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15/09/2009

Entrevista: Arsène Wenger – segunda parte

Um dos principais jogadores do Arsenal, Robin van Persie renovou o contrato com os londrinos por mais duas temporadas. Após colocar fim aos rumores que indicavam para uma negociação – inclusive com o rival Manchester United, após este perder Cristiano Ronaldo -, o meia-atacante holandês receberá cerca de 3,5 milhões de libras por ano. Isso sem contar com o fortalecimento do suporte recebido por Arsène Wenger.

Nesta segunda parte da entrevista concedida à Soccer Coaching International, parceira da Universidade do Futebol, o manager dos Gunners expõe toda sua admiração pelo jogador de 26 anos, formado nas categorias de base do Excelsior, antes de ser adquirido pelo Feyenoord, ambos da Holanda.

“Ele é uma pessoa muito sensível, mas com força, o que o faz um jogador de alta classe. Para mim, Robin van Persie é um atleta de nível, um dos melhores do mundo”, elogiou Wenger, extasiado, assim como a torcida do Arsenal, por poder ter ao seu lado um atleta considerado crucial à equipe desde 2004, quando desembarcou na Inglaterra.

Ao ingressar no clube de Rotterdam, van Persie era vislumbrado como uma das maiores promessas. Mas, lá, nunca se tornou titular absoluto. Em 2002, durante a edição da antiga Copa da Uefa (hoje Liga Europa), entretanto, ganhou uma chance na formação inicial justamente na decisão do torneio continental diante do Borussia Dortmund, da Alemanha: vitória por 3 a 2 e bicampeonato europeu para o Feyenoord.

Logo chamou a atenção de Dick Advocaat, técnico da seleção nacional à época, participando ativamente do grupo principal da Holanda na Copa do Mundo da Alemanha, de 2006, e na Eurocopa, dois anos depois.

“Eu sei que assinamos com van Persie quando ele teve grandes problemas na Holanda. Antes de nada, eu achei que ele não era respeitado lá. Ele ainda era muito jovem, e não era realmente maduro naquela época. Ele estava avariado por isso, mas não destruído”, analisou Wenger.


Wenger e seu pupilo: atenção especial e compreensão do tempo de adaptação
 

“Quando eu falei com ele, senti que ficaria bem. Van Persie tinha um amor profundo pelo jogo, e no aspecto humano era muito positivo. Ele era um tanto azarado na maneira como as coisas aconteceram, mas, por outro lado, o jeito como ele agia era uma mistura de força, um pouco de arrogância (o que você precisa como um grande jogador) e sensibilidade também. Ele é uma pessoa muito sensível, mas com força, o que o faz um jogador de alta classe”, acrescentou o treinador, consagrado pela capacidade de atentar promissores atletas, ainda em fase de maturação.

Quando assinou com van Persie, Wenger tinha a certeza de que o melhor caminho para a potencialização de todo aquele talento seria junto aos outros jovens em Highbury. Mas tal situação desagradou à cúpula holandesa.

A direção do Feyenoord sentiu-se prejudicada com o assédio sofrido pelo jogador, devido às diversas propostas do Arsenal durante as negociações, e moveu uma ação na justiça comum contra os Gunners. No fim de tudo, entretanto, o vínculo entre jogador e a nova agemiação acabou selado após um acordo entre as partes.

“Van Persie poderia ter se tornado um jogador com o qual não valeria perder tempo, mas às vezes os gênios são assim. Ele tinha evoluído muito bem. Agora, tem uma boa namorada, também, seu ambiente é bom e o clube estará sempre ali para ele”, argumentou o treinador francês, garantindo que houve muita paciência em todo esse processo.

“Ele tinha vindo para o clube com grandes jogadores, e nós demos o tempo. Além disso, eu estou acostumado a trabalhar com jovens. Eu sei que você precisa ser paciente e nós demos a ele um pouco de tempo, mas a parte maior veio dele”, elogiou.


Van Persie treina; ao fundo, à esquerda, o brasileiro Denílson, outra aposta do clube londrino

Logo na primeira temporada, van Persie foi utilizado majoritariamente como peça rotativa do elenco – vez ou outra não era relacionado. Já no ano seguinte, em 2005, firmou-se entre os onze principais de Wenger, condicionado pelas ótimas atuações e belos gols que anotava quando tinha chance.

Uma série de lesões, entretanto, atrapalharam o rendimento do camisa 11 dos Gunners. Em 2007/8, o holandês foi presença constante no departamento médico do Arsenal, com problemas no joelho e na coxa – no total, passou cerca de cinco meses sem participar das atividades normais. Recuperado, vem conseguindo manter uma boa sequência desde então.

“Van Persie deu certo, mas é claro que eu errei no passado também. Em uma situação como essa, você faz os cálculos, olha para isso [investimento na jovem revelação] e faz um empreendimento arriscado. E quando isso dá errado, você pode sempre tentar aprender a partir do seu erro”, comentou Wenger, em relação ao oferecimento de aproximadamente 20 milhões de libras pelo então garoto de apenas 21 anos. E o manager tem certeza de que acertou na aposta.

“Eu acho que um bom treinador é sempre capaz de dizer: ‘Eu estava errado nessa situação’. Um bom técnico (ou jogador) é capaz de dizer: ‘Nós ganhamos hoje, mas eu cometi dois grandes erros’. Esse trabalho ensina humildade, porque você encara a natureza humana e ela pode sempre surpreender e provar que você errou, e você tem que aceitar isso”, finalizou.

Robin van Persie foi o artilheiro da equipe na última temporada, com 20 gols em 44 partidas oficiais. Em cinco temporadas com o Arsenal, disputou 177 partidas e marcou 63 gols.

*Na sequência deste material especial, ao longo da semana, Arsène Wenger falará um pouco mais sobre o cotidiano nos treinamentos em Londres, suas aflições como técnico, a importância da tomada de decisões e o que ele entende por “bom futebol”.

Fonte: Soccer Coaching International – www.soccercoachinginternational.com   

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Arsène Wenger, técnico do Arsenal desde 1996

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