveis nisso.

Na atenção aos detalhes, nos japoneses. Nós alemães damos focos às coisas, mas os japoneses conseguem ser ainda mais detalhistas.

Em tecnologia e controles metodológicos: a Bélgica. São uma grande referência neste assunto.

Nas infraestruturas de treinamento para os jovens talentos, a França.

E no Brasil, para a alegria e descontração de jogar futebol.”

Uma aula de humildade que ensina muitas lições. Principalmente que podemos nos inspirar em toda escola que tenha contribuições ao nosso jogo, dentro e fora de campo.

Para transformar o futebol brasileiro será preciso planejamento, competência, integração, qualificação e, principalmente, vontade política para trabalhar pelos interesses do futebol brasileiro.

Comentários

  1. A mudança está começando, recentemente vi a entrevista dos representantes da Red Bull sua visão não é o hoje é o ontem, tem que se ter uma boa base para se modificar, não basta quer mudar no alto nível. No campeonatos do sul e paulista estão aparecendo novos técnicos e “conceitos” como o Red Bull, o Audax, entre outros em Santa Catarina Chapecoense. A vinda de técnicos Portugueses e Sulamericanos filiados a ATFA ( Associação de Treinadores de Futebol Argentino) que criou um órgão ligado a AFA para a formação de treinadores. Os resultados estão para quem quiser ver, treinadores desta escola nos 4 finalistas da Copa América. e nos principais países do mundo Itália, Espanha entre outros. Então todos temos que buscar conhecimento e não afirmar que tudo se resolve com habilidades.

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