Eduardo Pimenta, fisiologista do Cruzeiro

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A folgada liderança do Cruzeiro no atual Campeonato Brasileiro não tem sido fruto somente das boas jogadas de Éverton Ribeiro nem dos gols do centroavante Borges.

A participação do fisiologista Eduardo Pimenta no clube mineiro também tem contribuído para que o time não tenha desfalques por contusão e mantenha o desempenho coletivo mesmo com o rodízio tático.

Graduado em Educação Física em 1998, além de mestrado e doutorado na Espanha, ele introduziu desde a última pré-temporada do Cruzeiro a utilização de duas tecnologias que tem ajudado na prevenção de lesões musculares e no melhor rendimento dos jogadores.

O primeiro procedimento foi a análise dos jogadores por meio de um mapeamento genético, para detalhar o perfil biológico de cada um e, assim, elaborar exercícios específicos durante a temporada. O outro é a termografia, técnica que detecta, por meio do calor do corpo, quais regiões estão mais propensas a sofrer contusões.

"Já notamos até uma redução de lesões no nosso elenco. Setembro é considerado o mês negro para o futebol brasileiro, é o período com o maior número de lesões. Mas, no Cruzeiro, tivemos apenas uma contusão, a do Júlio Baptista, que veio do futebol europeu", aponta Eduardo Pimenta, em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

Para ele, no entanto, tanto trabalho e estudo servem apenas para amenizar os prejuízos que o atual modelo do calendário faz no futebol brasileiro. O fisiologista diz acreditar que o ideal seria a adequação ao calendário europeu, além dos 30 dias de pré-temporada e outros 30 de férias.

"Falar de pré-temporada não é falar somente de parte física. Neste período, há também uma reorganização das ideias de jogo, dispensas, contratações, enfim. É uma retomada de ajuste tático, técnico e não só físico. Porque é a época que toda a comissão técnica faz o planejamento para o ano todo", avalia.

"Então, com este cenário, ou os clubes contratam um mega elenco ou se faz um rodízio tático", completa.

Nesta entrevista, concedida diretamente de Belo Horizonte, Eduardo Pimenta ainda falou sobre os benefícios do descanso e da boa alimentação na longevidade do jogador e por que não recomenda a utilização da crioterapia nos trabalhos de recuperação pós-jogo. Confira a íntegra:

 

Universidade do Futebol – Em sua opinião, qual o tempo ideal para uma pré-temporada? Explique, por favor.

Eduardo Pimenta – Na verdade, para a realização de um bom espetáculo, todas as esferas do atleta têm de estar bem treinadas. E o elemento físico é fundamental. Para essa questão, vejo que deva ser como ocorre na Europa, 30 dias de férias e outros 30 dias de pré-temporada. Eu sempre defendi esse tempo de preparação.

Um calendário denso, com uma concentração de jogos, gera um prejuízo enorme aos atletas. Há muito mais lesões neste cenário. O tempo de recuperação entre um jogo e outro é inviável. Além disso, onera os cofres dos clubes, que têm, cada vez mais, contar com elencos maiores para suprir as lesões de quem joga com mais frequência.

Inclusive, sou a favor das férias no futebol brasileiro acontecerem no meio do ano. Traria benefícios não só físicos, mas, também em aspectos como as janelas de transferências, pois o calendário europeu não teria tanta influencia no nosso como exerce atualmente. É preciso repensar.

E, outra coisa: falar de pré-temporada não é falar somente de parte física. Neste período, há também uma reorganização das ideias de jogo, dispensas, contratações, enfim. É uma retomada de ajuste tático, técnico e não só físico. Porque é a época que toda a comissão técnica faz o planejamento para o ano todo.

Ao lado do jogador Tinga, fisiologista Eduardo Pimenta (à dir.) posa durante testes físicos no Cruzeiro; fisiologista afirma que foco são descanso e boa alimentação

Universidade do Futebol – Com mais jogos disputados em um curto período, é comum que os atletas voltem a campo sem as condições físicas ideias. Como encontrar este equilíbrio?

Eduardo Pimenta – No Campeonato Mineiro, por exemplo, há três anos que temos 28 dias de pré-temporada. Neste ano, tivemos o exemplo do Atlético-PR, que disputou o Campeonato Estadual com uma equipe formada por jovens jogadores e agora tem tido uma performance acima da média dos clubes que estão na Série A. Então, são alternativas para você ter menos atletas machucados durante a temporada.

Um calendário ruim influencia até na longevidade esportiva do jogador profissional. Ele não suporta esse ritmo. Vemos com frequência os jogadores que vêm da Europa sempre com muitas dificuldades de recuperação. Na Espanha, por exemplo, a federação proíbe que se disputem três semanas seguidas com dois jogos cada uma. No máximo, só pode duas. Então, esse tipo de iniciativa contribui com a saúde do jogador e com o espetáculo.

Mas, respondendo à sua pergunta, ou os clubes contratam um mega elenco ou se faz um rodízio tático. Volantes e laterais sempre são as posições com mais desgaste físico. Então, se algum deles já começa a apresentar índices de desgaste aumentando, vai para o descanso, o Marcelo [Oliveira, técnico do Cruzeiro] poupa do jogo. Com isso, o benefício é tático e não físico. O fato de a gente tirar o jogador de um jogo só não tem grandes problemas.

Para se ter uma ideia, até agora, apenas uma vez tiramos dois atletas ao mesmo tempo de uma partida. Se pegarmos o jogo que enfrentamos o Botafogo, por exemplo, que era um confronto direto na tabela, todos os atletas correram acima de 10 quilômetros. Todos. Então, se não fizermos isso, não tem como chegar neste equilíbrio.

A manipulação dos jogos reduzidos deve ser muito bem pensada, pois o foco são os elementos técnicos e táticos, mas o componente essencial é o cognitivo na realidade do jogo, explica Pimenta

Universidade do Futebol – A monitoração d
os trabalhos no futebol deve considerar o tipo de exercício intermitente, no qual períodos curtos de alta intensidade são entremeados com períodos mais longos de recuperação ativa ou passiva. Como você faz o trabalho de carga e o direcionamento do treino?

Eduardo Pimenta – No segundo semestre, não estamos treinando praticamente. O calendário não permite treinar. Então, damos suplementação com proteínas. Mas, quando fazemos jogos reduzidos, por exemplo, alguns jogadores não fazem todo o treino.

A capacidade física treinada é a mesma, o que muda é o método. Pensamos, antes de tudo, na individualidade biológica. Na individualização do treinamento. E aonde eu busco as respostas de cada individualidade? No DNA, na genética. Essas diferenças de cada indivíduo têm sido estudadas cada vez mais.

Atualmente, no Cruzeiro, fazemos um mapeamento genético de todos os atletas para entender melhor cada um. Mas, veja, isso não é utilizado para motivo de corte ou dispensa. É apenas para compreender melhor cada um, entender porque alguns têm uma curva de adaptação mais rápida do que outros.

Existe atleta, por exemplo, que joga no domingo e fica recuperando até quarta, não treina nem na terça. E daí joga normalmente. Estamos, hoje em dia, avaliando 12 tipos de genes que têm influência neste processo. No próximo ano, queremos avaliar 25 genes que têm relação com isso. E, com isso, já conhecemos os atletas que suportam mais cargas do que outros.

Já notamos até uma redução de lesões no nosso elenco. Setembro é considerado o mês negro para o futebol brasileiro, é o período com o maior número de lesões. Mas, no Cruzeiro, tivemos apenas uma contusão, a do Júlio Baptista, que veio do futebol europeu. Teremos, em breve, uma maratona de sete jogos no Campeonato Brasileiro em 22 dias. Porém, com três dias, eu não consigo recuperar 100% a parte muscular. Sempre vai haver um débito.

Mesmo quando são aplicados os coletivos, a gente tira o atleta menos recuperado antes do treino acabar. E o legal é que o Marcelo [Oliveira, técnico] aceitou prontamente esse método. Então, temos um olhar diferente para isso. Investimos na recuperação.

Utilizamos de cinco a seis marcadores para fazer esse acompanhamento. Desde o CK [creatinofosfoquinase], marcadores hormonais, GPS, até a termografia [técnica que mede a inflamação muscular]. Mas, é bom afirmar: um gene só não vai definir a capacidade atlética de cada um. A genética é uma interação poligênica. Estamos estudando para evoluir cada vez mais.

Fisiologista introduziu no clube mineiro a termografia, técnica que detecta, por meio do calor do corpo, quais regiões estão mais propensas a sofrer contusões

Universidade do Futebol – Em alguns estudos científicos foi constatado que os pequenos jogos podem ser usados de uma forma efetiva de treinamento de resistência para jogadores de futebol. Esse tipo de atividade em campo reduzido é implementada pela comissão técnica no Cruzeiro?

Eduardo Pimenta – É sim. Atualmente, tem um pesquisador francês, que foi até consultor da Costa do Marfim na Copa do Mundo, que fala muito sobre isso, dos pequenos jogos usados como um meio de se treinar resistência. São jogos de 2×2, 3×3, 4×4, são muitas variações. Lá no Cruzeiro, nós utilizamos este tipo de atividade há um bom tempo.

Com ela, você não obtém somente respostas técnicas, mas adaptações físicas também. O número de jogadores, as regras pré-estabelecidas, o tamanho do campo, tudo influencia no processo. Por isso, a manipulação desses elementos deve ser muito bem pensada, pois o foco são os elementos técnicos e táticos, mas o componente essencial é o cognitivo na realidade do jogo. Eu defendo esse método.

Já notamos uma redução de lesões no nosso elenco. Setembro é considerado o mês negro para o futebol brasileiro, é o período com o maior número de lesões. Mas, no Cruzeiro, tivemos apenas uma contusão, revela

Universidade do Futebol – Como o departamento de fisiologia do Cruzeiro trabalha quando recebe algum atleta que está com algum déficit físico, seja de quaisquer valências?

Eduardo Pimenta – Nós temos vários tipos de avaliações. Já temos um protocolo para jogadores que retornam de empréstimo, por exemplo. E, eles são submetidos a este protocolo toda vez que isso acontece.

Mas, são parâmetros de valores médios. Porque é difícil o jogador profissional que atua regularmente acumular algum déficit físico de grande valor.

O jogador profissional que consegue, em média, atuar por oito anos sem ficar muito tempo parado, por exemplo, tem a manutenção dessas valências físicas sem nenhum problema.

Mesmo quando são aplicados os coletivos, a gente tira o atleta menos recuperado antes do treino acabar. E o legal é que o Marcelo [Oliveira, técnico] aceitou prontamente esse método. Então, temos um olhar diferente para isso, aponta o fisiologista

Universidade do Futebol – No pós-jogo ou treino, você utiliza a técnica da crioterapia com os atletas ou crê que a imersão em água gelada possui benefícios apenas subjetivos?

Eduardo Pimenta – Eu sou contrário ao continuísmo. Eu sou da Ciência. E, por ter essa formação, não vejo com bons olhos a utilização desta técnica. Ela é utilizada para a inflamação muscular, mas ela é uma resposta biológica. O que eu questiono é que nenhum dos artigos científicos que falam da crioterapia é conclusivo.

Este método até diminui a percepção de dor, mas o gelo não vai aumentar ou minimizar a contusão, não vai agir diretamente na lesão. Então pergunto: por que não utilizar então um anti-inflamatório? A crioterapia não dá para fazer de oito em oito horas. Porém, alguns profissionais das áreas médicas dos clubes não gostam desta alternativa.

Mas, no Cruzeiro, eu deixo a decisão deles livre, os jogadores que escolhem se querem fazer ou não. Alguns optam, outros não. S&ati
lde;o de oito a doze minutos, com temperatura entre oito e 10 graus centígrados. Eles [jogadores] relatam que a crio traz uma melhora no bem-estar. Inclusive, fazemos também no pré-jogo. No entanto, há estudos que mostram que a crioterapia reduz a eficácia nos resultados de saltos. Então, eu não defendo [o método].

O que nós acreditamos e investimos muito é em descanso e boa alimentação. O sono é um dos grandes meios para a recuperação pós-jogo. Este momento é quando ocorre o maior pico de liberação do GH, o hormônio do crescimento, que traz mais efeito.

A recuperação é tão importante quanto o treino. E o fisiologista deve focar cada vez mais nas respostas individuais dos atletas. É uma função fundamental e que veio para ficar, afirma

Universidade do Futebol – Além disso, a crioterapia ainda sofre rejeição por boa parte de atletas, além da dificuldade da logística para realizar esta técnica em estádios distantes. Por isso, já há alguns profissionais realizando outros trabalhos para a recuperação no pós-jogo ou treino, como a eletroestimulação neuromuscular. Como você vê esses outros métodos?

Eduardo Pimenta – Eu tenho buscado ler muito sobre a recuperação de atletas. Já vi métodos com meias de compreensão, leds, com luzes vermelhas, tudo para acelerar o processo de recuperação. Mas, nós, do Cruzeiro, investimos muito nos fatores descanso e alimentação. A recuperação começa até mesmo antes do jogo.

Porque, em geral, os clubes não conseguem controlar isso nos jogadores. Porém, temos muita preocupação com estes aspectos e até outros, como a logística. Já teve jogo que, após a partida, ficamos na cidade para comer e dormir e viajamos somente depois. O nosso foco é sempre na nutrição e no descanso.

A microcorrente, utilizada neste método que você citou, é interessante. Mas, corresponde somente a 2%, em média, de toda a recuperação pós-jogo. Tem uma participação bem pequena no processo.

O core trainning é fantástico. Aplicamos praticamente duas vezes por semana o core com treinamento funcional na musculação, explica

Universidade do Futebol – Hoje em dia, em vários clubes, tem se utilizado muito o trabalho de core training para a prevenção de lesões. Esta técnica realmente é eficaz para este objetivo? Quais são os pontos principais que ela pode ajudar o atleta a se lesionar menos?

Eduardo Pimenta – Esta técnica é fantástica. É um método que começou a ser estudado em 2006 e vem se desenvolvendo rapidamente ao longo dos anos. O fortalecimento do núcleo é fundamental na prevenção de lesões.

O core fortalecido ajuda a prevenir demais as lesões nos membros inferiores, pois se um lado do jogador estiver descompassado, pode ocasionar vários problemas, como pubalgia, tendinites, enfim. Então, o equilíbrio é muito importante. Aplicamos praticamente duas vezes por semana o core com treinamento funcional na musculação.

Para se ter uma ideia, até agora, apenas uma vez poupamos dois atletas ao mesmo tempo de uma partida, lembra Eduardo Pimenta

Universidade do Futebol – Atualmente, relaciona-se muito o trabalho de um fisiologista no futebol à extração do CK (creatinofosfoquinase). Tem-se a ideia de que este profissional serve apenas para este tipo de análise sanguínea. Mas, para você, qual é o papel do fisiologista moderno?

Eduardo Pimenta – No início, a fisiologia no futebol era muito atrelada aos testes físicos. Mas, era outro calendário também. Mas, acredito que as questões de recuperação e distribuição de carga ganharam uma importância maior nos últimos anos. Fatores como a densidade nos treinos atuais precisam ser bem avaliados.

Hoje em dia, a preparação física tem tornado o atleta mais forte e mais rápido. E a fisiologia dá o suporte nesse momento do treinamento, que é a recuperação, tão importante quanto o treino. O fisiologista deve focar cada vez mais nas respostas individuais dos atletas. É uma função fundamental e que veio para ficar.

 

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