Universidade do Futebol

Publif

16/08/2007

Equívoco na definição das faixas etárias na base

As categorias de base do futebol paulista são separadas em faixas etárias pelo seguinte critério: todos os atletas que completam X anos no mesmo ano, X=9, 10, 11, 12 ou 13, fazem parte da categoria sub X; todos os atletas que completam Y e Y-1 anos no mesmo ano, Y=15 ou 17, fazem parte da categoria sub Y; todos os atletas que completam 18, 19 e 20 anos no mesmo ano fazem parte da categoria sub 20.

Para os meninos menores de 13 anos, que fazem parte da mesma categoria, este critério implica em uma diferença de idade de até um ano. Para os menores de 17 anos, a diferença dentro de uma mesma categoria chega a ser de dois anos, enquanto, para os menores de 20 anos, chega a ser de três anos.

Por esse critério, os atletas nascidos em 1° de janeiro têm vantagens sobre todos os demais. Quanto mais para o final do ano é a data de aniversário do atleta maior é o seu prejuízo. Assim, os atletas nascidos em 31 de dezembro são os mais prejudicados.

As vantagens dos atletas mais velhos são de dois tipos:

Eles tendem a ser mais fortes, principalmente no período de 13 a 15 anos, quando ocorre o estirão do crescimento e duas categorias se juntam em apenas uma.

Eles têm o previlégio de jogar por mais tempo nas categorias de base, nesse sentido, o caso limite é do menino nascido em 31 de dezembro, que pode jogar exatamente um ano a menos do que o menino nascido em 1° de janeiro.

Essas distorções se corrigiriam facilmente se o critério fosse o seguinte: um menino de X-1 anos pertence à categoria sub X até o dia em que ele complete X anos. Por exemplo, um menino de 12 anos pertence à categoria sub 13 até o dia do seu aniversário de 13 anos. Dessa forma todos passariam exatamente o mesmo tempo em cada categoria, passariam por fases que são mais novos e por fases que são velhos, e todos teriam carreiras amadoras exatamente de mesma duração.

A razão pela qual esse critério ainda não foi adotado deve ser a dificuldade administrativa por ele gerado, já que os meninos passariam a mudar de categoria durante o curso dos campeonatos.

Um fato que merece a nossa reflexão é se essas dificuldades administrativas seriam razão suficiente para conservar o critério assimétrico em vigor. Essa assimetria faz com que as oportunidades não sejam iguais e, portanto, afeta o processo de escolha dos atletas mais aptos para a continuidade da carreira, o que não é bom para nenhum dos interessados no processo: atletas, investidores, clubes, federações etc.

Para colocar alguma luz nessa reflexão, vou citar dados da liga inglesa de futebol, constantes do livro The Science of Soccer do doutor John Wesson. Na página 121 desse livro, o dr. Wesson mostra um gráfico de freqüência dos profissionais da liga inglesa, agrupados por mês de aniversário.

O esperado seria encontrar uma distribuição uniforme, isto é, praticamente a mesma freqüência para todos os meses do ano, já que não parece razoável que mês de aniversário tenha alguma correlação com a habilidade de alguém jogar futebol. Por outro lado, o observado é que os atletas nascidos no mês de início do critério de definição das faixas da categoria de base (no caso inglês outubro) predominavam largamente sobre os atletas nascidos onze ou douze meses depois.

A razão sugerida pelo dr. Wesson para esse fato, que me parece bem plausível, é que essa distorção obsevada advenha da diferença de oportunidades encontradas pelos atletas na carreira amadora.

Acho que estamos em um bom momento para refletir sobre essa questão organizacional, já que a Federação Paulista, pressionada pela demanda de revelação de atletas cada vez mais jovens, acaba de diminuir em um ano a faixa etária dos atletas que poderão jogar a Taça São Paulo de Futebol Júnior.

Esse fato é reflexo de uma tendência mundial, aparentemente irreversível, de desejar se revelar atletas cada vez mais jovens. Por outro lado, a abreviação da carreira amadora deve aumentar o peso das distorções na definição das faixas das categorias de base. Dessa forma, convido os senhores dirigentes, técnicos, cientistas de futebol e empresários a refletirem seriamente sobre esta questão.

* Junior Barrera é professor titular do Departamento de Ciência da Computação do IME-USP, membro do Publif e coordenador do projeto de pesquisa em Inteligência no Futebol. www.ime.usp.br – jb@ime.usp.br

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