Universidade do Futebol

Entrevistas

23/05/2013

Erasmo Damiani, coordenador da base do Palmeiras

O ambiente das categorias de base do Palmeiras não era dos melhores quando Erasmo Damiani foi convidado por José Carlos Brunoro para ser o coordenador das equipes abaixo do profissional.

O clube acabava de extinguir o Palmeiras B e a diretoria havia contratado recentemente um goleiro sem ter sido formado na Academia de Futebol, o que ia na contramão de toda a história alviverde.

No entanto, o ex-atleta de atletismo apostou nas suas experiências como preparador físico e gestor administrativo em clubes como Figueirense, Avaí, Joinville e Atlético-PR, além de um cargo como secretário de esportes da prefeitura de Florianópolis, para aceitar o desafio.

Mas, mesmo com sua chegada a um grande clube de São Paulo, os problemas que enfrentava nas categorias de base do país continuaram a aparecer. Para ele, ainda falta a criação de um Campeonato Brasileiro sub-23 e de mais torneios para a categoria sub-20 durante a temporada.

Ele aponta ainda a distância dento do processo de transição dos jogadores da base para o elenco principal como um dos grandes entraves para a promoção dos talentos esportivos nos clubes brasileiros.

"O treinador do profissional vive de resultado. Então, você acha que ele vai olhar para um menino da base para lançar na equipe principal? Correr o risco de perder três seguidas com este atleta recém-promovido? Então, ele prefere trazer o jogador já conhecido e rodado, acreditando que este não vai tremer na pressão. Na Europa, por exemplo, o jovem é feito para jogar no próprio clube. Lá, o garoto começa no infantil sabendo que vai chegar ao profissional. Aqui no Brasil, os jogadores são formados para serem vendidos", compara Damiani, que possui mestrado em Educação Física, em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

Crítico do calendário atual do futebol brasileiro, o coordenador das categorias de base do Palmeiras diz ainda que, apesar de recorrer às tradicionais peneiras e aos observadores técnicos para a seleção e promoção de talentos, é fundamental analisar como é o comportamento dos garotos fora de campo.

As diferenças do futebol praticado nas diversas regiões do país, e a adaptação das jovens promessas à comida, ao clima e ao convívio com os demais colegas nos alojamentos, também são fatores a serem ponderados no momento da avaliação dos possíveis reforços para a base do clube.

"O jovem jogador está acostumado a jogar em campos não oficiais, sem torcida, etc. Daí, no dia seguinte, ele é lançado em um estádio com 10 mil torcedores, com rádio e televisão, e ele tem que fazer igual àquele que está há oito ou dez anos na carreira. Às vezes, a gente fica esperando uma Taça BH para colocar nossos jogadores para jogar. Ou mesmo a Copa do Brasil, que também é um torneio mata-mata e que você pode jogar e cair fora logo. Então, é pouco. Precisamos de mais competições para dar continuidade para estes meninos", completa.

Nesta entrevista, concedida dentro da sua sala no clube do Parque Antarctica, Erasmo Damiani ainda falou do modelo de formação do Barcelona e o que deve ser feito para se implantar uma política que vise aproveitar melhor os jogadores das categorias de base na equipe profissional. Confira a íntegra:

Universidade do Futebol – Quais foram as suas experiências profissionais e como você se preparou para assumir o atual cargo no Palmeiras?

Erasmo Damiani – Bom, quando era um pouco mais jovem, fui atleta de atletismo. Cheguei a competir pelas equipes de atletismo da Gama Filho e do Bradesco. E o meu treinador da época era o Carlos Alberto Lanceta, que foi preparador físico do América-RJ, Botafogo, do Vasco e até da seleção brasileira, sempre me levava para ver aos jogos de futebol. Então, eu comecei na preparação física, em virtude dessa ligação dele com o futebol.

E, deste então, eu fui ser preparador físico no Figueirense, Avaí, Joinville e no Atlético de Tubarão. Mas, eu sempre tinha a ideia que nós, da preparação física, sempre ocupávamos funções de operários e nunca os cargos de comando.

Em 1994, meu pai fez parte da estrutura do governo estadual e eu fui convidado a ajudar no plano desportivo de Santa Catarina. Um ano depois, eu assumi a direção de esportes da Fundação Catarinense de Esportes, um órgão do Estado, que organizava os Jogos Abertos, entre outros. Fiquei durante cinco anos neste emprego.

Em 1999, cheguei a trabalhar um pouco com o futsal. E, em 2004, fui convidado por um amigo a atuar como supervisor das categorias de base do Figueirense para iniciar um novo projeto. Lá, começamos a implantar algumas ações que foram consideradas inovações no futebol catarinense, fizemos o Figueirense deixar de se preocupar somente com o Avaí e colocamos para a direção que deveríamos buscar mundos maiores, como o cenário nacional.

Fomos à Taça BH, que o clube não ia há um bom tempo, jogamos a Copa São Paulo, enfim. Começamos a enfrentar diversas equipes do resto do país até para verificarmos em qual patamar estavam as categorias de base do Figueirense.

Além disso, trouxemos um treinador de fora de Santa Catarina, o Rogério Micale, o que até então não era uma prática da diretoria. Com tudo isso, começamos a dar uma ‘cara’ para a base do clube, que resultou em vários jogadores no time principal. Em 2007, naquele vice-campeonato da Copa do Brasil, chegamos a ter oito atletas formados no clube entre os 18 do elenco da equipe principal.

Neste período, aprendi muito porque, quando se trabalha em um clube de um porte como o Figueirense, você é um faz-tudo. Você é o supervisor, diretor, gerente, auxiliar-técnico, é o pai e a mãe, o psicólogo, enfim. Em 2008, tivemos um ano ímpar no Figueirense, pois fomos campeões da Copa São Paulo, da Copa Promissão, e da SC Cup, ganhamos três grandes competições em um ano. Acredito que, neste período, consolidamos a marca e entramos de vez no mercado das categorias de base.

Depois, cheguei a ser convidado pelo Rodrigo Caetano para ir para a base do Vasco, mas optei por permanecer no Figueirense, já que teria uma oportunidade de gerente no departamento profissional do clube. Porém, o presidente da época perdeu as eleições, e acabei saindo. Daí, em 2010, eu recebi um convite do Ricardo Drubscky, para ter uma função de coordenador de captação no Atlético-PR. Trabalhei diretamente com o Ocimar [Bolicenho], com quem também aprendi muito.

No ano passado, voltei para Santa Catarina para ser secretário de esportes da prefeitura de Florianópolis. Em janeiro de 2013, o [José Carlos] Brunoro me chamou para fazer um prognóstico das categorias de base do Palmeiras. Somente depois que eu entreguei o relatório, ele e o presidente me convidaram para assumir a coordenação.

No futebol, você todo dia tem de buscar informação, ver, ler, saber quais são os jogadores que estão aparecendo em outros clubes. Porque, se você ficar numa ilha, não vai a lugar algum, diz Damiani

Universidade do Futebol – Como você se atualiza em relação às novas demandas do futebol?

Erasmo Damiani – Eu sou formado em Educação Física, com mestrado também em Educação Física. Mas, acho que os conhecimentos dessa parte administrativa são por eu ter participado da organização de eventos esportivos de Santa Catarina. Lá, administrávamos campeonatos que envolviam os 299 municípios daquele estado.

Então, quando eu entrei no Figueirense, eu já tinha esse conhecimento de gestão. Mas, é claro, você tem de estar todo dia aprendendo no futebol. E, para isso, acho que o principal é a sua rede de contatos, para você ver o que está sendo feito em outros clubes, e não ter medo de copiar as coisas boas.

No futebol, tem muita vaidade, e algumas ciumeiras, que têm de ser quebradas. Existe muito o ‘eu’ e não ‘nós’. Para que eu tenha sucesso aqui no Palmeiras, eu vou precisar de todos os meus funcionários que estejam comigo. Só assim, o clube será maior, vai revelar mais jogadores, conquistar títulos, enfim.

A própria contratação do treinador Diogo para o time da base foi decidida em grupo. O Brunoro e o Omar também conversaram com ele antes de fazer a proposta. No futebol, você todo dia tem de buscar informação, ver, ler, saber quais são os jogadores que estão aparecendo em outros clubes. Por que se você ficar numa ilha, não vai a lugar algum.

Ao lado de José Carlos Brunoro, coordenador foi apresentado para a imprensa após atuar como consultor nas categorias de base do Palmeiras

Universidade do Futebol – Em sua opinião, o que deve mudar no trabalho das categorias de base nos clubes brasileiros? De uma forma geral, você acredita que o trabalho é bem feito?

Erasmo Damiani – Em geral, é um trabalho bem feito. Mas, eu tenho algumas preocupações com o trabalho de formação no futebol brasileiro. O clube investe muito, pega o menino no infantil, fica dois anos, depois mais dois no juvenil, três na categoria juniores, e daí ele vai para o profissional como se fosse um salvador da pátria. E se não dá certo, vai embora.

Então, o clube investe sete anos no menino, tem um gasto financeiro enorme, e, simplesmente, quando acaba o contrato ele vai embora. Hoje, nós estamos neste papel e eu não estou aqui me omitindo, mas é que o sistema força este cenário. E isso é um problema de cima para baixo, que deveria ter a intervenção a CBF.

Acho que está faltando no Brasil uma sequência da base para o profissional. Deveria ser criado um Campeonato Brasileiro sub-23, com chancela da CBF, com Série A e Série B, que se possa usar, por exemplo, três jogadores acima desta faixa etária. Que nem o Campeonato Paulista da Segunda Divisão faz. Daí, você vai ter muitos meninos encerrando a formação ainda no clube.

Hoje em dia, o que acontece? O jovem que não serve para o profissional é emprestado para outros clubes e ele fica rodando um ano. Porém, quando ele fica mais maduro e desponta em um time adversário, vão perguntar ‘ah, que base é essa do Palmeiras? Jogador estava lá e liberaram?’.

Então, essa transição das últimas categorias da base para o profissional ainda é muito distante no nosso país e, principalmente, nos clubes grandes. Em agremiação menor, você ainda vê muitos atletas da base compondo o time principal, até para equilibrar a parte financeira. Agora, em um clube com o porte de um Palmeiras, o menino às vezes não vira porque o torcedor quer os jogadores mais conhecidos, e daí a diretoria vai lá e traz os reforços mais renomados.

Por outro lado, há exemplos como o Vinícius, que até pouco tempo atrás o torcedor palmeirense achava que ele era fraco. Hoje, ele é o cara. Isso também é complicado. O jovem jogador está acostumado a jogar em campos não oficiais, sem torcida, etc. Daí, no dia seguinte, ele é lançado em um estádio com 10 mil torcedores, com rádio e televisão, e ele tem que fazer igual àquele que está há oito ou dez anos na carreira. Até na minha próxima reunião da ABEX [Associação Brasileira dos Executivos de Futebol], eu vou bater nesta tecla.

Às vezes, a gente fica esperando uma Taça BH para colocar nossos jogadores para jogar. Ou mesmo a Copa do Brasil, que também é um torneio mata-mata, no qual você pode jogar e cair fora logo. Então, é pouco. Precisamos de mais competições para dar continuidade para estes meninos. Quantos jogadores nós perdemos? Quanto dinheiro os clubes perderam com estes meninos?

A base forma, mas quem revela é o profissional. Acredito que esta seja a grande lacuna no futebol brasileiro, a falta de uma boa relação entre a base e o time de cima faz a gente perder muito bom jogador.

A ideia do Palmeiras B era interessante. A forma que estava sendo aplicada, porém, estava errada. O time B não é para estar ligada ao departamento da base, e sim do profissional, aponta o gestor

Universidade do Futebol – As categorias de base no futebol brasileiro são estruturadas pela CBF em sub-15, sub-17 e sub-20. Você não acha que é um intervalo muito grande entre cada etapa de formação?

Erasmo Damiani – Acho. Mas, temos de nos adaptar a este modelo que é imposto. Se eu comparar um menino de 1993, que nasceu no dia 1º de janeiro, com outro garoto que nasceu em 31 de dezembro de 1995, são quase três anos de diferença. Mas, eles estão na mesma categoria.

O infantil são dois anos, o juvenil são dois anos, e juniores são três anos. Mas, mesmo assim, se você tiver no clube as categorias sub-18, sub-19 e sub-20, quais as competições você teria para estas idades? No sub-20, você tem a Copa do Brasil, que criaram no ano passado, e o Campeonato Brasileiro. E só. A Taça BH é sub-19, a Copa São Paulo é sub-19. Ou seja, a competição de maior visibilidade do calendário da base não é sub-20, é sub-19. O que você faz com o seu sub-20?

Por diversas vezes, recebemos indicação de meninos, bons jogadores, mas, por não terem mais idade para a Copa São Paulo, acabamos recusando. Então, isso teria de ser revisto. Precisaria ter um departamento de formação na CBF, com profissionais com experiência neste assunto. Com pessoas que acompanharam todo o processo das categorias de base do futebol brasileiro.

O Ney Franco era uma dessas pessoas, pois foi treinador na base. Ele dormia em alojamento, viajava de ônibus, ia para estádios acanhados do interior. Então, um profissional com este perfil sabe todos os problemas que há no nosso futebol de base. Sabe que em São Paulo, há um tipo de competição, no Rio, é outro, em Santa Catarina, é outro ainda. No Nordeste, idem. Sabe o que está acontecendo no resto do Brasil. A CBF tem estrutura para bancar um Campeonato Brasileiro sub-20 nos moldes ideais, com passagens de avião, hospedagem, etc.

Outro fator que influencia neste processo: o treinador do profissional vive de resultado. Então, você acha que ele vai olhar para um menino da base para lançar na equipe principal? Correr o risco de perder três seguidas com este atleta recém-promovido? Então, ele prefere trazer o jogador já conhecido e rodado, acreditando que este não vai tremer na pressão.

Na Europa, por exemplo, o jovem é feito para jogar no próprio clube. Lá, o garoto começa no infantil sabendo que vai chegar ao profissional. Aqui no Brasil, os jogadores são formados para serem vendidos. Esse é outro grande problema.

O Messi só é o Messi porque foi jogar na Espanha. Um pré-adolescente com estatura mediana tem muitas dificuldades em atuar nas categorias de base do Paraná, Santa Catarina, e Rio Grande do Sul, por exemplo. Por que a característica destas regiões é de ter jogador alto, fruto das colonizações alemã, polonesa e italiana.

O jogador baixinho tem mais facilidade de aparecer em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. Porque são características iguais. Então, é complicado. É preciso entender esta complexidade.

Atualmente, eu acho que a análise por DVD, por exemplo, ajuda também, mas sempre opto por ver o garoto in loco, afirma

Universidade do Futebol – Respeitando a cultura e as particularidades do clube, é possível implementar um modelo para as categorias de base semelhante ao do Barcelona?

Erasmo Damiani – Acredito que podemos implantar um modelo similar sim. Mas, não copiar igualzinho. O Barcelona faz assim, o Palmeiras também. Creio que precisamos entender como os métodos funcionaram lá e adaptá-los à nossa realidade.

Eu quero ver o Barcelona daqui a três anos, com esses jogadores atuais aposentados. Quero ver se vão manter esse jeito Barcelona de jogar. Esse é um questionamento que eu faço. A mesma coisa com a seleção espanhola. Será que esta equipe vai continuar com os mesmos resultados?

Para mim, futebol é igual plantação de soja: é safra. Tem safra boa, tem safra ruim. Principalmente, nas categorias de base. Eu queria ver na hora que o Messi não jogar como agora, o Iniesta parar, enfim. Mas, dá para a gente implantar algumas coisas. Além disso, há a questão da política do clube. O que a diretoria vai visar: a formação ou a conquista.

Universidade do Futebol – Então, Erasmo, unir formação e resultado não é possível?

Erasmo Damiani – Se eu conseguir aliar os dois, acho que é fundamental. Mas, hoje em dia, o principal nas categorias de base é a formação de atleta para a equipe profissional. É claro que, se os títulos acontecerem na base, os jogadores chegam ao time de cima com espírito de vencedor. Daí que entra o modelo Barcelona, que faz trabalhos diferentes com bola, busca jogadores com mais qualidade de saída de bola, garotos com mais técnica, etc.

No entanto, a base brasileira convive com um dilema muito forte: se ganha e não revela, sofre pressão. Se não ganha e não revela, não precisa nem falar. Se revela e não ganha, também há cobranças por títulos. Sempre dão uma desculpa para criticarem o trabalho. Por isso, o respaldo da diretoria é muito importante nesta fase.

Para Damiani, é possível implantar um modelo similar ao que é feito nas categorias de base do Barcelona. É preciso apenas se fazer adaptações ao futebol brasileiro

Universidade do Futebol – Como implantar uma política que vise aproveitar melhor os jogadores das categorias de base do clube na equipe profissional? Na sua visão, em linhas gerais, quais seriam os pilares que viabilizariam essa integração?

Erasmo Damiani – O Palmeiras tinha uma coisa interessantíssima para esta integração, que era a equipe B. A ideia do Palmeiras B era interessante. A forma que estava sendo aplicada, porém, estava errada.

O time B não é para estar ligada ao departamento da base, e sim do profissional. O treinador da equipe B tem de ser alguém colocado pelo profissional, tem de treinar no campo do lado do time principal, e tem de jogar no mesmo esquema tático, pois na hora que o profissional precisar puxar um jogador, não haverá dificuldades.

Mas, também é preciso haver competições para que estes jogadores apareçam. O Palmeiras B jogava de quarta-feira à tarde, sem acompanhamento do profissional, não tinha nada.

Acho que os clubes precisariam pressionar a CBF a criar um torneio atrativo para estas equipes. Até para promover a venda destes jogadores. Mesmo assim, eu acho que é possível se implantar políticas de integração.

Para isso, no entanto, precisamos mudar o modelo que está inserido no Brasil. É necessário acabar com as políticas de comando no futebol. O Palmeiras não tem uma política do Palmeiras, tem uma política do presidente. O Corinthians não tem uma política do Corinthians, tem uma política do presidente. O Internacional, a mesma coisa. A CBF, idem.

No dia em que nós tivermos uma política perene, independentemente do comandante, o cenário será bem melhor. Ao invés da continuidade do planejamento, há inúmeras interrupções no processo.

Segundo o coordenador, a grande lacuna no futebol brasileiro está na falta de uma boa relação entre a base e o time de cima faz a gente perder muito bom jogador

Universidade do Futebol – Em sua opinião, quais os principais fatores devem ser levados em consideração no processo de detecção, seleção e promoção dos talentos esportivos nas categorias de base?

Erasmo Damiani – Eu acho que você tem de avaliar o momento e o futuro. Ver se o menino se encaixa dentro das características que o clube e o treinador estão querendo. E ver como o clube o imagina no futuro.

Por exemplo: eu vou contratar o Henrique. Fazemos contrato de um ano, mas daí, precisamos ver se ele vai se adaptar. Por que, neste período, ele vai estar sujeito a um monte de variantes, adaptação à cidade, ao clima, à alimentação, longe da família, enfim.

Há meninos que estão acostumados a morar num quarto sozinho e, quando vem pra cá, tem de morar com seis garotos juntos. Ou estão acostumados a conviver com temperaturas quentes no Nordeste, acima dos 30 graus e, quando vem para São Paulo, começam a sofrer com clima abaixo dos 10 graus. Tem também a questão do deslumbramento, envolvimento com namoradinhas, status, etc.

Por isso, em relação à detecção de novos talentos, é preciso analisar como é este garoto fora de campo, se ele gosta de trabalhar, se ele está pronto para receber informações, se ele é rápido para captar as coisas que você passa para ele, enfim.

Quando estávamos no Atlético-PR, o goleiro Neto foi um exemplo disto. Ele sempre foi reserva nos times da base do clube, mas a comissão e a diretoria sempre o viam como um atleta promissor, com potencial para o futuro. Sabíamos que ia ter uma boa estatura, pois o pai e a mãe eram altos.

Então, temos de fazer sempre esta projeção: se ele é infantil, ele joga no juvenil? Se ele é juvenil, ele joga nos juniores? Mas, para ele chegar ao profissional, precisa daqueles primeiros fatores que citei.

Há exemplos como o Vinícius, que até pouco tempo atrás o torcedor palmeirense achava ele fraco. Hoje, ele é o cara. Isso também é complicado, avalia Damiani

Universidade do Futebol – Sabemos que muitos clubes utilizam as "peneiras" e critérios subjetivos de observadores técnicos para a seleção e promoção de talentos. Você acredita que estes são suficientes?

Erasmo Damiani – Eu acho que a peneira ajuda. Dependendo da situação que você fizer, ela te ajuda. Se você tirar cinco crianças de 3 mil em um teste já valerá todo o investimento feito neste processo. A observação técnica é mais aguçada, avalia-se mais profundamente.

Atualmente, eu acho que a análise por DVD, por exemplo, ajuda também, mas sempre opto por ver o garoto in loco. Se o jovem for lá do Rio Branco de Americana, eu trago ele para passar uma semana no Palmeiras para ver como é a sua adaptação.

O futsal é outro fator interessante, mas é mal aproveitado ainda, pois ele contribui com fatores como raciocínio rápido, drible, menos falta, além de educar. Outra coisa: é muito importante também a rede de contatos, porque também acontecem muitas indicações. Então, as avaliações, apesar de subjetivas, ajudam bastante.

Universidade do Futebol – Quais estratégias podem ser utilizadas para que o acompanhamento dos jogadores aconteça de forma mais próxima e objetiva? A tecnologia pode ajudar neste processo?

Erasmo Damiani – Pode. Como nós somos formadores, falando do aspecto de formação, a tecnologia é fundamental. Por eu ter feito atletismo, eu fiz muita técnica de corrida. E, usávamos muito a tecnologia para melhorar a coordenação para correr direito. A gente filmava o menino correndo e mostrava como estava se correndo. Com isso, corrigia-se o trabalho.

Então, tudo que for possível para se acelerar o processo de melhoramento na formação, é o ideal. Ter um banco de dados, com filmagens de treinos, ter informações online, para ter esse acompanhamento. A tecnologia já faz parte do nosso dia a dia e nós precisamos utilizá-la.

Acredito que, hoje em dia, ela é fundamental para a gente desenvolver a questão técnica. Só no olhômetro não dá mais. Tem muito clube que ainda está começando a introduzir a tecnologia nos departamentos de futebol.

Damiani foi preparador físico e gestor administrativo em clubes como Figueirense, Avaí, Joinville e Atlético-PR, além de um cargo como secretário de esportes da prefeitura de Florianópolis

Universidade do Futebol – A grande maioria dos jogadores da base não chegarão ao profissional por N motivos durante esta jornada. Como prepará-los ao longo do tempo para esta etapa importante em suas vidas?

Erasmo Damiani – Eu acho que tem muito jogador de futebol que é persistente. Às vezes, ele não dá certo aqui, vai para outro lugar, e depois muda de novo. E acaba dando certo. Mas, não existe uma preparação adequada para isso.

Por isso que eu falo: nós somos formadores. Nós temos de prepará-los mentalmente para o fracasso. Tem muito clube que trata os jogadores da base como mercadoria e falam ‘ah, obrigado, e tchau’. Eu acho que a conversa tem de mostrar a realidade.

Se você pegar um Neymar ou um Lucas, são casos que representam 0,001% de todos que chegam ao profissional. Então, avaliam-se os jovens atletas muito como mercadorias. Muitos poucos clubes têm esta preocupação. E tem também o lado dos jogadores. Um menino de 18 anos só pensa no momento, não planeja o futuro. Para eles, ter 40 anos é uma coisa muito distante. De uma forma geral, isso é, em partes, culpa dos clubes, mas, principalmente, da CBF.

O Bruno sentiu um pouco a pressão pós-Marcos, mas, continuamos formando bons goleiros nas categorias de base, aponta

Universidade do Futebol – Em sua opinião, qual o maior problema e a maior virtude do futebol brasileiro hoje em dia?

Erasmo Damiani – O maior problema é essa questão do calendário, ter uma Série A, B, C, e D, bem organizadas. E, para as categorias de base, deveria se abrir o leque e fazer uma coisa parecida. A base não tem uma sequência de calendário.

Já a maior virtude, apesar das dificuldades atuais de aparecer grandes jogadores atualmente no futebol brasileiro, ainda é o fato de sempre ter um bom jogador aparecendo em nosso pa&iacute

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