Universidade do Futebol

Entrevistas

07/03/2014

Eduardo Oliveira, auxiliar da seleção brasileira sub-17

Hoje em dia, o grande dilema para quem trabalha direta ou indiretamente no processo de formação de jovens talentos para o futebol brasileiro, talvez, seja em como formar um jogador inteligente.

Ensinar o garoto, ainda em fase de amadurecimento, a ter as tomadas de decisões mais corretas ao longo do tempo, evoluir no entendimento dos conceitos de jogo, ganhar mais autonomia com o decorrer dos anos, com maior responsabilidade dentro e fora de campo, não é das tarefas mais fáceis dentro do esporte.

Mesmo assim, este foi o caminho trilhado por Eduardo Oliveira, auxiliar da seleção brasileira sub-17 e também do Novorizontino da mesma categoria.

Bacharel em Educação Física e mestrando em Treinamento de Alto Rendimento Desportivo, o profissional diz acreditar que o foco do trabalho nas categorias de base deve ser a formação integral do ser humano.

“Através da educação, formará um cidadão que será um jogador de futebol melhor. A formação no Brasil ainda está muito restrita aos campos, ainda é muito analítica, e para caminhar é preciso entender o processo de formação de uma maneira sistêmica dentro e fora de campo”, afirma Eduardo Oliveira, em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

Na seleção brasileira, revela o auxiliar, alguns conceitos, ideias, ou princípios de jogo, são trabalhados de acordo com a idade dos garotos, da categoria em que estão inseridos e das características individuais de cada um.

Preocupações que buscam direcionar o jovem jogador a ser capaz de resolver as situações problema, seja no 1 contra 1, passar ou driblar, acelerar ou desacelerar, enfim, em todas as ações que o caos do jogo impõe.

“Ninguém está revolucionando o futebol, mas as metodologias de treino foram melhorando, os garotos que antes chegavam com dez mil horas de prática deliberada, futebol de rua, nos clubes, hoje chegam de escolinhas com menos tempo de vivência, com outro perfil, e isso requer adequações nos métodos de treinamento”, aponta.

Nesta entrevista, Eduardo Oliveira ainda falou sobre qual é a real importância das informações táticas aos jogadores em formação e como é o modelo de jogo das categorias de base da seleção brasileira. Confira a íntegra:

Universidade do Futebol – Qual a sua formação acadêmica e como ocorreu seu ingresso no ambiente do futebol?

Eduardo Oliveira – Eu sou Bacharel em Educação Física, e estou concluindo em 2014 a minha pós-graduação em Futebol na Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais. Em paralelo, faço meu mestrado em Treino de Alto Rendimento Desportivo na Fadeup em Portugal, que pretendo terminar até 2016. Também sou formado como treinador de futebol pela National Soccer Coaches Association of America, dos Estados Unidos, com licença no Premier Diploma, que equivale ao nível I oferecido pela CBF.

O meu interesse pelo futebol vem desde muito cedo, quando ainda era criança. Joguei nas categorias de base até os juniores e aos dezenove anos parei de jogar por opção própria, pois percebi que não tinha uma condição que me permitisse sonhar com voos mais altos.

Alguns meses depois, comecei estagiando na equipe que disputaria a Copa São Paulo da minha cidade, que é Leme, no interior de São Paulo, em setembro de 2002. Em 2003, no meu primeiro trabalho como treinador, comandando o time dos juniores, conquistamos a medalha de ouro na modalidade futebol em cima do Guarani de Campinas nos Jogos regionais de Araras. Essa geração de ouro de garotos foi muito importante na minha vida e nas minhas escolhas mais tarde.

Depois dessa oportunidade, dei sequencia nos estudos, pois acredito que a teoria proporciona um treinar mais rico, sem perder de vista a prática que permite entender melhor as relações humanas e vivências que a teoria não pode oferecer.

Os jogadores convocados para as categorias de base das seleções chegam com um bom histórico de cultura de jogo, e com conhecimentos dos Princípios Gerais Táticos Ofensivos e Defensivos bem trabalhados, revela Eduardo Oliveira

Universidade do Futebol – Qual é a real importância das informações táticas aos jogadores em formação? Na metodologia da seleção brasileira, como elas são trabalhadas?

Eduardo Oliveira – As informações táticas são fundamentais e devem começar desde a iniciação. Os garotos nas primeiras idades precisam dos mais simples conceitos de jogo, como por exemplo, 1 contra 1, fechar o gol, fechar o buraco, conduzir ou passar, etc.

Já no sub-20 ou sub-23, pode-se trabalhar com os conceitos, ideias, princípios de jogo adequados ao modelo adotado pela equipe profissional, para facilitar a progressão, a transição dos garotos das categorias de base até a equipe principal.

Como disseram Garganta e Pinto, em 1994, a aprendizagem dos procedimentos técnicos constitui apenas uma parte dos pressupostos necessários para que, em situação de jogo, os praticantes sejam capazes de resolver os problemas que o contexto específico lhes coloca. Desde os primeiros momentos da aprendizagem, importa que os praticantes assimilem um conjunto de princípios que vão do modo como cada um se relaciona com o móbil do jogo (bola), até à forma de comunicar com os colegas e contra-comunicar com os adversários, passando pela noção de ocupação racional do espaço de jogo.

Nas seleções de base do Brasil, a tática assume um papel principal, pois temos que inserir jogadores de diferentes culturas de jogo, de diferentes escolas de formação à nossa ideia, a nossa concepção de modelo de jogo. Os jogadores convocados para as categorias de base das seleções chegam com um bom histórico de cultura de jogo, e com conhecimentos dos Princípios Gerais Táticos Ofensivos e Defensivos bem trabalhados.

Na seleção brasileira, alguns conceitos, ideias, ou princípios de jogo, como queiram chamar, são trabalhados de acordo com a idade dos garotos, da categoria em que estão inseridos e das características individuais. A seleção tem uma concepção de modelo de jogo, de como queremos atacar, de como queremos nos defender, de como reagir à perda ou a recuperação da posse que são ajustadas de acordo com a situação problema que encontramos e aos contextos competitivos que vamos enfrentar.

Na base, os critérios de seleção levam em conta a relação com a bola dos jogadores, a criatividade, o controle emocional, o entendimento do jogo, o biótipo e suas características por posição, o comportamento extracampo, a competitividade do atleta, entre outros aspectos, afirma 

Universidade do Futebol – Como você vê a importância do erro para o processo de ensino-aprendizagem do futebol?

Eduardo Oliveira – Veja, errar é humano. Nós treinamos humanos que jogam futebol, e o erro é parte indissociável do processo de Ensino Aprendizagem de um esporte de invasão com imprevisibilidade.

Como diria Piet Hein: “O caminho para a sabedoria? Bem é direto e simples de expressar: Errar; Errar; E errar novamente… Mas menos; Menos; E menos…”.

O erro quando entendido como parte do processo de ensino aprendizagem, pode ajudar o treinador a compreender melhor o jogador, proporcionando mais autonomia para a tomada de decisão desse menino, jovem, ou adulto em formação.

O erro quando entendido como parte do processo de ensino aprendizagem, pode ajudar o treinador a compreender melhor o jogador, analisa o profissional

Universidade do Futebol – Os jogadores da seleção são selecionados pelo biotipo (Ex: zagueiros e goleiros altos)? E por semestre de nascença (ex: apenas jogadores do segundo semestre)? Como funciona esse trabalho?

Eduardo Oliveira – Estou começando meu trabalho na seleção brasileira e seria uma irresponsabilidade minha fazer afirmações sobre o assunto. O responsável pela detecção e monitoramento de atletas é o nosso observador técnico, Bruno Costa, e o treinador Caio Zanardi, na categoria sub-17, que também executa essa função, e todos os profissionais envolvidos no processo das seleções do Brasil de base.

Posso esclarecer o que me foi passado no meu primeiro contato: que as categorias de base têm um banco de dados de jogadores para cada ano. No caso da sub-17, referentes aos anos de 97, 98, e 99, os critérios de seleção levam em conta a relação com a bola dos jogadores, a criatividade, o controle emocional, o entendimento do jogo, o biótipo e suas características por posição, o comportamento extracampo, a competitividade do atleta, entre outros aspectos.

Penso que alguns aspectos estão intrínsecos no processo como o quartil de nascimento, pois a seleção é feita com jogadores detectados pelos clubes.

Mas, para mais informações sobre esse trabalho, o Bruno Costa e o Caio Zanardi podem responder com mais propriedade sobre o assunto na categoria sub-17.

As informações táticas são fundamentais e devem começar desde a iniciação. Os garotos nas primeiras idades precisam dos mais simples conceitos de jogo, como por exemplo, 1 contra 1, fechar o gol, fechar o buraco, conduzir ou passar, etc, aponta

Universidade do Futebol – O modelo de jogo das categorias de base da seleção é o mesmo para o sub-15, sub-17 e sub-20? Existe alguma preocupação neste sentido, ou cada treinador determina o modelo que pretende jogar?

Eduardo Oliveira – A concepção do Modelo de Jogo é a mesma em todas as categorias de base da seleção. Mas, que é diferente de Modelo de Jogo adotado. Correto?

A ideia central é a mesma, o perfil dos jogadores pretendidos é o mesmo, o futebol que quer a posse de bola e o controle do jogo faz parte da nossa concepção, mas os jogadores não são os mesmos. Portanto, o Modelo de Jogo não vai ser o mesmo.

Existe uma preocupação sim em ter um padrão de jogo, mas é uma ideia que se adapta às características dos nossos jogadores em cada categoria. Ela é flexível, mas com conceitos e ideias fixos.

Segundo Oliveira, o treinador de futebol não deve entender somente de aspectos táticos, mas também de relações humanas, e de conceitos de psicologia para criar dinâmicas para potencializar os perfis de liderança nos jovens jogadores

Universidade do Futebol – O que é um jogador de futebol inteligente para você?

Eduardo Oliveira – Um jogador inteligente é aquele que é capaz de resolver as situações problema, seja 1 contra 2, 1 contra 1, 2 contra 1, passar ou driblar, acelerar ou desacelerar, que o caos do jogo impõe.

No meu modo de ver o futebol, o jogador inteligente deve agir no momento certo, com uma tomada de decisão correta para aquele momento específico.

Para essa resposta, cito Rodrigo Leitão: “No jogo de futebol, a infinidade de circunstâncias e relações que se estabelecem com campo, bola, companheiros, adversários, regras de ação, princípios, estratégias e lógica, compõem um rico ambiente onde ser "mais inteligente" significará vencer”.

Universidade do Futebol – Como detectar aspectos de liderança em jovens? Você procura executar exercícios específicos para potencializar essa capacidade em determinados atletas? Como você trabalha essa questão?

Eduardo Oliveira – Existem protocolos para facilitar essa detecção de liderança que podem ajudar. Assim como perceber, entender como esses jovens se relacionam dentro do grupo de jogadores, dentro do seu ambiente.

A liderança no futebol pode ser de várias maneiras. Pode ser técnica, pode ser tática, ou cognitiva, com um jogador com bom entendimento de jogo e leitura do ambiente, pode ser comportamental, através da postura como o mesmo se coloca perante as situações e o grupo. Enfim, podemos detectar liderança de diversas maneiras, mas o mais adequado é ter um profissional da psicologia para nos auxiliar nesse processo.

Seguindo o cenário ideal, acredito que o profissional de psicologia deve ser o responsável nesse processo para maximizar possíveis lideranças, sempre em parceria com a equipe técnica.

Mesmo assim, o treinador de futebol não deve entender somente de aspectos táticos, mas também de relações humanas, e de conceitos de psicologia para criar dinâmicas para potencializar esses perfis de liderança, em um caso de ausência do profissional da área ou mesmo com a presença de um psicólogo.

A formação no Brasil ainda está muito restrita aos campos, ainda é muito analítica, e para caminhar é preciso entender o processo de formação de uma maneira sistêmica dentro e fora de campo, aponta o auxiliar da seleção e do Novorizontino

Universidade do Futebol – A grande maioria dos jogadores da base não chegará ao futebol profissional por "N" motivos. Como prepará-los para que esta frustração não atrapalhe a formação do cidadão? Existe alguma preocupação sua neste sentido?

Eduardo Oliveira – Vou inverter a ordem das perguntas na resposta, ok? Em relação ao segundo questionamento, existe sim uma preocupação neste sentido, acredito na formação integral do ser humano.

Agora, sobre como prepará-los, acredito que o clube tem que ser responsabilizado por essa formação integral. Estive fazendo estágio na Holanda, mas especificamente no Ajax, e fiquei impressionado com o suporte que os garotos recebem a nível educacional.

Lá, o clube que forma um jogador de maneira integral, através da educação, formará um cidadão que será um jogador de futebol melhor, mais autônomo, com maior responsabilidade dentro e fora de campo, enfim com tudo que a educação proporciona em parceria com o esporte.

A formação no Brasil ainda está muito restrita aos campos, ainda é muito analítica, e para caminhar é preciso entender o processo de formação de uma maneira sistêmica dentro e fora de campo.

Devemos reverenciar, sim, tudo o que foi feito, mas compreender melhor o porquê de tantas vitórias e ouvir um pouco mais o que fazem as outras referências, como Espanha, Alemanha, Portugal, Holanda, e adequar o processo à nossa cultura de futebolística riquíssima, completa Oliveira

Universidade do Futebol – Em sua opinião, qual o maior problema e a maior virtude do futebol brasileiro hoje em dia?

Eduardo Oliveira – Acredito que o Brasil, como todos os grandes centros de futebol do mundo, passa ou passaram por ciclos bons e outros difíceis e a quebra de paradigmas em histórias vitoriosas como a do nosso país é mais lenta.

Nossa maior virtude é o nosso passado rico, cheio de glórias, que não devem ser esquecidas, nossos grandes jogadores, como Leônidas, Pelé, Zico, Romário, Ronaldo, Neymar, grandes treinadores como Zagallo, mestre Telê, professor Parreira, Tite, que contribuíram muito cada qual com suas ideias, entre outros pontos fortes.

E o nosso maior problema é acreditar que essa história magnífica bastará, é desprezar a evolução, evolução que esses nomes ajudaram a promover do futebol e a troca de informações com outras escolas de formação. Cito aqui o exemplo do ex-jogador espanhol Guardiola que viajava para Argentina para ouvir outras opiniões durante a sua formação como treinador.

Ninguém está revolucionando o futebol, mas as metodologias de treino foram melhorando, os garotos que antes chegavam com dez mil horas de prática deliberada, futebol de rua, nos clubes, hoje chegam de escolinhas com menos tempo de vivência, com outro perfil e isso requer adequações nos métodos de treinamento.

Devemos, no meu modo de entender, reverenciar sim, tudo o que foi feito, mas compreender melhor o porquê de tantas vitórias e ouvir um pouco mais o que fazem as outras referências, como Espanha, Alemanha, Portugal, Holanda, e adequar o processo à nossa cultura de futebolística riquíssima.

A Alemanha viveu um momento parecido, de reflexão no fim dos anos 90, na eliminação para Croácia em 1998 na Copa e eliminação na primeira fase da Eurocopa de 2000, e passou por uma reconstrução e uma evolução. E hoje, voltou a ser uma referência. O Brasil é uma referência, mas deve continuar essa busca interminável pela excelência.

 

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Especial: a importância da formação do treinador de futebol – parte final                                 Clwyd Jones, professor da escola de técnicos da Inglaterra                                                     Marcelo Martins, preparador físico do Bayern de Munique 
Francisco Navarro Primo, treinador da base do Valencia  
Pedro Boesel, gestor financeiro
Emily Lima, treinadora da seleção brasileira sub-17
João Burse, técnico do Mogi Mirim sub-20
Mariano Moreno, diretor da escola de técnicos da Espanha
Núcleo de Futebol da Faculdade de Motricidade Humana 
Baltemar Brito, ex-auxiliar de José Mourinho
Kemal Alispahic, treinador da seleção do Tadjiquistao
Maurice Steijn, treinador do ADO Den Haag
Hidde Van Boven, treinador do sub-13 do VV De Meern
Wim van Zeist, instrutor técnico do De Graafschap
Reinier Robbemond, treinador da equipe sub-13 do AZ Alkmaar
Jefta Bresser, ex-treinador da academia de jovens do PSV Eindhoven
Ron Jans, treinador do SC Heerenveen
Aleksandar Rogic, assistente técnico da seleção principal de Gana
João Aroso, treinador adjunto da seleção portuguesa de futebol

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