Colunas

03/02/2018

Equidade nas relações entre treinador/staff e jogadores

Imagine se conseguir melhorar 10% a maneira como interage com seus jogadores. Qual impacto isso traria para a equipe?

Certa vez quando trabalhava de coordenador de um clube observei o comportamento de um dos professores com os jogadores da sua equipe. Percebi que todos os dias esse treinador falava com os mesmos jogadores, durante as conversas iniciais e durante todo o treino.

Neste grupo ao qual se dirigia havia explicitamente um subgrupo de jogadores disciplinados e participativos e outro que era o contrário, no qual o treinador se dirigia sempre para orientar e cobrar disciplina. Havia também uma relação de privilégios para alguns jogadores que, teoricamente, podiam “resolver uma partida” para o treinador.

No meio desses dois subgrupos opostos estavam a maioria dos jogadores, que o treinador quase não conversava e quase não olhava nos olhos, a não ser para um rápido cumprimento ao início e ao final do treino. Analisei a situação e guardei para mim essa observação que fiz.

Pois bem, em um outro momento da vida, quando estava eu de treinador, no segundo ou terceiro mês de trabalho com uma equipe sub-17, percebi que estava cometendo o mesmo erro. Me perguntei: Há quanto tempo não converso com “fulano”? Quantos dias que não chamo “ciclano” para uma conversa individual? Conheço bem todos os jogadores? Estou conseguindo dar conta de entender as necessidades de comunicação de cada jogador? Estou agindo com equidade com o grupo de atletas?

Agir com equidade é agir com imparcialidade, com constância e de forma justa com todos. Não é dedicar o mesmo tempo para cada um dos jogadores, com igualdade, mas sim com base nas necessidades de cada jogador.

É normal que para alguns casos dedicamos mais tempo, como no caso de jogadores com problemas de disciplina ou que, fora das quatro linhas, passam por algum problema. Ou aqueles jogadores que, dentro do campo, tem mais dificuldade de entender as ideias de jogo da equipe.

Contudo, há uma maioria de jogadores que as vezes são menos participativos quando fazemos alguma pergunta, que tem vergonha de responder em voz alta na frente dos colegas, os que formulam perguntas mas não falam, ou os que simplesmente não entendem o que está sendo conversado.

Analisando isso, comecei a ser mais interativo com esses jogadores. Comecei a ser mais atento as necessidades do grupo, a não esquecer de ninguém e me comprometi a ter a iniciativa de atuar com esses jogadores para que se sintam confiantes para exprimir suas ideias e sentimentos. Na minha impressão as relações ficaram mais abertas, havia mais jogadores se sentindo importante. O ambiente de convívio melhorou e o resultado no campo também.

Nesse caso, tinha também um treinador adjunto que fazia muito bem o papel de observação e aproximação de todos os jogadores. Quando o trabalho é assim, compartilhado, mais informações entram no nosso radar e mais podemos atuar com equidade na interação social com os jogadores.

Dessa maneira, o treinador deve ser autocrítico e mediador do ambiente interno, relacionado às interações sociais da equipe. Por isso recomendo sempre pensar nisso: 1) Quem são os jogadores que você mais interage? 2) Quem são os que menos interage? 3) Há quanto tempo não conversa com esses jogadores que interage menos? 4) Como pode ser um melhor comunicador e líder? 5) Qual o perfil desses jogadores: são tímidos, inseguros, menos confiantes, introspectivos, exercem liderança pelo exemplo sem falar muito, estão desmotivados, gostam de ficar nessa zona de conforto e passar despercebido ou são determinados e não precisam de fatores externos para motiva-los?

São inúmeros os traços característicos, podem ser positivos ou negativos. Como citado anteriormente, pode existir dois grupos de destaque dentro de uma equipe, fáceis de analisar e atuar: 1) os que fazem as coisas bem e; 2) os que não fazem. Difícil é lidar com essa maioria intermediária e menos acessível. Por essa razão que, assim como planejamos o treino, os conteúdos, as condicionantes e constrangimentos de cada tarefa, é preciso haver um estudo constante por parte do treinador e todo seu staff para criar estratégias de como dar atenção e interagir com todos os jogadores.

O objetivo é melhorar o ambiente social, dar um sentido maior de equipe aos jogadores e acabar com o estereótipo de que em um grupo existem somente os protagonistas e os coadjuvantes. É possível transmitir confiança, proporcionar maior participação e voz-ativa a mais jogadores. Imagine se o treinador e o seu staff conseguir melhorar 10% a maneira como interage com os jogadores. Será que já não traria impacto para a equipe, dentro e fora de campo?

Parecem apenas detalhes, mas essas minúcias podem fazer a diferença. Provavelmente aqueles 10% de melhora podem ser suficientes para um maior progresso no desenvolvimento e pode impactar nos resultados, seja lá qual forem os objetivos: formar jogadores, negociar jogadores, chegar mais longe em uma competição, diminuir a evasão das turmas, etc.

Portanto, é um exercício que vale a pena fazer. Sabemos que a relação entre treinador/staff e jogadores é uma via de mão dupla, de co-dependência, mas o treinador precisa ter a iniciativa e pró-atividade para criar situações em que todos se sintam bem e melhorem seu papel e contribuição dentro da equipe. Para isso, é preciso sensibilidade, um olhar equíname e uma atuação mediadora e construtora de relações.

Comentários

  1. Luiz disse:

    Em outro artigo(o primeiro do Autor no UdoF, intitulado “Sistemas complexos no futebol”), comentei dizendo que iria intercambiar pontos de vista com o mesmo. Pasquarelli é, inclusive, pesquisador na área de análise de rendimento do futebol.
    Desde logo, vou dizer que também faço pesquisas sobre o jogo de futebol, mais precisamente sobre a questão do “encaixe do time” ou do entrosamento e conjunto. Associo esta característica não apenas ao rendimento em campo, mas à própria vitória. Daí porque as idéias do treinador e especialista em biodinâmica mexe um pouco com este engenheiro. Estamos afinados por um tema em comum.
    A princípio, não há como discordar das sugestões(receitas?) do Autor, quando ele sugere melhorar o processo de comunicação ou das relações interpessoais da tríade treinador-staff-jogadores. Infelizmente não vi no artigo uma menção clara à figura de outro especialista, o psicólogo esportivo, que o tema talvez merecesse. Penso que a lacuna é suprida no título e no final, quando se menciona o “staff” técnico.
    Sou um leigo nessa questão do psíquico, que informa e está por detrás das relações entre as pessoas, sejam elas jogadores de futebol ou não. Todavia, desconfio -a la Guimarães Rosa- que o mental e o emocional jogam um bolão(sic) no caso do futebol. Então, há alguma coisa neste interessante(e provocativo) escrito do Pasquarelli que me incomoda. Vejamos!
    Aprendi a desconfiar – a vida me ensinou- das coisas muito certinhas, muito deterministas e corretas, como por exemplo, o discurso dos treinadores após uma vitória. Assim, o raciocínio linear de que A leva a B que leva a C… não me convence.
    Na maioria dos processos dito complicados a não-linearidade se faz presente. E é aqui que a porca torce o rabo(sic). Porque sistemas complexos costumam possuir dinâmicas caprichosas, de difícil apreensão e descrição. (No caso do jogo de futebol, para se ter uma idéia, a crença geralmente aceita é a de que o fenômeno é imprevisível. Pelo menos é a melhor convicção de dez em cada dez técnicos e jornalistas esportivos).
    Porisso, acho que alguma dissensão, alguma coisa que provoca, que incita e até mesmo uma divergência de pontos de vista, uma disputa por uma posição de titular, etc, podem ser benfazejas no futebol. A propósito, lembro de um desses programas da TV(ESPN acho) em que apareceu Edilson, o Capetinha, e relatou que naquele Palmeiras-Parmalat do final dos anos 90, havia jogadores que nem se falavam. Mas quando entravam em campo produziam um jogo vistoso e fatal.
    Outro exemplo vem do relato de um dirigente do Milan, da Itália. Não lembro agora a fonte, mas ele dizia que quando o Rossonero tinha problemas no elenco o time jogava bem e quando os problemas foram contornados a equipe caiu de rendimento e passou a jogar mal.
    Não quero ser do contra, mas outra desconfiança que anda ao meu lado é essa história de “grupo unido”, da tal “família” do técnico. Sim, a “Família Scolari”, de 2002, sagrou-se campeã mundial. Pergunto: foi por causa daquele gesto, piegas, de jogadores entrando em campo de mãos dadas ou foi por causa do “excelente trabalho realizado nos bastidores da Comissão de Arbitragem da FIFA”, a que se referiu o ex-árbitro José Roberto Wright, ao dar os parabéns a Ricardo Teixeira, naquela sua coluna no Diário Lance!, cerca de uma semana após a Copa? Pois a sequência de erros de arbitragem, todos a favor do Brasil, só não viu quem realmente não quis ver.
    Ah! E a Família Scolari dos 7 a 1 da Alemanha, em 2014? O que faltou e fez desabar em prantos um time inteiro? Foram as mãos dadas?
    Conclusão: às vezes sou levado a pensar que existem, no âmago do jogo, certas coisas boas mas que não funcionam bem; em compensação, existem aquelas menos notadas mas que na hora do vamos ver(sic) acabam produzindo excelentes resultados. E seria a propriedade do “encaixe” o espelho que revela estas últimas?
    Luiz M.de Lima – eng e pesquisador.

Deixe uma resposta

Sobre a Universidade do Futebol

A Universidade do Futebol é uma instituição criada em 2003 que estuda, pesquisa, produz, divulga e propõe mudanças nas diferentes áreas e setores relacionados ao universo do futebol, enquanto atividade econômica e importante manifestação de nosso patrimônio cultural, nas dimensões socioeducativas e no alto rendimento, e que conquistou o reconhecimento e credibilidade da comunidade do futebol.

Cursos em Destaque

© 2016 Universidade do Futebol. Todos os direitos reservados.