Universidade do Futebol

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03/05/2019

É proibido jogar

Os últimos jogos que assisti lembraram-me a música do Roberto, aquela que dizia “É proibido fumar / Diz o aviso que eu li…”. Nada a ver com o fumar, mas tudo a ver com o proibido. Fosse Roberto Carlos um apaixonado por futebol, reescreveria sua música: “É proibido jogar / Diz o aviso que eu li…” A continuar assim teremos cartazes afixados nas entradas dos gramados: “É proibido jogar”. A nós, que amamos o futebol, custa-nos acreditar que o atual jogador brasileiro jogue tão mal. E isso desde as categorias de base. Chego a preferir os jogos de várzea, as peladas nos campinhos, os rachas na praia; dão-me mais prazer. A feiura dos espetáculos me fez desligar várias vezes a TV em jogos sub-20 ou sub qualquer outra idade. A ordem não é jogar ou ganhar; é não perder, é acovardar-se, é defender-se a qualquer custo. E tome de esquemas, que todos eles poderiam ser traduzidos por engessamento de jogadores. “Quando a bola chegar para você no meio, toque na direita, corra para a entrada da área, receba de volta, enfie na esquerda…” Não pense, não crie, não tome iniciativas. As decisões ficam por conta dos técnicos, da tecnologia, quem sabe, de aplicativos. A arte de conviver com o imprevisível, tão bem resolvida por Garrincha, Pelé, Maradona e Messi, é o demônio a ser exorcizado pelos novos gênios da bola à beira do campo, com sua covardia, sua falta de compreensão quanto ao que é jogo, e suas parafernálias eletrônicas. O que acontece? Por que deixamos o trono de melhores do mundo para o papel de mais monótonos do mundo? Nosso futebol é um tédio que se arrasta pelos gramados, como o comprova, inclusive, nossa seleção principal. Alguns culpam o mercado, outros a diminuição dos espaços abertos, a inviabilidade das ruas, e por aí afora. Há até quem diga que é culpa do estudo: esse povo da universidade estaria acabando com o futebol. De minha parte, estou convencido de que estudar bem nunca fez mal a ninguém, e estudar mal nunca a ninguém fez bem. O que acontece é que o sujeito estuda mal, vai para o campo e tudo piora. Portanto, gênios do apocalipse, a solução não é deixar de estudar; imaginem o absurdo que seria o futebol melhorando porque seus profissionais pararam de estudar. Seria patético afirmar algo tão estapafúrdio, porém, sobram no mundo da bola críticos patéticos. Não se trata de parar de estudar, portanto, mas de estudar bem, de acrescentar ao que já sabemos, um tanto de estudos que nos faça melhorar.

A decadência do futebol brasileiro é escandalosamente visível, mas tem raízes complexas e não comporta uma ou outra solução simplista. São muitos os aspectos a considerar; escolho um apenas. Imaginem uma criança que, tendo uma vida de experiências ricas em brincadeiras, apaixonou-se pela bola e desenvolveu com ela tal intimidade que nos enche os olhos vê-la jogando sozinha ou com seus amigos. Pés descalços, canelas finas, a cara molhada de suor, a camisa enrolada na cintura. Pratica sua arte como se fosse a única e última coisa a fazer naquele momento, naquele dia, naquela vida. Dribla olhando o chão e o mundo, como Messi; comemora o gol socando o ar, como Pelé, toca de calcanhar com a sutileza do Doutor Sócrates. Um dia, e nossa vida sempre tem um dia, mal entrado na adolescência, um parente entusiasmado leva o menino para um time profissional; ele tem lá um amigo que é dirigente do clube. “Esse menino vai jogar no sub-13!”, ele fala com orgulho. A família comemora. Pais, tios, primos, dirigem seus olhares confiantes para o futuro craque, as glórias e o dinheiro que, por certo, ganhará. Os amiguinhos comentam entre admirados e invejosos.

O menino foi para o time, o dirigente ajudou um pouco, treinou durante meses, jogou muitas partidas, mas não deu em nada. Era bom de bola, só que ficava nervoso, o tio sempre por perto, o técnico cobrando, “faça isso, faça aquilo…”. Um ano depois estava de volta ao campinho de terra, suando e socando o ar, artista da bola. O tempo passou e ele virou craque de várzea nos finais de semana, toda ela passada num escritório de contabilidade, estagiário do outro tio. No sub-13 ele não conseguia jogar seu jogo. Cansou de ser punido por enfiar a bola no meio das pernas do adversário, por chapelar os afoitos, e por perder gols driblando em vez de passar; driblar na direção do gol era irresistível! Não entendia tantos esquemas, tantas regras, tantas ordens. A diversão, que um dia foi tão boa, não existia naquele futebol que o obrigavam a jogar. Muito estranho aquele jogo que ele não conseguia aprender!

O menino tinha aprendido na rua um outro jogo de futebol. No clube, o futebol que o obrigavam a jogar ele não conhecia. Quantos futebóis existem? O futebol do menino parecia mais com o de Maradona, Zico, Garrincha, Sócrates. O do técnico do clube parecia com o trabalho do pai na fábrica de automóveis. E ele não conseguiu, o tempo foi curto, era chato, não dava para se divertir. Teve que juntar as chuteiras e voltar para casa.

Muito bem, eu tinha escrito, três parágrafos antes, sobre as soluções. Isso me lembrou de dizer que a educação, de maneira geral, deveria tornar a pessoa cada vez mais ela. Para dar um exemplo, a educação deveria tornar Maria cada vez mais Maria e João cada vez mais João. O menino que foi tentar a sorte no clube só queria brincar de futebol, só queria ser mais do que já era, sem deixar de ser ele. O menino tinha uma história de vida e uma história de futebol dentro dela. Se o técnico responsável pelo sub-13 compreendesse que João tem que se educar para ser cada vez mais João, não ignoraria toda a história do menino, que era craque na rua, no campinho, um malabarista, um verdadeiro artista da bola. O menino que se divertia passando, correndo, driblando, fazendo gols! Não repetia uma jogada, era uma verdadeira fábrica de criatividade, irreverente, atrevido. No sub-13 virou um burocrata a serviço dos esquemas traçados pelo técnico.

Não deviam ter zerado tudo que o menino sabia quando chegou ao clube. Era para ter feito o conhecimento que ele tinha aumentar. Seria um privilégio ter o menino tão diferente dos outros. E seria mais privilégio ainda ter todos os meninos diferentes uns dos outros. Quando maior a diferença entre os membros de um coletivo, mais forte pode ser esse coletivo. A força do coletivo está na boa articulação entre as diferenças; sua fragilidade está na igualdade. Os esquemas burocráticos das equipes técnicas estão tornando os meninos cada vez mais iguais. Todo atrevimento será castigado, toda criatividade será esterilizada. O esforço que noto atualmente é para igualar todos, submeter crianças criativas a um modelo único.

Para finalizar, e sem sair do aspecto escolhido, entre tantos possíveis, quando um menino aprende um jogo de futebol criativo, forjado nas brincadeiras de rua, nos diversos tipos de brincadeiras de bolas, pés descalços, terrenos irregulares, campos pequenos, bolas diferentes, é esse futebol que ele vai poder mostrar quando chega a um clube. Esse futebol que ele sabe jogar é, de fato, um jogo, é um jogar por jogar, um fazer por fazer, sem nada em troca a não ser a entrega total ao jogo, a sensação prazerosa de ser capaz de fazer aquilo, a diversão gratuita. Ou seja, ele sabe jogar futebol. Mas o que ele encontra no clube já não é jogo; ele não jogará futebol, ele cumprirá ordens, seguirá esquemas, será engessado em modelos que deverão ser cumpridos, sob pena de ser excluído. O menino que aprendeu a jogar na rua será proibido de jogar no clube. O futebol que ele sabe jogar, e que já foi o melhor do mundo, terá que ficar do lado de fora do campo.

 

Comentários

  1. Richard Daddy disse:

    Esse ponto de vista do professor são os pensamentos de muitos poucos, e a grande realidade, o futebol esta virando mundo de negócios, o menino de rua, cheio de criatividade quando chega no clube e rapidamente cortado e ate proibido e mostrar aquele que possui, e uma triste realidade, o futebol arte deu espaço para futebol sem técnica,sem qualidade, sem jinga,sem drible e sem motivação, só resultado..

  2. “Chega de levar porrada
    A canela tá inchada e o juiz não vê
    Chega dessa marmelada
    A camisa tá suada de tanto correr
    Chega de bola quadrada
    Essa regra tá errada, vamo refazer
    Chega de levar porrada
    A galera tá cansada de perder (2x)

    Chega de levar porrada!!”
    (….musica “Brazuca” do Gabriel Pensador…).
    NÃO EXISTE MAIS FUTEBOL,,,,, TIPO AGRONEGÓCIO DA BOLA!

  3. Luiz Mendes de Lima disse:

    Conheci o autor em um encontro da SBPC, anos atrás, aqui em Florianópolis. É um educador sobretudo. Seu texto é um chamamento de alerta, mas não sei se vai encontrar o eco que ele deseja. Esta passagem desse “João” deveria ser emoldurada em algum lugar na sala dos responsáveis por um clube de futebol. Ei-la: “Quanto maior a diferença entre os membros de um coletivo, mais forte pode ser esse coletivo. A força do coletivo está na boa articulação entre as diferenças; sua fragilidade está na igualdade”.
    E desconfio que vale para outros ambientes(sic) que não apenas o futebol. Há um princípio da Cibernética(a ciência da ação, por excelência) que reza o seguinte: “É a variedade que destrói a variedade”, o que parece referendar a proposição de Freire. Mas, em se tratando de sistemas dinâmicos(as componentes precisam interagir), a “articulação” pode não resultar de uma “ideia de jogo”, de um “modelo de jogo” ou de um reles esquema tático proposto pelo professor(sic). Pode acontecer que a organização, o entrosamento ou o tal de “encaixe do time” surja de forma espontânea, como uma propriedade própria do sistema em ação. Antes, o futebol continha uma variedade ou coletivo de 11 posições(do goleiro ao ponta esquerda). Hoje em dia foi reduzida a apenas três: defensores, meio campistas e atacantes. Oh Tempora! Oh Mores! Deixo meus parabéns ao autor pelo excelente artigo.

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