Universidade do Futebol

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06/11/2012

Especial: a importância da formação do treinador de futebol – parte IV

A Universidade do Futebol convidou alguns profissionais brasileiros ligados ao ambiente profissional para responder a algumas questões. A intenção era saber a avaliação deles a respeito da formação dos treinadores do país e como poderíamos melhorar o nível em nossos campos.

Entrevistamos Caio Zanardi, diretor técnico do Al Nasr Club; Eduardo Barros, auxiliar técnico do Grêmio Novorizontino e colunista da Universidade do Futebol; Leandro Zago, treinador da equipe sub-13 do Corinthians; Rodrigo Bellão, treinador da equipe sub-15 da Portuguesa; Paulo Calçade, jornalista dos canais ESPN e professor da EEFE-USP; Ricardo Drubscky, Coordenador do Curso de Formação de Treinadores da CBF-PUC-Minas, integrante da comissão técnica principal do Atlético-PR e colunista especial da Universidade do Futebol; Vinícius Eutrópio, treinador com passagens pelo futebol português; Juliano Fernandes da Silva, professor da disciplina de metodologia do futebol na Universidade do Estado de Santa Catarina (CEFID-UDESC), Carlos Rogério Thiengo, analista de desempenho das categorias de base do São Paulo e mestre em Formação profissional e campo de trabalho na Educação Física pela UNESP campus Rio claro e Milton Leite, narrador do Sportv.

A todos, fizemos as mesmas questões:

1) Em sua opinião, qual é a importância do treinador brasileiro receber uma formação especializada para exercer sua funções no futebol?

2) Você considera fundamental que o treinador para exercer bem suas funções tenha tido uma experiência anterior como jogador de futebol?

3) Quais são as principais características ou qualidades necessárias a um bom treinador de futebol em seu ponto de vista?

4) Quais as disciplinas que um treinador deveria dominar para ser mais eficaz no comando de uma equipe? Que matérias poderiam fazer parte de um currículo de formação para treinadores?

5) Você acredita que os treinadores europeus ou que trabalham na comunidade européia são mais bem preparados que os treinadores brasileiros?

6) Que sugestões você daria para melhorar a formação de nossos treinadores?

Confira, em duas partes, o que cada um deles respondeu:

Caio Zanardi, diretor técnico do Al Nasr Club

1) É importantíssimo o treinador se preparar para atuar na função. Não podemos admitir que o atleta encerre a carreira e comece a atuar como treinador.

2) Claro que a experiência como atleta vai lhe ajudar, mas não é necessário. O treinador precisar ter conhecimento em todas as áreas para poder entender e desenvolver seu trabalho.

3) Conhecimento da parte física, técnica, tática e psicológica e saber ligar os quatro pontos. Na Inglaterra, ele é chamado de “Four Corners”.

4) Como eu disse anteriormente, dentro dos quatro pontos, você precisa detalhar cada área.

5) Os treinadores europeus têm a formação específica como treinador. Existe uma formação, uma sequência, algo que no Brasil não há. Se tivéssemos um curso de formação de treinadores reconhecido pela Fifa, eu acredito que poderíamos crescer muito na formação.

6) Nível 1 (iniciante) – Escola de Futebol
Nível 2 (intermediário) – Categorias de base até o sub-17
Nível 3 (avançado) – Sub 20 e segunda divisão
Nível 4 (Pro) – Primeira divisão
Início a partir de 2017. Quem já atua como treinador, deverá fazer o nível 3 e 4, reconhecido pela Fifa.

Eduardo Barros, auxiliar técnico do Grêmio Novorizontino e colunista da Universidade do Futebol.

1) A importância se dá devido às particularidades da profissão e suas inúmeras competências e habilidades necessárias para uma boa atuação prática. Sendo assim, uma especialização na modalidade que contenha conteúdos de qualidade devidamente sistematizados permite a aquisição de conhecimentos que fundamentem a intervenção do treinador.

2) Não. A totalidade das competências de um treinador de futebol é distinta das competências de um jogador, portanto, para você ser um gestor de campo não é necessário ter como pré-requisito ser ex-atleta. É fundamental, porém, que o aspirante a treinador busque as competências e habilidades que geralmente os jogadores adquirem por terem vivenciado o meio, tais como: networking, conhecimento do ambiente, gestão de pessoas e conhecimento sobre o jogo.

3) Em minha opinião, um bom treinador deve ser um estudioso do jogo e do comportamento humano. Deve privilegiar sobremaneira o trabalho em equipe, além de ser um líder positivo, resiliente, íntegro e ético.
 

Veja aqui um vídeo retirado do programa “Juca Entrevista”, em que Manuel Sérgio, filósofo português e colunista especial da Universidade do Futebol fala sobre a importância de se compreender o comportamento humano para o sucesso esportivo:
 

 

4) Acredito que não basta dominar as disciplinas isoladamente e sim a interação entre elas, numa prática diária de crescimento e aperfeiçoamento pessoal e profissional. Inúmeras disciplinas e matérias devem fazer parte desta interação. Destaco: Gestão de Pessoas (liderança, técnicas de comunicação, comportamento humano, gestão do sucesso, gestão do fracasso, gestão de conflitos); Teoria da Complexidade (pensamento sistêmico, sistemas); Futebol (aspectos táticos, técnicos e físicos); Teoria dos Jogos (o que é Jogo, Lógica do Jogo, ambiente de jogo, estado de jogo); Psicologia; Pedagogia; Análise de Jogo. Penso que o estágio deve ser uma das matérias do currículo de formação de treinadores para agregar valor ao mesmo.

5) Desconheço como se dá a formação do treinador na Europa, porém, pelo nível de jogo apresentado pelas grandes equipes do futebol deste continente, acredito que sim. Ao analisarmos e compararmos a manifestação dos grandes princípios de jogo das equipes europeias com as nacionais fica evidente nossa inferioridade e distanciamento. Creio que este distanciamento é construído no dia-a-dia do treinamento em que os treinadores europeus estão melhores preparados que os brasileiros para intervirem.

6) Acredito que modificações efetivas na formação do treinador dependem, inicialmente, de iniciativas mais evidentes do nível hierárquico mais alto do nosso futebol, ou seja, da CBF. Penso que cabe a entidade, ou a algum outro órgão com sua chancela, ser mais rigorosa com os pré-requisitos para o exercício da função de treinador e sistematizar um curso de capacitação que realmente atenda às exigências do futebol moderno. Como ambiente de aprendizagem, a prática do conceito de Universidade Corporativa nos clubes de futebol pode contribuir na frequente reciclagem dos treinadores.

Leandro Zago, treinador da equipe sub-13 do Corinthians

1) Ao se apropriar de conhecimentos adequados, o treinador pode potencializar o desenvolvimento dos atletas. Todo atleta vai ficar mais forte, mais rápido, mais experiente. O treinador deve potencializar o processo e, no caso das equipes que possuem uma filosofia de formação, direcioná-lo (o atleta) para tal.

2) Fundamental não, porém também acredito que essa experiência pode contribuir muito para o trabalho do treinador desde que ele seja capaz de entendê-las e adequá-las a essa nova carreira. Olhar para o fenômeno como treinador é diferente de olhá-lo como jogador, e aí qualquer experiência prévia (principalmente como atleta profissional) pode contribuir desde que o novo treinador seja inteligente o suficiente para perceber isso. Só a carreira como atleta não é suficiente, senão também devo pensar que um pedreiro com 20 anos de carreira está preparado para ser engenheiro.

3) O entendimento do futebol como um fenômeno complexo. Conseguir dominar uma grande gama de conhecimentos que interferem na performance e as relações entre eles. A boa gestão de pessoas é um fator fundamental também.

4) Todas que interfiram na performance. As teorias da complexidade apontam bons caminhos para a aquisição desses conhecimentos. Quanto ao currículo, depende de questões culturais. Primeiro temos que definir qual o treinador que queremos construir dentro dessa formação.


 

5) Em uma grande parte das situações sim. Mas voltamos a questão cultural. Qual o valor atribuído ao desenvolvimento humano em nossa sociedade (brasileira)? Pode um treinador que não se preocupa com o próprio desenvolvimento pessoal contribuir com o crescimento pessoal / profissional de potenciais atletas profissionais ? Precisamos refletir sobre isso.

6) Pediria que respondessem com sinceridade a seguinte questão: “Pode um treinador que não está comprometido com o crescimento pessoal / profissional contínuo cobrar dos seus atletas uma atitude positiva de compromisso com o trabalho de desenvolvimento deles?”.

Rodrigo Bellão, treinador da equipe sub-15 da Portuguesa

1) Para mim, receber uma formação especializada em treinamento no futebol é de extrema importância, pois existem muitos treinadores, no Brasil, que ainda atuam somente nos saberes da experiência prática. Na minha opinião, a vivência é muito importante para atuar neste cargo, pois não tem como estar habilitado para trabalhar em um alto nível sem que haja um certo tempo de experiência. No entanto, os treinadores que já possuem experiência devem entender que se eles realizarem cursos e estudarem em uma formação específica da sua área, eles podem melhorar ainda mais as suas idéias e as suas metodologias de trabalho, que muito provavelmente irão ajudá-lo em seu crescimento como profissional. Vamos fazer um paralelo com a realidade fora dos “muros” que cercam o mundo do esporte.
Atualmente, não há mais condições de se conseguir um bom emprego sem um suporte teórico prévio. Da mesma maneira que a experiência da vivencia também é exigida, tanto que antes da formação acadêmica completa são exigidos os estágios, para haver um ganho, mesmo que seja mínimo, de vivência. Se o atual mercado de trabalho fora do futebol exige isso, por que no futebol não podemos exigir?

2) Eu não acho que seja fundamental para o treinador ter sido um atleta para conseguir exercer bem as suas funções. Acho que isso serve para somar com seu aprendizado durante a sua parte da vivência, mas não algo que seja imprescindível. Eu acredito que o treinador deve ter tido pelo menos uma mínima experiência com o futebol, vivência por dentro do mundo futebolístico. Pois dificilmente uma pessoa que nunca participou de nada no futebol, que não tem a mínima ideia do que é ser um profissional do futebol, irá conseguir exercer a função de treinador, pois este cargo exige alguma experiência em quesitos como comando de grupo, tomar decisões importantes, dentre outras.

Hoje temos exemplos de treinadores que não foram atletas, como Mourinho e Villas-Boas. Eu mesmo não fui atleta. Por isso digo, que talvez eu enfrente algumas dificuldades, mas não é por isso que eu não consigo exercer a minha função de maneira qualificada.

3) Na minha opinião, o treinador deve ter uma boa noção em treinamento no futebol, que é básico. Mas, o mais importante é possuir uma boa gestão de pessoas para o rendimento, assim como possuir noções de psicologia para enfrentar os problemas que surgem no dia a dia do cargo.

4) Eu acredito que os treinadores deveriam ter noções de: Análise de jogo; Teoria do treinamento esportivo; Gestão de pessoas; Psicologia esportiva; Teorias sobre treinamentos técnicos e táticos no futebol.

5) Sim, sem dúvida. Pois lá na Europa há mais condições de se atualizar e estudar, pois em livrarias comuns é possível encontrar dezenas de livros que dizem a respeito de ciência do futebol. A literatura esportiva é muito mais completa lá na Europa do que aqui. Sem contar que com isso, o interesse dos treinadores em estudar e se reciclar é maior do que aqui.

6) Eu sou a favor de ser criado um curso de formação para treinadores aqui no Brasil, assim como é feito em alguns países da Europa.Este curso poderia ser dividido em etapas, onde se iniciaria em um nível 1 para trabalhar com crianças até chegar em um nível 10, que lhe capacitaria para trabalhar com adultos, por exemplo.

Estes cursos devem ser curtos porém intensos, para que seja possível que os treinadores consigam conciliar suas tarefas com o período de cursos.

Paulo Calçade, jornalista dos canais ESPN e professor da EEFE-USP

1) Devido o volume de informações disponíveis, com poder de interferir no resultado de uma partida, hoje é preciso mais do que a experiência do campo. Conhecer mais sobre os fatores que afetam o rendimento é fundamental, é estratégico e decisivo na preparação de um grupo nem sempre homogêneo. É importante também estar preparado para se relacionar com todas o conhecimento à disposição nas principais comissões técnicas. E quando não houver estrutura, como proceder. Sem conhecimento, não funciona.

2) É muito importante, mas o futebol tem mostrado nas últimas décadas que esse não é um fator limitador. É mais importante um treinador ter uma formação especializada do que ter jogado. O melhor dos mundo é somar as duas partes.

3) Conhecimento técnico e saber trabalhar em equipe, reconhecer a importância de todas as partes na formação do todo. A partir disso, desenvolver o seu sistema de trabalho, seu repertório de treinamentos e estar aberto para aprender sempre. Conversando com os treinadores, percebo o interesse de alguns quando o assunto é mais técnico e traz um conhecimento quem eles não dominam, como também é possível identificar o tipo que não sabe e não se interesse por achar balela qualquer conversa mais apurada.

4) Bases científicas do treinamento: preparação física, técnica, tática e psicológica. Seria importante entender também que nem sempre as respostas estão nas disciplinas mais técnicas, o futebol precisa de um sentido, uma identidade, fazer parte de uma história, que pode ser a de uma instituição ou a de um país. O ponto de partida pode ser filosófico.

Veja o vídeo de José Mourinho evidenciando o papel da filosofia durante seu amadurecimento profissional, corroborando com a visão de Calçade.

 


 

5) As diferenças são enormes, aparentemente os europeus são e serão sempre melhores. O problema é que os nossos treinadores cresceram difundindo suas dificuldades. Geralmente elas são citadas como um fator limitador do conhecimento. É uma desculpa para não tentar avançar, dar um salto de qualidade. A grande diferença é que por aqui qualquer tipo de especialização, seja nas universidades ou nos cursos de futebol, não torna um treinador melhor que outro para os olhos do mercado. Já na Europa, com cada vez mais gente participando dos cursos das federações, sobretudo para a obtenção de licenças, quem não as possui pode ser preterido. Eles estão na frente em função disso.

6) Primeiro seria importante entender o processo formativo do futebol, da base ao profissional, e definir quem pode participar de cada etapa. Seria uma revolução, uma pancadaria generalizada. Pelo menos na base, o cuidado deveria ser maior, pois no profissional quem não tem conteúdo dificilmente consegue se estabelecer. Ou vai ficar no esquema mambembe.

A quarta parte deste especial termina aqui! Finalizaremos na quinta parte com opiniões de outros especialistas e estudiosos do esporte. Não perca! 

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