Universidade do Futebol

Entrevistas

18/04/2014

Erick Martins, coordenador e técnico do Paulínia

Atualmente, vemos alguns clubes brasileiros até com uma boa estrutura para as suas categorias de base. Com campos suficientes para a realização dos treinamentos, alojamentos, alimentação, vestiários, enfim, todas as condições básicas para um bom trabalho de formação.

No entanto, também percebemos que a quantidade (e a qualidade) dos jogadores formados nestes mesmos clubes não traduz os investimentos feitos neste processo de desenvolvimento de novos talentos. E por que isso acontece?

"Acho que todos os clubes formadores do país têm bem claro qual o tipo de produto deseja formar. O que tenho percebido, no entanto, é a dificuldade de como produzir este produto. Isso é um reflexo da falta de estruturação de um Projeto Político Pedagógico que contenha conteúdos e saberes essenciais inerentes a cada etapa de formação. Hoje em dia, com a presença da ciência no futebol, não dá mais para ouvir que ‘a safra está ruim’, ou ‘não há no mercado atletas de qualidade’. Estas premissas são um tapa na cara dos clubes formadores. Se não há jogador competente, também não há profissionais, técnicos, gestores, dirigentes competentes", responde Erick Martins, coordenador técnico e treinador do Paulínia Futebol Clube.

Com pouco mais de seis anos no clube do interior de São Paulo, o ainda jovem profissional passou por todos os cargos técnicos, desde treinador de goleiro da iniciação ao profissional, preparador físico masculino e feminino, treinador das equipes de base masculinas e adulto femininas, até chegar à função de coordenador técnico do departamento de formação de atletas.

E, a somatória destas experiências, fez Erick Martins entender os problemas dentro de campo também são frutos do mau planejamento estratégico coorporativo dos clubes brasileiros. Para ele, é preciso rever os conceitos de formação no Brasil.

"Penso que as metodologias de treinamentos aderidas no Brasil têm influencia negativa na inteligência do jogo. Se a inteligência significa a capacidade de resolver problemas, treinar sem contexto só a técnica, só tática ou só físico não permite reflexão e o jogo exige isso a todo instante. Assim, não dá para cobrar inteligência do jogador se o processo de formação no Brasil atualmente idealiza reprodutores e não pensadores", aponta.

Nesta entrevista exclusiva à Universidade do Futebol, Erick Martins ainda fala sobre quais as dificuldades nos clubes para se implantar trabalhos que tenham uma visão sistêmica e interdisciplinar e da sua preocupação com as características humanas dos jogadores no processo de formação. Confira a íntegra:

Universidade do Futebol – Como foi sua trajetória profissional até chegar ao Paulínia?

Erick Martins – Após interromper o sonho de tornar-se atleta de futebol profissional, me despertou a vontade de permanecer no esporte, por ser uma área motivadora e me que faz sentir realizado. Ao final desta etapa, surgiu à possibilidade de trabalhar em um projeto com foco no ensino do futebol, direcionado à iniciação e especialização, tendo como principal atuação a formação de goleiro.

Uma vez definido a área esportiva como foco atuação, percebi que necessitava potencializar meu trabalho, e consegui encontrar tudo isso na Educação Física. Ao passo que fui formando jogadores para os clubes da região meu trabalho foi reconhecido e a partir daí surgiu o convite para integrar o quadro de profissionais do Paulínia Futebol Clube em 2005. Com base em toda minha experiência, fiquei responsável pelo departamento de formação de goleiros incumbido em sistematizar os treinamentos da iniciação, especialização e rendimento.

O futebol pentacampeão mundial ainda tem bastantes lacunas que precisam ser melhoradas, e cabe a todos dirigentes, gestores, treinadores, jogadores, torcedores, órgãos públicos e privados a responsabilidade desta melhora, diz Erick Martins

Universidade do Futebol – Você traçou um plano de carreira? Esse processo de transição das funções relacionadas ao campo para o cargo administrativo acabou sendo natural? Quais foram as suas principais dificuldades?

Erick Martins – Minha busca por competência profissional na faculdade estava voltada para as áreas biológicas, um dos carros-chefes do curso de Educação Física. Pois era um assunto que me despertava muitas curiosidades já que tinha a intenção de tornar-se preparador físico como carreira profissional.

A partir deste momento, mergulhei a fundo na temática na busca de ampliar meus conhecimentos sobre o assunto em questão e, em paralelo a este período de graduação participava de um grupo de estudo realizado no Paulínia sob a coordenação do professor Alcides Scaglia. Naquela ocasião, o professor apresentava e discutia as novas tendências da pedagogia do esporte apoiada a outras teorias focadas na prática. Isso foi um aditivo que me fez traçar outros planos na carreira.

Por conta destes encontros, tomei a decisão de tornar-se treinador de futebol. A partir disso, percebi que precisava me atualizar constantemente, isso me exigiu buscar novos conhecimentos das vastas áreas que compões o processo de ensino e aprendizagem da modalidade. Entendendo esta necessidade, fui buscar na especialização conhecimentos mais aprofundados nas áreas da Fisiologia, Nutrição, Bioquímica e Treinamento Desportivo na Faculdade da Unicamp, em especial no Laboratório de Bioquímica do Exercício (LABEX).

Almejando o cargo de treinador precisava recorrer a outras teorias que auxiliasse minha competência já adquirida através da prática esportiva, fato que me fez investir em uma gama referencial teórico voltado as ciências humanas. Passado este período de preparação curricular, fui promovido ao cargo de treinador e membro do departamento de pedagogia com o objetivo de criar ferramentas pedagógicas às equipes técnicas a fim de potencializar o trabalho na formação dos atletas do clube.

Durante um período de seis anos no clube passei por todos os cargos técnicos, neste currículo está o de treinador de goleiro da iniciação ao profissional, preparador físico masculino e feminino, treinador das equipes de base masculinas e adulto femininas. E por conta de possuir experiência e conhecimento em todas estas áreas acabei sendo promovido ao cargo de coordenador técnico do departamento de formação de atletas.

Neste caso, penso ser este um processo natural por eu não ter pleiteado o cargo. E como já estava inserido no processo há seis anos, conhecia as principais lacunas do departamento, isso reduziu o tempo de diagnóstico facilitando a tomada de decisão, nesta avaliação identifiquei que o grande problema do processo estava na forma disciplinar de atuação de cada departamento.

Hoje em dia, este problema foi sanado a partir de estratégia de integração disciplinar dos departamentos envolvidos no clube visando reunir as possibilidades de produção de conhecimento, na busca de otimizar a formação dos atletas.

Já a maior virtude do futebol brasileiro, em minha opinião, é que possuímos uma das melhores matérias-primas do planeta, ávidas para a lapidação, aponta o profissional

Universidade do Futebol – Quais são as principais funções de coordenador técnico de um departamento de formação de atletas?

Erick Martins – Em minha opinião, a função do coordenador técnico é fazer uma inter-relação entre os departamentos do clube, na intenção de organizar, estruturar e operacionalizar todo o processo de formação de atletas. Não se restringindo a isso, hoje meu trabalho é regular e verificar se as ações pedagógicas e metodológicas das rotinas envolvidas na formação de atletas estão sendo cumpridas dentro dos objetivos estabelecidos pelo clube.

Para que isso ocorra com sucesso, busco harmonizar as expectativas da equipe técnica com os princípios e objetivos proposto no projeto de formação, com o fim de favorecer um trabalho em equipe implicando ao máximo todos os agentes educativos do clube no processo de formação global do jogador de futebol. Fazer cumprir o regulamento interno do clube, integrar ou dispensar atletas e relacionar-se com os pais também é papel do coordenador técnico.

Busco harmonizar as expectativas da equipe técnica com os princípios e objetivos proposto no projeto de formação, com o fim de favorecer um trabalho em equipe implicando ao máximo todos os agentes educativos do clube no processo de formação global do jogador de futebol, explica o coordenador técnico

Universidade do Futebol – Como se dá o processo de detecção, seleção e captação de talentos nas categorias de base do Paulínia?

Erick Martins – Por ser um clube que não adere alojamento, procuramos buscar jovens potenciais da região através de seletiva em todos os municípios no torno da cidade de Paulínia e também local, acompanhamos campeonatos e torneios visando os destaques e parceiros ligados ao futebol que indicam atletas ao clube.

Uma vez o atleta chegado ao clube por meio destes caminhos passará por um período de avaliação em diferentes etapas considerando a seguintes critérios: o nível da competência técnica considerando sua idade, como se relaciona com o grupo de atletas, se é introvertido, extrovertido, tímido ou agressivo, se é comprometimento e o quanto está disposto a encarar este ambiente.

Estes são alguns atributos que tem bastante peso na adesão de jovens atletas ao clube, uma vez aprovado pelo corpo técnico os atletas são encaminhado para avaliação com a psicóloga, nutricionista e assistente social. Nesta triagem, o atleta corre-se o risco de não ser aderido em virtude de problemas identificados pelos departamentos, como, por exemplo, não estar matriculado na escola. Passado por estas etapas o atleta integra a sua categoria e terá o direito de receber todos os benefícios inerentes a formação global oferecida pelo clube.

Outro fator está associado à discrepância de metodologias aderidas nas diferentes categorias da base do clube, inibindo a continuidade do processo, além da adesão de profissionais despreparados para atuar na formação somada à incongruência dos objetivos do clube. Todos estes fatores levantados geram impactos negativos na qualidade do produto final almejado, refletindo na relação custo- benefício limitando a sustentabilidade da organização, diz

Universidade do Futebol – Na sua avaliação, os clubes de formação do país, de maneira geral, sabem que tipo de atletas querem desenvolver? Explique, por favor.

Erick Martins – Acho que todos os clubes formadores do país têm bem claro qual o tipo de produto deseja formar. O que tenho percebido, no entanto, é a dificuldade de como produzir este produto. Em minha avaliação, isso é um reflexo da falta de estruturação de um Projeto Político Pedagógico que contenha conteúdos e saberes essenciais inerentes a cada etapa de formação no futebol.

Outro fator está associado à discrepância de metodologias aderidas nas diferentes categorias da base do clube, inibindo a continuidade do processo, além da adesão de profissionais despreparados para atuar na formação somada à incongruência dos objetivos do clube. Todos estes fatores levantados geram impactos negativos na qualidade do produto final almejado, refletindo na relação custo- benefício limitando a sustentabilidade da organização.

Hoje em dia, com a presença da ciência no futebol, não dá mais para ouvir que “a safra está ruim”, ou “não há no mercado atletas de qualidade”. Penso serem estas premissas um tapa na cara dos clubes formadores. Se não há jogador competente, também não há profissionais, técnicos, gestores, dirigentes competentes.

Por isso, entendo ser este um problema também de planejamento estratégico coorporativo do clube. Com base em tudo isso, em minha opinião é preciso rever os conceitos de formação no Brasil.

Como a formação de atletas é um dos principais objetivos do clube, entendemos que o departamento profissional deve cumprir o final de formação dos jovens atletas oriundos das categorias de base do Paulínia, alimentando-os com experiências esportivas e competitivas, afirma Erick Martins

Universidade do Futebol – De forma geral, quais as principais dificuldades que vocês veem hoje em dia para se implantar nos clubes de futebol trabalhos que tenham uma visão sistêmica e interdisciplinar?

Erick Martins – Vejo dois pontos determinantes que geram dificuldades aos clubes de implantar um trabalho sistêmico e interdisciplinar. O primeiro ponto está relacionado com a indefinição da missão e objetivo do clube, seguido de uma liderança ineficaz que permite aos departamentos tomar decisões incompatíveis às reais necessidades do clube.

O segundo ponto refere-se à dificuldade dos profissionais inseridos na organização romperem os velhos paradigmas estando indispostos aos novos desafios que lhe serão exigidos, além de sanar a cultura do imediatismo e desvincular-se do individualismo extremo. Cada um destes aspectos limita a funcionalidade das engrenagens de forma sincronizadas presentes na organização. Isso pode, por consequência, reduzir as chances de conquistas dos resultados de curto, médio e longo prazo no futebol.

Universidade do Futebol – Quais as vantagens que vocês veem na implantação de um trabalho com estas características?

Erick Martins – A otimização operacional entre os departamentos, facilitação na resolução de problemas de forma integrada e cumprimento dos objetivos do clube em níveis mais eficazes são as principais vantagens que vejo na adesão sistêmica e interdisciplinar dentro de um clube de futebol.

Entendemos ser extremamente importante ponderar estas características humanas dentro do processo de formação, pois é também dever do educador do clube auxiliar na formação global da criança e jovens adolescentes, diz o profissional do Paulínia

Universidade do Futebol – Como se dá a integração entre as equipes de base e o departamento de futebol profissional no Paulínia?

Erick Martins – Como a formação de atletas é um dos principais objetivos do clube, entendemos que o departamento profissional deve cumprir o final de formação dos jovens atletas oriundos das categorias de base do Paulínia, alimentando-os com experiências esportivas e competitivas.

E para cumprir esta etapa com sucesso, todos os membros da comissão técnica das categorias de base foram integrados a sub-departamentos inseridos no departamento profissional que abrange: análise de desempenho, scout técnico, análise de jogo, para levantar dados e informações de performance individual e coletiva a fim de compreender o produto final do clube.

Esta integração também visa facilitar o acesso e promoção dos atletas da base ao profissional, pois na medida em que houver necessidade de reposição no profissional recorreremos às comissões técnicas envolvidas.

Universidade do Futebol – Cada vez mais as grandes equipes se preocupam com as características humanas dos jogadores (perseverança, trabalho em equipe, responsabilidade, etc.). Como você e o Paulínia entendem estas questões na formação de novos futebolistas?

Erick Martins – Esta tem sido uma das preocupações do clube e também minha como coordenador. No primeiro contato com os atletas em avaliações, estes atributos já são considerados com relevante para análise. Entendemos ser extremamente importante ponderar estas características humanas dentro do processo de formação, pois é também dever do educador do clube auxiliar na formação global da criança e jovens adolescentes.

Para isso, envolvemos também os pais em reuniões pedagógicas na intenção de dar contribuições educativas e significativas, os certificando do qual seu papel no contexto esportivo do seu filho. E na intenção de potencializar estas exigências, o clube criou um regulamento institucional com regras e diretrizes ampliando os deveres e obrigações tanto dos atletas como dos pais.

Esta contribuição tem um impacto direto no produto que se quer formar, esperamos que quando um atleta for para um clube, além da competência técnica, se destaque pelas suas características humanas. Isso reflete no ser humano melhor e mundo melhor.

Uma vez aprovado pelo corpo técnico, os atletas são encaminhado para avaliação com a psicóloga, nutricionista e assistente social. Nesta triagem, o atleta corre-se o risco de não ser aderido em virtude de problemas identificados pelos departamentos, como, por exemplo, não estar matriculado na escola, revela Martins

Universidade do Futebol – O que você acha do nível técnico e de inteligência de jogo do jogador brasileiro atualmente?

Erick Martins – Referindo-se a sua relação com a bola, acho o jogador brasileiro bem desenvolvido, isso é um reflexo da sua própria cultura e seus métodos de treinamentos voltados para ampliação da bagagem motora. Em contrapartida, isso tem limitado o desenvolvimento da criatividade, espontaneidade e compreensão do jogo dos jogadores brasileiros.

Portanto, penso que as metodologias de treinamentos aderidas no Brasil têm influência negativa na inteligência do jogo. Se a inteligência significa a capacidade de resolver problemas, treinar sem contexto só a técnica, só tática ou só físico não permite reflexão e o jogo exige isso a todo instante. Assim, não dá para cobrar inteligência do jogador se o processo de formação no Brasil atualmente idealiza reprodutores e não pensadores.

Quando tomei a decisão de tornar-se treinador de futebol, percebi que precisava me atualizar constantemente, isso me exigiu buscar novos conhecimentos das vastas áreas que compões o processo de ensino e aprendizagem da modalidade, lembra

Universidade do Futebol – Para você, qual a maior virtude e qual o principal defeito do futebol brasileiro?

Erick Martins – A maior virtude em minha opinião é que possuímos uma das melhores matérias-primas do planeta, ávidas para a lapidação.

Já os maiores defeitos estão ligados aos seguintes aspectos: desorganização do calendário anual competitivo no país, fator que gera dificuldades dos clubes na contratação, preparação e busca de investimentos; falta de planejamento estratégico dos clubes visto pela quebra de receita refletindo na falta de pagamento dos atletas elevando suas dívidas e problemas trabalhistas; péssimas estruturas para as práticas de rendimento com gramados inadequados e estádios desconfortáveis para apreciação do evento esportivo; e metodologias arcaicas de treinamento que contribuem com a queda de qualidade do jogo.

Tudo isso leva a migração dos atletas do Brasil a buscar melhores condições de trabalho e financeira em outros países. Portanto, minha conclusão é que o futebol pentacampeão mundial ainda tem bastantes lacunas que precisam ser melhoradas, e cabe a todos dirigentes, gestores, treinadores, jogadores, torcedores, órgãos públicos e privados a responsabilidade desta melhora.

 

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