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04/11/2012

Especial: a importância da formação do treinador de futebol – parte II

Como vimos na primeira parte deste especial, o cargo de treinador de futebol exige, nos dias atuais, capacidades e qualidades muito diferentes de décadas atrás, em alguns países (principalmente do continente europeu) isto já parece ser consenso.

Confira a opinião de José Mourinho, treinador da equipe principal do Real Madrid, em entrevista a TV portuguesa:
 

Mourinho fala sobre as novas demandas do trabalho dos treinadores no século XXI

 

Na Europa, os bons resultados esportivos, como os que a Espanha vem alcançando nos últimos anos, têm uma conexão direta com uma formação de qualidade para os treinadores, a fim de que estes possam realizar bons trabalhos independentemente dos níveis em que atuam.

Na parte II do especial sobre a formação de treinadores de futebol, iremos abordar as diretrizes da Uefa para a formação de treinadores e algumas peculiaridades de importantes federações filiadas a ela.

Para o dirigente Espanhol Ginés Melendez, a entidade máxima do futebol europeu é parte fundamental no processo de avanço do futebol daquela região, pois o programa de formação de treinadores, a convenção de treinadores e outras iniciativas desenvolvidas pelo órgão ajudaram a elevar os padrões de qualidade da modalidade em todo o continente. Meléndez parece ter razão.

A formação destes gestores técnicos encontra-se no topo da lista de prioridades técnicas da entidade presidida por Michel Platini e também das federações nacionais de toda a Europa.

O ponto de vista global é simples e direto: treinadores bem preparados irão contribuir para a formação de melhores futebolistas, com benefícios evidentes para o desenvolvimento da modalidade.

Porém, o processo de implementação desse novo paradigma é trabalhoso e exige um esforço constante, tanto da Uefa, como das federações afiliadas, que não apenas mudaram as leis regulamentadoras da profissão de treinador de futebol, mas têm a obrigação de fiscalizar tal mudança de cultura no país. Para se ter uma noção deste processo basta olhar para o tempo de intervalo entre a primeira reunião para discutir a necessidade de formação dos treinadores e o reconhecimento mútuo de habilitações de treinadores da Uefa.


 

Contudo, hoje a conscientização dos profissionais do futebol em relação à necessidade de formação já é uma realidade no continente europeu, como relata Patrick Bonie, em entrevista ao site da entidade:

“Ao longo da última década, reestruturamos a nossa área de formação de treinadores, estabelecendo uma nova filosofia e criando um ambiente de aprendizagem adequado. No passado, os ex-jogadores encaravam com algum receio os cursos de treinadores. Mas o esquema de licenciamento da Uefa constituiu um enorme ímpeto e creio que os antigos jogadores perceberam que, sem um curso de treinadores, ficam um pouco aquém a nível de organização, planeamento, gestão de jogadores e aspectos básicos como estruturação e controle dos programas de treino. Apesar de ter tido a felicidade de realizar o meu curso de treinador enquanto ainda jogava, na Escócia, percebi depressa que não se tratavam de áreas fáceis de dominar”.

Nessa esteira, a Uefa criou dois elementos significativos: o modelo de formação de treinadores, com o intuito de direcionar as formações oferecidas pelas federações filiadas à Uefa, e o Painel Jira (nome em homenagem ao ex-treinador Tcheco Václav Jira, falecido em 1995), comissão que visa discutir questões específicas à formação do treinador e do futebol europeu. Esse grupo trabalha de forma constante e em conjunto com outros setores em ações que visam melhorar diversos aspectos da formação, além de promoverem diversos encontros, simpósios e publicações como a revista The Technician, direcionada aos treinadores, além de muitas outras ações.

Como o próprio nome diz, as diretrizes de formação da Uefa têm o intuito de direcionar o trabalho das 53 federações filiadas; além disso, a uniformidade criada possibilita que os treinadores possam trabalhar em outros países do continente com o título que obtêm em um curso de uma federação específica.

Ao longo do especial, apresentaremos algumas características peculiares ao que é estabelecido em algumas das principais escolas europeias.

A estrutura organizada pela Uefa possui três níveis: Uefa B Licence, Uefa A Licence e Uefa Pro Licence, de acordo com a organização apresentada abaixo. Porém, o Painel Jira trabalha constantemente para inserir outras formações a estes níveis, como, por exemplo, formação para treinadores de goleiros.

As federações, entretanto, costumam dentro dessa organização dividir a formação delas em níveis (três ou quatro, geralmente); peguemos aqui o exemplo dos órgãos espanhol e alemão:

A representação do atual futebol campeão europeu e mundial divide-se em três níveis: 1) Treinador de futebol de base; 2) Treinador de futebol regional; 3) Treinador de futebol nacional. Cada um destes apresenta basicamente quatro blocos de ensino:

 

Essa organização permite não apenas que os treinadores passem por mais de 1.800 horas de conteúdo teórico-prático, como também vivenciem diferentes contextos que vão desde categorias de base até o alto rendimento. Além disso, esse tipo de organização favorece que o aspirante a treinador trace um “plano de carreira”, o que o fará dedicar-se à profissão de treinador de futebol. Cada nível pode custa um valor entre 1.000,00 e 1.200,00 euros ao candidato.

Vejamos por exemplo, a opinião de Lars Lagerbäck, antigo treinador da Suécia que atualmente ocupa o cargo na seleção da Islândia sobre a importância de se formar bons treinadores por intermédio de programas qualificados e organizados:


“Não importa se você está treinando na Espanha, na Suécia, ou se está à frente de uma equipe de categoria de base ou de um clube de pequena dimensão. Com a minha experiência, posso dizer que um treinador com formação de qualidade pode provocar grandes diferenças para a obtenção de resultados, na transformação de jovens jogadores ou em futebolistas de excelência”, afirma Lars.

Já a Alemanha, possui em sua organização também uma pirâmide, na qual a base do conteúdo é ofertada pela internet, de modo online, facilitando o acesso de treinadores independentemente do local em que estes trabalham.

Além disso, a federação alemã tem parceria com as federações regionais, que aplicam os cursos e fiscalizam a atuação dos treinadores em território nacional, facilitando, assim, a divulgação dos conhecimentos e o controle da atuação do treinador.

Veja abaixo uma adaptação feita pela Universidade do Futebol da estrutura de qualificação germânica:

 

Percebe-se uma estrutura semelhante entre a federação espanhola e a alemã, na qual os conteúdos sofrem uma progressão de acordo com o nível de competitividade a que o treinador estará habilitado para enfrentar.

Na sequência, elencamos alguns exemplos e depoimentos de como a Uefa e o Painel Jira se esforçam para desenvolver a formação de treinadores em todo o território europeu.


Painel Jira e o desenvolvimento da formação de treinadores

Como referido desde o início do especial, em linhas gerais, a Uefa compreende que, para se formar jogadores extraordinários e possibilitar que estes demonstrem ao máximo o seu talento, necessitam-se de treinadores igualmente extraordinários, mas, para a Uefa, treinadores com tais capacidades não surgem ao acaso: “São, acima de tudo, produto de um sistema educacional de alta qualidade”, crê o organismo europeu.

Nesse sentido, durante as reuniões do Painel Jira, alguns convidados juntam-se a estes especialistas com o objetivo de assegurar que sejam mantidos os mais altos padrões na tentativa de formar treinadores de top.

O painel apoia os trabalhos do Comitê de Desenvolvimento e Assistência Técnica da Uefa e, mais especificamente, oferece suporte às suas 53 federações filiadas, aos clubes e a outras partes interessadas na formação de treinadores. Contribui também para a aplicação e implementação da Convenção de Reconhecimento Mútuo das Qualificações de Treinadores, com o objetivo de proteger a profissão de treinador de futebol e facilitar a livre circulação destes profissionais dentro da Europa.

O diretor técnico da Federação Tcheca de Futebol (CMFS), Dušan Fitzel, que integra o Painel Jira, relata ao site da Uefa a experiência: “Fazer parte de um grupo de treinadores, diretores técnicos e formadores de tamanha qualidade é uma excelente oportunidade para adquirir mais conhecimentos, partilhar experiências e ouvir opiniões de diferentes países e federações”, afirmou. “Estou certo de que a nossa federação irá beneficiar bastante com esta experiência, tal como eu me beneficiarei, em nível pessoal”.

Peter Rudbaek, diretor técnico da Federação Dinamarquesa de Futebol (DBU), vê a troca de informações entre as federações como fundamental para o desenvolvimento do futebol. Segundo ele, é necessário estabelecer padrões elevados comuns e agir de acordo com eles. “Estes padrões comuns constituem uma excelente oportunidade de inspiração e parceria entre países”, admitiu.

Com as 53 federações nacionais da Europa integrando a Convenção de Treinadores da Uefa, cada instituição de formação de treinadores mostra-se empenhada em atualizar permanentemente os seus cursos e utilizar as mais modernas tecnologias nos processos de aprendizagem.

Acima de tudo, as exigências da Uefa estimulam os atuais níveis de qualidade, encorajando os países a irem ao encontro dos padrões internacionais dada a obrigação dos treinadores (que queiram trabalhar em território estrangeiro) possuírem licenças válidas.

Nico Romeijn, diretor da formação de treinadores da Federação Holandesa de Futebol (KNVB), uma das escolas mais tradicionais deste esporte, acredita que o ambiente futebolístico evoluiu nos últimos dez anos, e os treinadores precisam estar equipados para dominarem três grandes áreas: 1) Análise dos jogos, 2) Realização de treinos proveitosos e 3) Gestão da equipe e dos seus elementos individuais.


Neste constante esforço de melhora, já se discute há alguns anos as estruturas e metodologias relacionadas com cursos que levam à licença A-jovem, também ofertada pela Uefa. De acordo com Romeijn, as estruturas holandesas permitem aos alunos combinar o trabalho prático nos clubes com reuniões residenciais e tarefas específicas: “As tarefas são baseadas no tipo de problemas que é provável virem a encontrar como treinadores, também encorajamos os estudantes a refletirem sobre os seus desempenhos e a traçarem o caminho que querem seguir”, explicou.

Por fim, é interessante observarmos a análise de Antonin Plachy, diretor da formação de treinadores da Federação Tcheca de Futebol (CMFS), sobre o contexto educacional atualmente em vigor naquele país:

“É preciso combinar uma atmosfera relaxada entre os alunos com as exigências ao mais alto nível. É importante criar um ambiente no qual os candidatos a treinadores possam atingir todo o seu potencial, sentindo-se inspirados para resolverem os problemas da sua própria maneira, ao mesmo tempo em que se concentram no desenvolvimento de jogadores criativos e talentosos”.

Agora, e o cenário brasileiro? O país pentacampeão mundial e que não ocupa mais o topo do ranking de seleções da Fifa vem desenvolvendo qual tipo de trabalho? Nossos treinadores e gestores de campo estão sendo formados em qual sistema? Será que existe uma organização que vá de acordo com uma lógica complexa, e considere as novas tendências do treinamento esportivo aplicado ao futebol e as diversas capacidades necessárias para exercer essa função?

É o que iremos debater na próxima parte deste especial.

*Recomendamos que assita a dois vídeos retirados do site da Uefa sobre a formação de treinadores na Holanda, país reconhecido por apresentar treinadores destacados como os casos de Rinus Michels, Louis van Gaal, Dick Advocaat, Guus Hiddink, Frank Rijkaard, entre outros:
 

 

Parte 2
 

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