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20/08/2019

Empresa-Clube

A coluna desta semana é uma reflexão sobre o clube-empresa e suas implicações para o marketing do futebol

Na onda do início de temporada do futebol europeu profissional, por ligação pessoal e afetiva este colunista acompanha a principal liga portuguesa. No fim de semana que passou, jogaram a Sociedade Anônima Desportiva (SAD) Belenenses contra o Sport Lisboa e Benfica. E equipe azul era a mandante, não tinha a Cruz de Cristo – tradicional de Belém – ao peito e tampouco jogava no Estádio do Restelo. Era estranho chamá-la de Belenenses. Por uma cisão do clube social com a SAD – a empresa – há quase dois anos, o clube – o tradicional, histórico, centenário neste ano – “Os Belenenses” refez o seu plantel mas teve que recomeçar. Voltou para a última divisão. Quem detém a vaga no primeiro escalão é a Sociedade Anônima. Este é o imbróglio.

Bom, a torcida dos azuis de Belém, aderiu ao clube, sem dúvida alguma. Não aderiu à empresa, a SAD. O Benfica jogou no último sábado como se fosse “local”. Pelo Brasil, o Figueirense aderiu ao conceito de clube-empresa e atualmente passa por alguns problemas. Existem vários que optaram por este caminho (de clube-empresa) e alguns têm sido bem sucedidos. Mais recentemente, o Red Bull Brasil se mudou para Bragança Paulista e juntou-se ao Bragantino. Nos bastidores da política, articula-se a regulamentação da modalidade clube-empresa, a fim de organizar a atuação e envolvimento das partes interessadas, atrair mais capital privado e estrangeiro.

Nada contra o conceito de clube-empresa. Ele é muito bem-vindo! A regulamentação sugere colocar limites a fim de manter a saúde financeira e criar sustentabilidade para uma organização esportiva, a fim de proporcionar boas condições para os seus colaboradores, melhores condições de trabalho para o atleta e, com isso, garantir ao torcedor um calendário adequado, com preços acessíveis em um recinto esportivo que otimiza a relação custo-benefício.

Em uma análise, como diz o Professor Luiz Haas (Doutorando em Gestão do Esporte pela Universidade de Lisboa), é preciso refletir sobre as tentativas de mudar os clubes associativos para empresas. Os debates ficam sempre nos pontos fortes, como se eles fossem resolver todos os problemas. Ao mesmo tempo, existem pontos fracos que precisam ser avaliados, como os exemplos português e catarinense. É preciso levar em consideração o ponto de vista do torcedor: o quanto a figura de um dono ou grupo de investidores e consequentemente a falta de diálogo podem afastar a massa associativa e toda uma orientação simbólica que um clube carrega. Em um outro extremo, a proposta recente do Botafogo de Futebol e Regatas, com os irmãos Moreira Salles, mostrou-se diferente.

Com a venda do Manchester United FC (alcunha de “Red Devils” – Diabos Vermelhos) para o empresário norte-americano Malcolm Glazer, torcedores do clube contrários à venda fundaram um outro, o United of Manchester (alcunha “Red Rebels” – Rebeldes Vermelhos). (Foto: Reprodução/Divulgação)

 

Portanto, o investimento privado incentivado pelo conceito e prática de um clube-empresa, pode levar o futebol do Brasil para um outro patamar, uma vez que será capaz de desencadear maior profissionalismo, comunicação e transparência, afinal os gastos terão que ser justificados, serão estabelecidas metas e resultados serão cobrados não apenas em campo. O jogo ficará mais interessante e isso para o marketing, é muito bom. O que não é muito bom é o conceito de empresa estar acima do de clube – que arrisco-me a denominar de “Empresa-Clube”, como foi o observado na liga de Portugal pela televisão, empresa (SAD) que acabou por afastar elemento principal do esporte: o torcedor, que preferiu – obviamente  – o clube.

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Em tempo mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

“Nenhuma emissora de televisão parece se importar com os torcedores, os seguidores de um time. Mas sem o barulho e a cantoria dos torcedores, o futebol não seria nada. Futebol se trata de paixão. Sempre será sobre paixão. Sem paixão, o futebol está morto. Sem os torcedores, o futebol seria apenas 22 homens correndo atrás de uma bola. Uma merda, em outras palavras. São os torcedores que tornam o futebol importante”.

Faixa da “Curva Nord”,
Torcida da Internazionale, de Milão,
em referência a passagem do livro ‘The Football Factory’, de John King

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