Universidade do Futebol

Artigos

06/01/2013

Entrevistas coletivas – quem e para quem se está falando?

O futebol é o esporte número um do brasileiro. Mesmo os poucos que não torcem ou acompanham os times da liga nacional, certamente são impactados por notícias envolvendo as personalidades mais notórias do setor.

Este artigo tem a intenção de lançar um olhar fundo em como se dá atualmente as relações entre os bastidores deste esporte e seus torcedores e, para isso, será centrado no ambiente de entrevistas coletivas. Levando em conta conceitos de análise de discurso falado, serão levantados os elementos que envolvem a declaração do entrevistado e a forma com que ela chega até o torcedor, por meio dos veículos de comunicação.

A cobertura da imprensa esportiva sobre os bastidores do futebol se presta a relatar, com questionável imparcialidade, as manifestações de opinião por parte dos clubes, representados por seus jogadores e dirigentes. Assim, iremos primeiramente fazer uma breve análise na primeira parte deste processo de comunicação: o entrevistado.

Dentro do contexto da coletiva, o escolhido para falar com a imprensa se senta diante de uma tela que exibe os diversos ícones que representam seu time, como o distintivo e os logos de patrocinadores.

À luz da análise do discurso falado, vamos explorar o conceito de face, que é a imagem pública que um interlocutor constrói acerca de si mesmo à medida que constitui o ato conversacional. De acordo com o sociólogo Earving Goffman (1970), toda interação promove uma ruptura de um equilíbrio social pré-existente, sendo uma ameaça à expressão social do eu individual. A teoria de Brown e Levinson (1978) nos traz os conceitos de face positiva e negativa, sendo a primeira o conjunto de argumentos levantados pelo interlocutor para obter aprovação ou reconhecimento, e a segunda uma espécie de território que ele deseja preservar.

Aplicando tais teorias ao contexto das coletivas, temos a figura de um interlocutor que representa uma agremiação e seus patrocinadores por meio de sua face. Ou seja, ao passo que o entrevistado é porta voz de seu time, ele também tem como objetivo preservar sua própria imagem, que no atual contexto do futebol, muitas vezes constitui uma marca. Jogadores vistos como promessas, como Neymar e Lucas, por exemplo, contam com uma equipe multidisciplinar de assessores; Mano Menezes, ex-técnico da seleção brasileira, é adepto assumido do media training, treinamento que reúne conceitos visando a preservação da imagem diante de veículos de comunicação.

Do outro lado da sala de coletiva, há uma figura igualmente complexa. O jornalista representa a linha editorial do veículo em que trabalha e geralmente realiza perguntas dentro de uma pauta pré-estabelecida. Diferente do entrevistado, ele não tem a mesma preocupação com sua face, uma vez que sua imagem pública pouco aparece. Seu desafio, em tese, é o de elaborar uma pauta que esteja dentro do padrão editorial de seu veículo e seja vista como conteúdo de valor para sua audiência, mesmo que para isso, às vezes tenha que expor uma face negativa do entrevistado.

Um exemplo desta postura aconteceu no começo de 2012, durante a segunda coletiva do jogador Barcos pelo Palmeiras. Leo Bianchi, jornalista do Globo Esporte, questionou o jogador se não se achava parecido com o cantor Zé Ramalho; Barcos, por sua vez, respondeu de forma áspera que não aceitaria este tipo de brincadeira durante a coletiva por ser um assunto que não tem a ver com futebol. Este episódio ilustra bem como um jornalista elabora uma pauta dentro da linha editorial de seu programa.

O Globo Esporte tenta manter uma linha informal e irreverente, muitas vezes privilegiando notícias que envolvam brincadeiras de pessoas ligadas ao futebol. A pergunta do jornalista expôs diretamente uma face negativa de Barcos, que talvez por não estar familiarizado com a conduta do programa, estranhou e preferiu não participar da brincadeira. Na ocasião, talvez tenha faltado jogo de cintura ao repórter no momento em que insistiu em perguntar a Barcos a razão de não ter gostado da piada. Em situações como esta, valeria abrir mão de sua pauta, uma vez que o conteúdo de valor era primordialmente a brincadeira, à qual o atacante argentino se mostrou nitidamente contrário.

Apesar da interação se dar entre o entrevistado e a imprensa, a comunicação termina em um terceiro componente: a audiência. A notícia, que é o resultado da apuração das informações coletadas, será interpretada pelo público, o processo mais complexo de toda a cadeia até então analisada.

Superficialmente, poderíamos analisar da seguinte forma: a única autonomia que o espectador tem sobre a notícia é o poder de escolher o veículo de comunicação com o qual mais se identifica; entretanto, há muitas variáveis envolvidas, desde a escolha do veículo até a decodificação da mensagem.

Primeiramente, hoje em dia, os veículos de comunicação estão presentes nas mais diversas mídias, de forma não essencialmente jornalística. Por exemplo, além da linha editorial, um veículo que conta com uma boa campanha de marketing pode influenciar positivamente sua audiência.

Outro fator presente nesta equação é a atuação das redes sociais. Neste universo, a opinião de um veículo pode ter peso igual ou até mesmo menor do que a de uma pessoa influente no assunto; outra situação muito comum é a massificação de uma determinada opinião por parte da audiência, um fenômeno que se dá de forma colaborativa e espontânea.

Exemplos desta atuação não faltam: em setembro de 2010, um desentendimento entre Neymar e Dorival Júnior culminou na demissão do então técnico do Santos, fato que acabou se espalhando pelas redes sociais uma imagem de mimado da estrela santista; em junho de 2012, Ronaldinho Gaúcho deixou o Flamengo sob alegação de falta de pagamento e, em contrapartida, foi acusado pelo clube por falta de profissionalismo, esta última, a versão "preferida" dos perfis sociais.

Note que, em ambos os casos, a disseminação da informação se dá de forma diferente da jornalística, uma vez que é colaborativa e não tem a preocupação em mostrar mais de um lado da história. Aparentemente, além da influência de figuras notórias especificamente deste cenário, há uma preferência por assuntos que despertem polêmica ou proporcionem algum tipo de brincadeira.

Embora esses últimos exemplos fujam do objeto de análise, que é o contexto das entrevistas coletivas, são ótimos parâmetros para se ilustrar o quanto complexa é a interpretação de uma declaração. Por fim, a intenção deste artigo é propor ao público uma reflexão sobre a forma com que recebe uma notícia. É preciso perceber que a informação lida ou escutada é fruto de um processo com diversas etapas, dita, analisada e retransmitida sob diversos interesses. Afinal, mais importante do que estar bem informado é exercer sempre um olhar crítico.

Comentários

Deixe uma resposta