Entrevistas

01/09/2017

Eduardo Baptista – treinador de futebol

A trajetória de Eduardo Baptista em 2017 exemplifica bem uma série de problemas que acometem os treinadores de futebol no Brasil. Amparado por boa campanha com a Ponte Preta no ano passado, o treinador foi escolhido para comandar na atual temporada o Palmeiras, que havia sido campeão nacional e investiu mais de R$ 100 milhões em reforços badalados como o volante Felipe Melo, o meia Guerra e o atacante Borja. Foi demitido em maio, após eliminação no Campeonato Paulista. Assumiu o Atlético-PR depois de hiato inferior a 20 dias, mas também durou pouco: caiu depois de menos de dois meses, em meio a conflitos internos que contribuíram para minar o trabalho.

As agruras vividas por um treinador no Brasil, contudo, não são novidade para Eduardo. Filho de Nelsinho Baptista, que foi jogador e até hoje trabalha como treinador, ele tem mais de 20 anos de experiência na área. Além disso, possui diploma de educação física, pós-graduação em fisiologia do exercício e mestrado em ciência do esporte.

Fã do próprio Nelsinho, de Tite e de Pep Guardiola, Eduardo começou como treinador em 2014, quando assumiu interinamente o Sport e acabou efetivado. Em poucos anos, tornou-se símbolo de uma geração promissora na área – é contemporâneo de nomes como Fabio Carille e Roger Machado, por exemplo. No entanto, ainda sofre para implantar em algum clube as ideias que considera adequadas para o futebol como um todo.

“Vejo a qualidade hoje bem abaixo de onde poderíamos estar. A pressão criada em cima de treinadores e um calendário repleto de partidas fazem com que se priorize a defesa ao ataque, a ligação direta à posse, o retardar o jogo ao jogar. Tudo isso tem empobrecido o futebol jogado”, disse Eduardo Baptista em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista:

Universidade do Futebol – Quais são as referências teóricas do seu trabalho? E os profissionais que servem como referência?

Eduardo Baptista – Nelsinho Baptista, Tite e Pep Guardiola. Sou leitor dos trabalhos de Vitor Frade sobre periodização tática, apesar de adaptar para a realidade brasileira.

Universidade do Futebol – Para você, o que é talento no futebol?

Eduardo Baptista – É o que acontece quando um atleta se sobressai sobre outros em relação a aspectos técnicos e físicos, além da parte intelectual, e consegue ler e entender situações que o jogo pede, resolvendo-as com rapidez e eficiência.

Universidade do Futebol – Como você avalia a quantidade e a qualidade dos talentos no futebol brasileiro atualmente?

Eduardo Baptista – Acredito que a produção de talentos no Brasil diminuiu sensivelmente. Tenho algumas teorias: a diminuição dos jogos de rua, em que não há regras ou cobrança por resultados, apenas a diversão, em decorrência do desenvolvimento urbano; as escolas sem espaço ou interesse pela prática de educação física; os atletas da base que precisam servir ao profissional cada vez mais cedo, o que interrompe o desenvolvimento da personalidade e gera uma carga de responsabilidade muito grande; e a cópia excessiva dos modelos europeus. Não que não estejam certos, mas é preciso tentar um equilíbrio nesses trabalhos para não podar o atleta brasileiro no que ele tem de melhor: o drible, a irreverência e a capacidade de sair de situações inusitadas. O excesso de regras nos pequenos jogos ou nos trabalhos tem inibido isso, na minha opinião.

Universidade do Futebol – Qual é sua avaliação sobre o atual momento das categorias de base no Brasil? Quais pontos podem ser aprimorados?

Eduardo Baptista – Houve evolução, mas temos de nos atentar muito ao que eu citei anteriormente. O atleta europeu é muito diferente do brasileiro. Precisamos respeitar as diferenças e não podar o que temos de melhor.

Universidade do Futebol – E a cultura de resultados no processo de formação? Quanto isso atrapalha?

Eduardo Baptista – Sempre é importante ganhar, despertar o sabor e o desejo pela vitória – ou seja, o espírito competitivo. Porém, isso não pode ser o “carro-chefe”. Não pode vir à frente da formação do atleta e do homem.

Universidade do Futebol – Na sua opinião, como deveria ser feita a transição base-profissional? Você defende a existência de uma categoria sub-23 para se integrar a esse processo?

Eduardo Baptista – É preciso que essa transição seja gradativa. A começar pelos trabalhos do sub-20, que devem ser próximos do profissional para que o atleta se ambiente e conheça o nível de exigência necessária na categoria seguinte.

Sobre o sub-23 eu acho importante, mas com algumas ressalvas: que não tenha um elenco numeroso; que tenha uma comissão técnica preparada para essa categoria e não com aspiração de assumir o profissional; que tenha atletas de qualidade – se há um sub-20 com mais qualidade e personalidade na mesma posição, o sub-23 perde sentido; que não exista disputa entre profissional, sub-20 e sub-23. Tive experiências em que tudo isso aconteceu. Então, não basta montar um sub-23 se não souber aonde chegar.

Foto: Cesar Greco/Palmeiras
Foto: Cesar Greco/Palmeiras

Universidade do Futebol – Como você lida com eventuais limitações técnicas e táticas que poderiam ser mais bem trabalhadas no processo de formação?

Eduardo Baptista – Se o atleta tiver idade para o sub-20, devolvo para a categoria e tenho uma conversa com ele e com o técnico. Peço que seja mais bem desenvolvido o que eu achar necessário.

Universidade do Futebol – Nos clubes em que você trabalha, qual é a relação entre sua realidade e as categorias de base?

Eduardo Baptista – Quando trabalhando, eu procuro me aproximar, mas sem interferir. Integro o sub-20 aos meus treinamentos, subindo atletas para participarem por um tempo e observando cada um. E claro, se mostrarem qualidade e personalidade ficam e ganham oportunidade.

Universidade do Futebol – Você defende uma uniformidade de modelo de jogo entre categorias de base e time profissional?

Eduardo Baptista – Acredito que o clube deve ter um modelo de jogo para todas as categorias, mas não podemos confundir sistema com modelo. Se a história de um clube for de posse de bola, marcação alta, “pós-perda” eficiente e agressivo, vejo necessidade de unificação. Como as categorias atingirão esses objetivos fica a critério de cada uma, de acordo com a didática de suas comissões.

Universidade do Futebol – Explique brevemente um modelo de jogo com o qual você se identifica, por favor. Tem sido possível aplicá-lo?

Eduardo Baptista – Gosto de jogar no 4-1-4-1 com variação para um 4-2-3-1 e ter posse de bola com triangulações pelos lados. Na perda da posse, peço para agredir e roubar a bola imediatamente. Se não for possível, temporizar com diagonal para trás. Defendo com marcação média/alta, com pressão no portador da bola. Quando há o roubo da posse, passe vertical para chegar rapidamente ao gol adversário. Os atletas de ataque devem pedir a bola na frente.

Universidade do Futebol – Na sua opinião, quais são suas responsabilidades como treinador de futebol?

Eduardo Baptista – Treinador é um cargo de confiança no clube. Ele precisa gerar bem seu estafe, delegando poderes aos membros com coerência e honestidade, e fornecer um “raio-X” do trabalho à diretoria. Também não pode dar armas à imprensa contra o clube.

Universidade do Futebol – Como os agentes externos (empresários, amigos, cônjuges, etc.) influencia o desempenho dos jogadores? E como você atua nesse contexto?

Eduardo Baptista – Há 20 anos, um treinador geria um grupo de 30 atletas. Hoje esse grupo aumentou exponencialmente, já que cada um dos atletas tem um agente, um familiar ou um amigo. Positivamente, os atletas estão mais profissionais. Negativamente, há mais pessoas trazendo problemas externos e desviando do foco principal. O que faço para amenizar isso? Todos os problemas externos são resolvidos se o atleta estiver bem em campo. Do contrário, problemas externos só aumentarão. Não vejo muito o que fazer.

Foto: Marco Oliveira / Divulgação Atlético Paranaense
Foto: Marco Oliveira / Divulgação Atlético Paranaense

Universidade do Futebol – Com quais perfis de atletas você gosta de trabalhar?

Eduardo Baptista – O perfil que me agrada é aquele atleta focado, que tem disciplina nos trabalhos e no extracampo. Gosto do atleta que fala suas dúvidas e quer saber sobre objetivos do trabalho e/ou estratégia de jogo. Gosto do questionador porque me dá um feedback.

Universidade do Futebol – Qual é sua avaliação sobre a qualidade de jogo no futebol brasileiro atual?

Eduardo Baptista – Vejo a qualidade hoje bem abaixo de onde poderíamos estar. A pressão criada em cima de treinadores e um calendário repleto de partidas fazem com que se priorize a defesa ao ataque, a ligação direta à posse, o retardar o jogo ao jogar. Tudo isso tem empobrecido o futebol jogado.

Universidade do Futebol – No âmbito da capacitação profissional, você está satisfeito ou planeja próximos passos?

Eduardo Baptista – Venho da área acadêmica, e por isso nunca estarei satisfeito com o que aprendi. Sempre busco mais. Vejo jogos do mundo todo, leio bastante e procuro fazer cursos que me enriqueçam.

Universidade do Futebol – Quais são seus sonhos?

Eduardo Baptista – Meu sonho é trabalhar numa equipe do Brasil em que eu tenha tempo para implantar todos os meus conceitos sobre o que entendo por futebol e que isso não seja uma exceção.

Comentários

  1. Foto de perfil de Samuel Samuel disse:

    Eduardo Baptista é um técnico referência para a nova geração, que conseguiu chegar ao topo do Brasil em 2017 por sua competência e transparência, além de propor novas ideias com seus artigos e colocações sobre futebol e seus princípios e valores aprendidos. Torço muito pelo seu sucesso, e que o Brasil possa possibilitar mais tempo a ele e a outros treinadores brasileiros, a fim de mostrar um futebol mais qualificado e mais bonito de se ver.

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Sobre a Universidade do Futebol

A Universidade do Futebol é uma instituição criada em 2003 que estuda, pesquisa, produz, divulga e propõe mudanças nas diferentes áreas e setores relacionados ao universo do futebol, enquanto atividade econômica e importante manifestação de nosso patrimônio cultural, nas dimensões socioeducativas e no alto rendimento, e que conquistou o reconhecimento e credibilidade da comunidade do futebol.

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