Universidade do Futebol

AAREFut

10/10/2012

E se essa rua fosse minha…

“O que eu faria se essa rua fosse minha?”.

É com esse pequeno trecho desta cantiga infantil que começo uma singela reflexão sobre o que estamos fazendo, nós, profissionais do futebol, com os sonhos de nossas crianças e jovens de se tornarem jogadores de futebol.

O início falando de rua não é em vão, pois acredito que entre outros fatores, o “declínio” do futebol brasileiro está muito ligado com a falta de ambientes para a prática do futebol com meios que propiciam a criação de situações problemas e o desenvolvimento da inteligência.

Faço uma pequena citação do Mestre João Batista Freire, na sua belíssima obra Pedagogia do Futebol, que diz:

“No tempo em que havia fartura de espaço e de brincadeira, nem fazia sentido falar de escolinha de futebol. Dos campinhos de pelada saíam os Didis, os Garrinchas, os Gerson, os Romários”.

E assim seguimos nos dias atuais, o preenchimento destes espaços tão ricos, quando tratamos em vivência corporal e com a bola no pé estão sendo feitos por Escolinhas de Futebol. E estas, será que estão preparadas?

Não quero aqui discutir nenhum modelo de jogo, nem tampouco criticar qualquer tipo de profissional, mas o que não podemos é fechar os olhos para a verdadeira perda de sentido e objetivos nestas instituições. Hoje em dia, o que mais se espalha por todo país são escolas de futebol utilizando a marca de um grande clube do futebol, a chamada franquia.

Não discordo que esta talvez seja uma salvação comercial e financeira para as escolinhas, visto que o nome de uma agremiação de peso sempre atrai um bom número de alunos. Porém, até que ponto a verdade está presente nisto? E até que ponto os profissionais envolvidos estão cientes do que estão fazendo? E o mais preocupante: qual o controle que os clubes possuem destas franquias, na questão do que vem sendo trabalho e como?

Tento responder de uma forma simples e não generalizada, e analisando acima de tudo, o cenário em que estou incluído, a Associação Catarinense de Escolinhas de Futebol, onde lidamos com Escolinhas de Futebol e franquias das mais diversas naturezas.

Infelizmente, em grande parte, as perguntas feitas acima têm respostas negativas. A questão comercial e financeira geralmente é colocada acima da questão pedagógica e verídica, e geralmente, as promessas feitas na hora da matrícula raramente são cumpridas.

Contudo, esta questão de clubes e Escolas de Futebol com suas franquias são muito mais intensas e complexas, que merece um debate mais profundo, o qual não é o objetivo desta reflexão. Quero, sim, (re)alertar o que já estamos cansados de saber: nossas escolinhas de futebol estão sem controle, “sem pai, nem mãe”, sem ninguém para intermediar qualquer dificuldade que seja. Através da ACEF, associação acima citada, tentamos fazer uma pequena parte; contudo, é pouco para a quantidade de instituições que abrem todos os dias no Brasil.

O que estarão ensinando para nossas crianças e jovens? Será que os clubes não têm responsabilidades neste processo? Queremos voltar a formar jogadores inteligentes, habilidosos e com aquela quase perfeita técnica que tínhamos tempos atrás, mas o que estamos fazendo para isso?

Enfim, neste momento, gostaria apenas de lançar esta pequena reflexão, e principalmente, pensar no que estamos fazendo para nossas crianças atingir o seu sonho, que é comum a milhões por todo o Brasil.

Se a Escola da Rua, que há tempos nos deu tantos e tantos jogadores diferenciados e que chegaram tão longe, foi transformada nas Escolinhas de Futebol, cabe a nós a responsabilidade de criar ambientes propícios para o ensino do futebol no qual acredito ser o ideal, que torne a criança capaz de analisar o jogo, tomar decisões e principalmente, que ensine mais do que o futebol.

“Se essa rua fosse minha”, seria assim: tentaria fazer com que os jovens tivessem todas as vivências possíveis dentro do futebol, com uma carga de dificuldades e novidades que o fizessem pensar e, acima de tudo, deixaria sonhar com responsabilidade, pois podemos e devemos acreditar em nossos sonhos, contudo, cabe a nós, profissionais do futebol, traçar objetivos e metas palpáveis para isto.

*Ricardo Arruda Souza é Mestrando em Treino Desportivo na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e Diretor Técnico da Associação Catarinense de Escolinhas de Futebol.

Contatos: www.facebook.com/ricardo.arrudasouza;
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