Dunga, técnico da seleção brasileira

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A parceria entre a revista holandesa Soccer Coaching International e a Universidade do Futebol leva à comunidade brasileira mais um material especial. Desta vez, o comandante técnico da seleção com maior sucesso na história das Copas do Mundo é alvo de uma análise. Confira o perfil de Dunga.

Campeão da Copa das Confederações de 2009, o novato treinador coroou uma temporada em que conseguiu melhorar sua imagem perante o público – pelo menos foi o que indicaram algumas pesquisas. Preferências de jogadores à parte, Dunga conseguiu montar um grupo consistente, capaz de conseguir uma virada em uma final, como foi o duelo contra os Estados Unidos, por 3 a 2, naquela competição, e bater grandes rivais longe de seus domínios – goleada sobre o Uruguai, em Montevideu, e triunfo por 3 a 1 diante da Argentina, selando a classificação ao Mundial-10.

Análise tática: Argentina 1 x 3 Brasil

 

Tranquilo, Dunga transfere à imprensa o tom de despreocupação com o resultado no amistoso diante da Irlanda, o último compromisso oficial antes do início do torneio em solo sul-africano. Análises e conclusões mais solidificadas estão guardadas para si e para a comissão técnica.

“Não vai ter surpresas. Foram três anos e meio de trabalho. Quem conquistou os resultados, aproveitou as oportunidades e deu a resposta sabe que tem condições de ir para a Copa”, argumentou o técnico.

Qual é o segredo por trás do sucesso da seleção brasileira e como Dunga utiliza isso para atingir o ponto máximo? A reportagem aponta para uma intersecção entre qualquer era particular do futebol e a presença de um grande futebolista compatriota do gaúcho de Ijuí como protagonista.

De Pelé a Romário, Ronaldo, Ronaldinho ou Kaká: eles emocionaram o mundo dentro de campo e, mais recentemente, estão emocionando muitos fora dos gramados, tornando-se grandes negócios – basta atentar para o primeiro contrato multimilionário assinado entre o ex-atleta de São Paulo e Milan e o Real Madrid exatamente na véspera da Copa das Confederações.

“Nossa realização dessa noite é uma conquista coletiva de toda a equipe. Sem o apoio do time eu não poderia ser o homem do jogo”, falou, de maneira franca, Kaká, sobre sua eleição como o melhor da partida diante dos norte-americanos.

“Eu nunca vi um time junto sem nenhum problema durante 30 dias. Não houve qualquer história negativa nesse tempo. Isso mostra como estamos determinados”, enalteceu Dunga.


 

Disposição ao sacrifício

Acredita-se que mais de dois mil jogadores brasileiros deixem o país anualmente para jogarem em competições estrangeiras. E como eles tendem a ser contratados muito novos, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a Fifa começaram a trabalhar em planos para que isso pare de acontecer. O temor é que o futebol transforme-se em uma espécie de “moderna escravidão”.

“Todos os jogadores do elenco nacional têm contratos com bons clubes. Mas todos estiveram trancados nos seus hotéis nos últimos 22 dias. Isso os deixou muito ansiosos para vencer”, comentou, referindo-se ao período de concentração para a Copa das Confederações – com ele, a equipe verde-amarela já conquistara a Copa América de 2007.

“Nossos jogadores estão sempre motivados e eles sorriem bastante. Todos os jogadores brasileiros estão ansiosos para atuarem na seleção. Mas todos se respeitam uns aos outros”, completou.

Com poucas palavras, Dunga descreveu exatamente o equilíbrio que o time alcançou. “É claro que todo mundo irá falar sobre os jogadores que farão parte das manchetes por qualquer que seja o motivo. Mas é preciso ter atletas que serão parte das notícias dentro de campo. E, muito frequentemente, eles fazem isso sem o destaque da mídia pelo mundo”.

“É preciso ter jogadores que se sacrificarão pelo time”, sintetizou Dunga.

Um exemplo perfeito dessa filosofia é Gilberto Silva. A confiança do treinador pelo meio-campista do Panathinaikos, da Grécia, sempre foi questionada por muitos brasileiros.

Gilberto Silva sempre foi o tipo de jogador cujo valor é ignorado pelos consumidores superficiais do jogo. Mas o atleta de 32 anos de idade certamente fez a diferença em momentos pontuais.

Enquanto ele pode não ser tão apaixonado e visível como Dunga era no seu tempo, o volante com passagem histórica pelo Arsenal e que virou titular durante a Copa do Mundo de 2002, com Luiz Felipe Scolari, desempenha a mesma função crítica, garantindo a estabilidade e a segurança para as jogadas dos atletas próximos a ele.

Com Felipe Melo ao seu lado, esse robusto e pragmático atleta brasileiro lembra a postura de Dunga quando o Brasil venceu a Copa do Mundo de 1994. Outros jogadores, como Maicon e Daniel Alves, conseguem complementar o excepcional talento de Kaká e Robinho, permitindo à seleção brasileira ser paciente e esperar pelo momento para fazer o gol.

O Brasil joga futebol de maneira muito objetiva, com os atletas efetuando apenas um ou dois toques na bola e depois dando o passe para o seu companheiro. “Sempre há espaço para desempenhos individuais, mas o jogo é um esforço coletivo”, reitera Dunga.

Nova linha de pensamento

Dunga também sacrificou o padrão de jogo, uma mudança considerada por muitos como um “desrespeito” à tradição brasileira de fluência e empreendimento. Mas Dunga não se impressiona.

“Eu quero fazer um bom trabalho, essa é a minha função”, rebate.

Os “reis do samba” são capazes de fazer contra-ataques devastadores e marcar gols. E o Brasil talvez seja o único time que pode fazer de um escanteio contra, um gol a favor.

Dunga geralmente descarta um jogador próximo à trave enquanto sua defesa está postada em um escanteio contra. À frente, e quando há cobranças de falta próximas à área adversária, como nos jogos contra Egito e África do Sul, a chave para a nova fórmula de futebol de Dunga transparece.

Boa parte dos 16 gols que os brasileiros fizeram no torneio decorreu de peças do jogo. Ao contrário do que as equipes da Copa das Confederações acreditavam ser uma boa arma para a Copa do Mundo na África do Sul, Dunga também modificou a localização dos jogadores de meio-campo, que o mundo associou ao futebol brasileiro.

Em vez de três, sobraram só dois jogadores ágeis nas laterais – Kaká e Robinho. Essa estratégia talvez explique a ausência de Ronaldinho, que foi substituído por Gilberto Silva, na defesa da faixa central do gramado. Silva é ajudado por Felipe Melo, que tem habilidade para roubar e passar a bola, além de ser uma importante ameaça em lances aéreos. Depois de testar Anderson, Edmilson, Fernando, Hernanes, Josué, Mineiro e Tinga num esforço de preencher as posições do setor, não parece que Dunga encontrará espaço sobrando para o craque do Milan.

“Eu gostaria que Ronaldinho voltasse a jogar, mas isso depende dele”, afirma Dunga, deixando ainda uma fresta da porta aberta a um dos maiores atacantes que o mundo já viu.

A estratégia defensiva da equipe brasileira seguiu a filosofia de Joel Santana, técnico da África do Sul à ocasião, e que atualmente comanda o Botafogo. Nessas condições, as chances de Ronaldinho voltar a fazer parte da equipe são p
equenas.

Falta pouco

Depois de um lento começo, o Brasil agora está se preparando para a Copa de 2010. Mas os problemas que o time enfrenta em seus treinamentos destacam a necessidade de uma adaptação contínua. A participação na Copa das Confederações, em 2009, garantiu a Dunga uma boa oportunidade de quebrar alguns recordes.

“Esta temporada foi muito importante para nós. Estamos formando um grande time para 2010. Quando temos tempo para treinar juntos por três semanas, é muito diferente do que se preparar para um jogo apenas”, compara o “querido” gaúcho.

O capitão da Copa-94 apresentou em janeiro 64% de aprovação dos brasileiros, segundo pesquisa nacional do Datafolha. A sondagem aconteceu entre os dias 14 e 18 de dezembro de 2009 e revelou que só 3% dos brasileiros avaliam o trabalho do técnico como ruim ou péssimo.

A maioria dos 11.258 entrevistados classificaram o desempenho de Dunga como ótimo ou bom, melhor desempenho de um técnico em ano de Copa do Mundo, nesta década – em 2006, Carlos Alberto Parreira teve 62% de aprovação e, em 2002, Luiz Felipe Scolari teve apenas 37%.

“Quando estão em campo, os jogadores precisam ter vontade de vencer”, diz Dunga, que não demonstra tanta apreensão em treinar habilidades específicas quando reúne o elenco.

“Nós tentamos transmitir tranquilidade, mas os jogadores sabem com o que se preocupar”.

No entanto, se o time falhar, Dunga não parece temer a tomada de decisões. “A verdade precisa ser dita. Há uma competição saudável dentro do time e queremos apenas os melhores jogadores”.

Conforme a exportação de talentos brasileiros se torna um grande negócio, o técnico possui um grande grupo de atletas para montar a sua seleção. “Nossos jogadores estão sempre motivados e sorrindo”, garante.

Com jogadores que fazem parte dos melhores times no mundo, não há necessidade de ensiná-los muitas coisas. E Dunga valoriza, mesmo, o envolvimento coletivo.

“Ser técnico do Brasil é, com certeza, um trabalho difícil, uma vez que o mundo todo está observando suas decisões”, finaliza.


 

Fonte: Soccer Coaching International – www.soccercoachinginternational.com

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