Universidade do Futebol

Artigos

17/09/2009

Entrevista: Arsène Wenger – quarta parte

Andrey Arshavin foi um das contratações do Arsenal para a temporada que fugiram do conceito padrão utilizado pela comissão técnica londrina. Rodado, aos 28 anos de idade, chamou a atenção pelo seu desempenho na última edição da Eurocopa, atuando com a camisa da seleção russa. Vinculado ao Zenit, de São Petersburgo, por quem faturou a Copa da Uefa de 2007, caiu nas graças de Arsène Wenger.

Versatilidade, experiência e um acréscimo de qualidade ao grupo profissional dos Gunners foram alguns dos atributos indicados pelo treinador francês ao atacante que custou aos cofres do clube 14 milhões de libras – algo em torno de R$ 46 milhões. Atacante, porém, até desembarcar em Shenley, o centro de treinamentos do Arsenal.

“A primeira influência que ele teve sobre mim foi mudar minha posição, já que estou virtualmente atuando como meia esquerda. Não jogava nessa posição havia anos. Já joguei no lado direito, no lado esquerdo no ataque, mas não como meio-campo que ajuda a defesa”, disse Arshavin, em entrevista à revista FourFourTwo, sobre as ações práticas de Wenger em relação ao seu funcionamento em campo.

“O Arsenal contrata os jogadores sempre através de Arsene Wenger. Ele não olha apenas o jogador, ele olha dentro do jogador. Ele vê as qualidades de cada um e qual a melhor forma de utilizá-las”, completou o russo, em tons elogiosos ao personagem deste especial, possibilitado a partir de uma parceria entre a Soccer Coaching International e a Universidade do Futebol.

Nesta quarta parte, o conteúdo irá expor alguns aspectos específicos sobre a metodologia de trabalho do manager, que desde 1996 está à frente do projeto de umas das mais tradicionais forças da Inglaterra. Além disso, qual a visão de Wenger em relação ao tempo praxe de adaptação de um novo contratado à equipe – caso de Arshavin, por exemplo -, bem como aspectos de transição defesa-ataque e do que lhe chama a atenção no futebol brasileiro.

“Demora seis meses para os jogadores se acostumarem com a maneira que queremos jogar. Nós damos a eles esse espaço de tempo, porque nós temos estabilidade no lado técnico e, em segundo lugar, nós temos estabilidade no aspecto de jogadores. Apesar de um atleta ir embora depois de dois ou três anos, nós temos jogadores atuando pelo nosso time por oito anos. Então, a estabilidade está aí, nós não vendemos os nossos jogadores e nós temos tempo para integrar os novos jogadores. Nós não os julgamos antecipadamente”, sinaliza Wenger.

Esse processo de compreensão da lógica da Premier League, especialmente, passa por variáveis, umas dominantes em relação às outras. Como referência, um atleta holandês que passou cerca de quatro anos no Arsenal e, em sua equipe de origem, o Ajax, atuava como uma espécie de ponteiro. Requereu adaptação.


Wenger conversa com grupo: participação nas contratações confere relação intimista entre treinador e atleta 

“Para algumas pessoas isso é físico, porque a intensidade do jogo na Inglaterra é alta. Algumas vezes isso é tático, por conta das mudanças na formação, porque nós jogamos em zona. Alguns estão acostumados a jogar em zona, mas isso nunca foi explicado corretamente. Às vezes, nós jogamos com uma organização tática diferente. Por exemplo, quando o Overmars veio para o Arsenal, ele estava acostumado ao ‘winger system’, e nós jogávamos no 4-4-2. Então, ele teve que se adaptar a uma nova formação”, avalia Wenger, ratificando o período genérico de uma semestre para se trabalhar no jogador o que está sendo realizado de modo incorreto.

Os princípios estruturais de transição se referem àqueles que norteiam estruturalmente a equipe quando ela transiciona da fase de ataque para a fase de defesa, ou da fase de defesa para a fase de ataque. Quando se refere à transição defesa-ataque, são os princípios estruturais de transição ofensiva. Na contramão, os princípios estruturais de transição defensiva.

Como indica o professor Rodrigo Leitão, assim como os princípios estruturais de ataque e os de defesa, os princípios estruturais de transição se relacionam e interagem com as plataformas táticas das equipes, mas independem, quais sejam elas, para existir.

O relevante é que se tenham efetivamente referências norteadoras da ocupação do espaço e que haja complemento, com os atletas podendo propiciar um jogo mais consistente, inteligente, mais elaborado, amparado pelos treinadores e seus assistentes técnicos.

“A transição no futebol é vital, mas ela está sempre ligada às qualidades técnicas dos jogadores, com a visão e com as qualidades físicas deles. Especialmente as qualidades físicas têm se tornado mais importantes atualmente. Eles melhoraram, então a transição se torna menor, sobretudo quando o seu oponente deixa você jogar o jogo. Além disso, quando você está em um clube grande como o Arsenal, os times não saem realmente contra a gente. Dessa forma, eles tentam cancelar essa transição porque não saem das suas posições”, explica Wenger.

Nesse caso, expõe o técnico dos Gunners, o período de transição só é importante quando o time sai e tenta jogar contra você. E, quando se é uma agremiação grande e de peso, primeiro há necessidade de se colocar o oponente em uma determinada posição na qual ele deve estar quando você roubar a bola. Por exemplo, saindo na frente do marcador e ganhando a possibilidade de contra-atacar.

“Mas em um jogo de Liga dos Campeões da Europa, a transição é muito, muito importante. Os dois times geralmente jogam, os dois times estão acostumados a sair para o jogo, então isso se torna muito importante. Mas para ter a vantagem, você precisar ser fisicamente muito forte”, crê Wenger.

“Esse é um período muito interessante e importante, mas ainda assim você vê que a maioria dos times negligencia isso um pouco – e eu, pessoalmente, lamento. Como criar espaço quando eles têm a bola e o outro time está posicionado? Eles se recusam a assumir suas responsabilidades”, cobra.


Uma das principais revelações inglesas, Walcott também tem importante função na plataforma tática do Arsenal

O fato de participar com afinco e atenção na escolha dos jogadores contratados torna de Wenger um ser querido pela comunidade. Mesmo se eventualmente um atleta não é relacionado para uma partida decisiva, por exemplo, não significa que a importância dele para o todo seja reduzida. Muito pelo contrário.

“Quando você joga por um clube como o Arsenal, tem de aceitar que nem sempre estará em campo. O técnico não precisa se explicar. Em clubes assim, você não tem apenas 11 jogadores de qualidade, você tem 20 ou mais. Tenho certeza de que o técnico se pudesse escalaria todos”, minimiza Arshavin.

“Isso é sempre o mesmo: você precisa amar as pessoas. Um técnico como Louis van Gaal é um pouco diferente. Ele é mais rígido, mas essa é a sua personalidade e essa é a única regra secreta: você só pode ter sucesso se você é quem você é. Van Gaal é quem ele é e ele nunca irá mudar. Ele será bem sucedido porque ele é fiel ao que ele é e não engana”, compara-se em termos de estilo Wenger.

O novo treinador do Bayern de Munique, por exemplo, assumiu a equipe da Baviera nesta temporada e, de cara, disse que não tinha interesse em contar com o zagueiro Lúcio, capitão e titular absoluto da seleção brasileira. No Arsenal, em contrapartida, diante das figuras de Denílson e do carioca naturalizado croata Eduardo da Silva, Wenger revela todo seu encantamento pelos talentos sul-americanos.

“Você sabe do que eu gosto no Brasil? Eles dizem: nós respeitamos você pelo seu sucesso, mas nós te amamos pelo seu estilo. Eu acho que essa é a imagem completa. Mas, primeiro, você tem que ser respeitado pelo seu sucesso e daí, no topo dele, você pode ser amado pelo seu estilo. Eles tiveram por um longo período, uma história de resultados e sucesso, então no começo eles estavam felizes apenas com a vitória, mas depois disso, a demanda sempre fica maior”, traça Wenger.

“Pessoas querem ser entretidas – essa é a responsabilidade de um grande clube. Pessoas vão para o estádio com uma expectativa. Você não pode cobrar 100 euros por jogo e dizer para alguém: ‘desculpe, nós não temos nada a mais para mostrar, nossa única ambição é vencer com um escanteio aos 42 minutos do segundo tempo e você teria que estar feliz em gastar 100 euros nisso’. Isso não acontece dessa maneira”, finaliza, deixando claras as características e perspectivas do Arsenal.

Por mero complemento, vale mais uma exposição de Arshavin, já incorporado à realidade dos londrinos: “Se você analisar o Arsenal, verá que o time não foi montado para vencer os jogos por 1 a 0. O tim do Arsenal tem muitos jogadores que adoram atacar, criar e jogar futebol bonito. Por isso temos um público de 60.000 pessoas no Emirates Stadium – elas foram lá ver um jogo bonito, inesquecível”.

Na última parte do especial de Arsène Wenger, o treinador relembrará o início de sua trajetória no clube, os questionamentos pelos quais passou, seu conceito sobre uma comissão técnica integrada e a razão de se considerar um profissional de sorte.

Leia mais:
Arsène Wenger, técnico do Arsenal desde 1996
Entrevista: Arsène Wenger – segunda parte
Entrevista: Arsène Wenger – terceira parte
As equipes brasileiras vs o 1-4-4-2 com duas linhas de quatro

Comentários

Deixe uma resposta