Universidade do Futebol

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26/07/2019

Encontramos a intensidade – e o jogo?

Cada país, uma cultura de jogo!

O futebol brasileiro está intenso — isso é inegável! Aliás, o mundo está procurando e encontrando maior intensidade de jogo no futebol indiferentemente à cultura de jogo em que estão sendo construídos.

No Brasil, o jogo está intenso além da conta e com traços de desorganização tática muito claros. Simplesmente porque tem de ser vertical a qualquer custo.

Além disso, ao contrário do que o senso comum diz, o nosso jogo não perdeu a individualidade! Continua com alguma organização de posicionamento que os sistemas táticos impõem, mas os jogadores ainda demoram com a bola nos pés mais tempo que o necessário. Na soma das duas características, jogo individual e intenso, temos “brigas individualizadas” em todos os setores do campo e/ou situações de jogo e em ritmos alucinantes.

Assistindo a jogos do futebol brasileiro é fácil ver o alto nível de competitividade em que são disputados. Constatamos a intensidade do jogo, ainda com mais segurança quando são usadas as ferramentas científicas modernas de análise de rendimento esportivo.

Hoje um jogador brasileiro percorre entre oito e catorze quilômetros em noventa minutos de jogo, com 30, 40 ou 50 estímulos de corridas acima de 20 Km/h. Algo impensado em poucas décadas atrás.

Isto não corresponde a resultados imediatos na qualidade do jogo, muito menos dá garantia de vitórias. Como dizia Cruyff:

“Futebol se joga com a cabeça, as pernas estão ali para ajudar.”

Essa, dentre várias ideias do gênio holandês, vale até hoje. Correr muito e intensamente não é sinônimo de bom jogo.

O Professor Victor Frade, “pai da periodização tática”, se irrita quando querem traduzir o jogo moderno com ênfase na intensidade:

“Intensidade, o quê vale isto se não se tem jogo?”

Foi mais ou menos o que disse quando indagado sobre o tema.

O jogo brasileiro ficou mais intenso, visto a olhos nus e também cientificamente, mas continua entregue às individualidades.

Não há sincronia entre “o balé do jogo” e os benefícios do desenvolvimento físico individual e coletivo que o treinamento moderno trouxe a todos os esportes, inclusive o futebol.

Estamos correndo “pra lá e pra cá”, sem conceitos táticos que balizam um jogo inteligente porque é isso que queremos.

– Queremos?!

– Quem tá querendo isso?

– Todos nós!

– Que jogo lindo! Emocionante! Movimentado! Lá e cá!…

É o que costumamos ouvir quando assistimos esse “jogo intenso e ou de correria”!

O que há de conceituação tática nestes jogos? Difícil detectar.

Não há como conceituar taticamente um jogo tão intenso. Não dá tempo. O campo fica, naturalmente, maior com o “lá e cá” que a intensidade desordenada provoca.

Tudo bem! Estamos inventando um outro jogo e parece que estamos gostando disso! Então vamos passar a tratar “este outro esporte” com as diferenças de análises que ele requererá.

Nesta reflexão não estou maldizendo à intensidade, muito menos às emoções. Quero apenas reivindicar comparações a grandes equipes do cenário mundial que estão conseguindo organização tática com intensidade de jogo.

Alguns treinadores brasileiros têm tentado buscar esse caminho na construção do jogo de suas equipes, mas o entorno do nosso trabalho é muito cruel. Quando nossas equipes trocam lateralmente dois ou três passes, ou voltam a bola pra um zagueiro ou goleiro com o intuito de organizar uma nova “rota ofensiva” para o jogo, sofrem vaias de todos os lados e o que se segue a isso a gente já conhece.

Tudo em prol da individualidade, da verticalidade e intensidade do jogo. E o que não podemos negar é que o desequilíbrio individual que conclamamos a retornar ao nosso jogo só cabe para jogadores velozes: correria pura.

Não adianta cobrarmos da base brasileira que formem jogadores mais técnicos e dribladores sendo que o que exigimos para os adultos é “correria”.

O Tite tem tentado e com algum sucesso transmitir algo de jogo organizado à Seleção Brasileira, com bons níveis de intensidade concatenados taticamente a uma ideia de jogo segura, inteligente e ofensiva.

Como é lindo ver que os brasileiros conseguem fazer isso. A Seleção, um time só de brasileiros, comandada por brasileiros, jogando o jogo moderno, com intensidade, ofensividade, arte e vitórias.

Ah! E sem o Neymar! Quando ele estiver, então?!?!

Quanta crítica sofreu o jogo do Tite no início da Copa América por não ser intenso e/ou vertical.

Organizar o jogo, não significa abdicar da intensidade. Quando os conceitos táticos funcionam harmoniosamente dão novos e mais competentes enredos ao jogo. A intensidade de jogo é mais um componente tático que só tem valor no contexto de uma ideia tática de jogo. Ser somente intenso, não é jogo.

Que jogo complexo é o futebol! Quanta polêmica pode gerar um texto desse! Mesmo assim, e como sempre, continuo querendo ver organização de jogo com intensidade para as equipes brasileiras. Pelo menos é assim e sempre será nas equipes em que trabalho.

Pra mim, “campo grande”, correria, correr pra frente e não correr pra trás, trocas indiscriminadas de posicionamento em campo, dentre outros componentes anárquicos do jogo, não deveriam fazer parte do futebol que pode ser organizado taticamente, inteligente, ofensivo, bonito e vencedor!

Acreditando nisso, então é só fazer!

Mas não é fácil estar na pele dos treinadores brasileiros nas circunstâncias que a nossa cultura oferece!

Palavras que cabem mesmo pra uma outra grande reflexão!

Até uma próxima!

 

 

Comentários

  1. ANDERSON disse:

    boa tarde caro Ricardo, não posso de deixar de comentar este excelente texto acima, o futebol brasileiro precisa voltar a suas origens! onde o drible, técnica, ginga e capacidade de tomada de decisões eram as principais virtudes dos atletas e não a altura, condicionamento físico e obediência tática pregadas nas categorias de base e profissional que vem sendo realizadas no dias de hoje. Um futebol mecânico, como se os atletas fossem robôs programados durante o treinamento da semana para que no dia do jogo realize tal como foi treinado ! algo imposto pela comissão técnica, porém durante qualquer momento da partida que o mesmo precisar tomar uma decisão não saberá fazer pois está condicionado a realizar apenas o que lhe foi programado, a capacidade do jogador brasileiro de vencer as adversidades de uma partida. Futebol é muito mais que intensidade, é dribles, gingas, chutes de longa distância, gols de bolas paradas, trivelas, gols olímpicos, bicicletas, voleios, lançamentos precisos ou triangulações, não se deve ter algo programado fixo, tática deve existir, mas mais importante que números (4-4-2,4-3-3), é a alegrias nas pernas, é o momento mágico, o prazer de jogar o futebol como paixão e não como obrigação pelo resultado.

  2. Ricardo Bevilacqua disse:

    O futebol brasileiro insiste em ignorar a filosofia de jogo, em nome de uma fórmula fixa de atuação e decisão. Isso porque o futebol brasileiro ficou dependente da venda de atletas. Portanto, basta preparar fisicamente o jogador que, o fator inteligência se desenvolve no velho mundo. Há uma série de instrumentos financeiros que permitem que os clubes se protejam e se preparem para flutuações, mas no Brasil, a ambição é por dinheiro rápido e muito lucro… Quem precisa de futebol consciente assim?

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