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23/07/2009

Emoções intensas no futebol agravam problemas cardíacos dos torcedores

Invariavelmente, futebol denota paixão. E paixão é um sentimento que transita entre uma emoção muito positiva, superando às vezes a razão, e a dor de uma perda, quando não se é atendido por um par. Por conta de toda essa esfera recheada de reações explosivas, adrenalina, gritos e tensão corporal, a saúde do aficionado pode ser afetada.
 
De acordo com um estudo recentemente publicado na revista do American College of Cardiology, o coração do torcedor fica mais sensível nos dias em que o resultado do jogo não lhe é favorável. O paralelo utilizado como base pelos especialistas foi o funcionamento cardíaco de seguidores de futebol americano, esporte que, especialmente nos Estados Unidos, pelo enraizamento cultural local, desperta sensação parecida.
 
“O tabagismo e a falta de exercícios físicos fragilizam o coração. Mas o estresse também favorece ataques cardíacos, principalmente nas pessoas que já apresentam casos da doença na família”, aponta Denise Hachul, doutora em Cardiologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e médica coordenadora da Unidade de Síncope do Instituto do Coração (HC-FMUSP) e do Centro de Arritmia do Hospital Albert Einstein.
 
Com um componente de estresse muito presente, seja in loco, nas praças esportivas, ou mesmo para quem acompanha por intermédio de um aparato transmissivo, como rádio, TV ou internet, o futebol promovo no organismo das pessoas a liberação de uma série de substâncias na corrente sanguínea, dentre as quais cortisol e a própria adrenalina.
 
Tal ocorrência, em situações esporádicas, não chega a conferir tantos danos. Mas o mecanismo repetitivo, naqueles que se excedem e veem determinado jogo como algo máximo, uma descarga favorece o acúmulo de placas de gordura, tornando um infarto algo que passa do âmbito hipotético e vira iminente.
 
“Quando a emoção atinge níveis mais intensos, o coração pode acelerar demais os batimentos e não suportar a carga de trabalho”, completa Hachul, que orienta pessoas apresentando formigamento no braço, taquicardia, músculos enrijecidos, boca seca, mãos e pés frios uma procura imediata a um médico, mesmo que não apresente comprovação de obesidade ou colesterol alto.
 
Ainda de acordo com a pesquisa norte-americana, as mortes por ataques cardíacos crescem em uma cidade quando a equipe esportiva local obtém classificação para disputar a final de um campeonato – naquele caso, o Super Bowl, um dos principais eventos do mundo esportivo.
 
Ataques cardíacos e problemas de circulação estão entre os problemas mais comuns nos pacientes/torcedores em dias de emoções intensas no esporte. E a maneira de reduzir o risco seria assistir apenas aos duelos em que se tem certeza do triunfo da própria equipe – algo praticamente impossível, mas aventado por Frédéric Berthier.
 
O médico e pesquisador francês, com sua equipe, estudou os índices de mortes por ataques cardíacos na França, durante o período em que a seleção nacional bateu o Brasil na decisão da Copa do Mundo de 1998. Nos cinco dias anteriores e posteriores à partida decisiva, a média diária de mortes provocadas por ataques cardíacos entre os homens foi de 33 – no dia da final, no entanto, o número caiu para 23 (os franceses venceram com aparente tranquilidade, 3 a 0, conquistando o título mundial).
 
Os pesquisadores haviam observado também que o número de ataques cardíacos na Inglaterra aumentou em 25% quando a Argentina derrotou a seleção inglesa, nos pênaltis, nas oitavas-de-final da competição daquele ano.
 
O fenômeno observado pode ser o resultado de uma combinação dos baixos níveis de atividade física registrados quando uma pessoa está assistindo televisão com a euforia de uma vitória, o que provocaria uma redução nos níveis de estresse.
 
Berlinda Linden, médica da Fundação Britânica para o Coração, entretanto, alerta quanto às possíveis interpretações precipitadas que tais análises científicas pontuais podem gerar.
 
“Embora eu esteja certa de que muitas pessoas ficariam satisfeitas em ouvir que uma vitória da seleção poderia reduzir os riscos de um ataque cardíaco, isso não é tão simples”, avalia Linden.
 
“O desenvolvimento de camadas de gordura dentro das artérias coronárias, que provoca doenças cardíacas, é normalmente o resultado de muitos anos e de um estilo de vida marcado por diversas características, incluindo uma dieta pobre, o hábito de fumar e a falta de atividades físicas”, completa a médica, apontando para um número: em cerca de 70% dos casos, as pessoas sofrem um ataque cardíaco quando estão descansando.

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