Universidade do Futebol

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07/11/2012

Especial: a importância de um currículo do treinador de futebol – parte final

Depois da participação dos cinco primeiros entrevistados, falamos ainda com dois treinadores, um analista de desempenho de categorias de base, um professor acadêmico e um jornalista esportivo. Confira o que eles pensam e propõem a partir de cada uma das seguintes questões:

1) Em sua opinião, qual é a importância do treinador brasileiro receber uma formação especializada para exercer sua funções no futebol?

2) Você considera fundamental que o treinador para exercer bem suas funções tenha tido uma experiência anterior como jogador de futebol?

3) Quais são as principais características ou qualidades necessárias a um bom treinador de futebol em seu ponto de vista?

4) Quais as disciplinas que um treinador deveria dominar para ser mais eficaz no comando de uma equipe? Que matérias poderiam fazer parte de um currículo de formação para treinadores?

5) Você acredita que os treinadores europeus ou que trabalham na comunidade européia são mais bem preparados que os treinadores brasileiros?

6) Que sugestões você daria para melhorar a formação de nossos treinadores?


Ricardo Drubscky, Treinador e Coordenador do Curso de Formação de Treinadores da CBF-PUC-Minas

1) As atribuições do treinador são em grande parte técnicas e muito específicas. Portanto, para desempenhar tais funções, o pretendente deve estar preparado. A atividade prática acrescenta competências ao conhecimento teórico absorvido em instruções sistematizadas. Teoria e prática se completam em qualquer área do conhecimento. No futebol brasileiro a formação dos treinadores é quase totalmente prática por falta de uma escola que os oriente. Assim como é feito com as outras classes profissionais, os treinadores necessitam das escolas para obterem a base da capacitação profissional. Para entender e trabalhar o jogo e tudo o que está à sua volta é preciso dominar áreas do conhecimento científico esportivo já consagrado no âmbito acadêmico.
 

2) Não. E tenho a obrigação de explicar bem esta resposta, pois sou técnico há muitos anos sem ser ter sido jogador, apesar de ter querido ser. O fato de termos grandes treinadores espalhados pelo mundo, que nunca foram jogadores, já seria suficiente para dar razão à minha resposta. Mas a principal justificativa que costumo empregar, quando sou questionado, é que as competências exigidas para o exercício das duas profissões são muito distintas. Em qualquer área de atuação, para um profissional se dar bem tem de haver interesse, atributos pessoais, estudo, treinamento e tempo de atuação para que ele adquira e ou aprimore as competências próprias do ofício. Assim acontece com o cantor, o médico, o próprio jogador e, porque não dizer, com o treinador. O indivíduo que tem interesse pelo futebol, tem perfil de líder e “educador”, é estudioso da matéria e está no meio praticando o ofício pelo tempo necessário ao desenvolvimento das competências, poderá vir a ser um ótimo treinador. Tendo sido jogador ou não. Existem muitos e bons exemplos espalhados pelo mundo. Acho a discussão desnecessária, mas reafirmo: a competência é a grande mestra nesta causa.

“No Brasil, especificamente, o que nos falta é a capacidade de avaliar tais competências, pois a maneira como julgamos o trabalho dos nossos treinadores é injusta e totalmente sem critérios técnicos. Quem contrata e demite os treinadores, na maioria das vezes, desconhece e ou negligencia o que representa competência nos atributos profissionais dos treinadores.”

3) Alguma coisa já está sendo respondida nas questões anteriores. Mas, resumidamente, sem deixar de abranger a grande gama das necessidades, posso dizer que para ser treinador é preciso:
a) Conhecer o jogo e saber o que quer dele – competência técnica;
b) Ser um bom comunicador – quem se comunica bem exerce liderança;
c) Dominar a arte do treinamento – transformar suas idéias em prática de campo;
d) Aprimorar todas as habilidades que se encaixam as necessidades de um líder.

4) Esta pergunta está respondida satisfatoriamente no item anterior. Além do mais este é um tema para ser discutido em colegiado. Não gostaria de ser um único responsável por essa atribuição.

5) As grandes escolas europeias de futebol preparam melhor seus treinadores. Mesmo assim, a pergunta é difícil de responder, pois no Brasil temos autodidatas de muito valor e que não perdem em qualidade para ótimos treinadores europeus. A diferença para o treinador brasileiro está principalmente na desorganização técnico-administrativa em que são formados os nossos profissionais. Já somos rejeitados no “velho mundo” pelo simples fato de sermos brasileiros e pela fama de má gestão que carrega o nosso futebol como um todo. Estão nos dando “chutes no traseiro” não por acaso! 

Por não termos uma escola brasileira sistematizada e constituída, ficamos meio perdidos, cada treinador procurando o seu caminho por conta própria. Como resultado, estamos “inventando a roda” a todo momento. Cada treinador possui suas verdades e acha que sabe mais que todos os outros. Não percebem que existe um saber universal para todas as profissões, e que a capacidade individual de apreender este conteúdo é o que fará diferenças perante os seus pares. No entanto, é preciso, primeiro, dominar este saber universal.

Ministro cursos para treinadores e ou candidatos à profissão há muitos anos. É comum perceber o desconhecimento dos alunos quanto à existência dos “princípios do jogo”, passo elementar para entender o jogo. O jogo de futebol possui algumas regras (não tem nada a ver com as 17 regras da Fifa), responsáveis pela sua dinâmica. Como atacar, como defender, como respeitar a essência do jogo, dentre muitos outros conceitos táticos, que determinam um modo eficiente e eficaz de se jogar. É como numa receita de bolo: não se mistura tudo sem ciência. Experimente fazer isso para ver se dá certo! Assim também acontece com o jogo.

Não se joga a bola pra frente, ansiosamente, como vem fazendo o jogo brasileiro, achando que esta é uma forma inteligente de atacar. Os princípios do jogo orientam a criação das táticas e consequentemente dos treinamentos. Numa escola de treinadores, a primeira coisa que vamos aprender é a “receita do jogo”, para a partir daí começar a entendê-lo e saber como construí-lo. 

6) A CBF, por determinação da Fifa, está há três anos desenvolvendo o “Sistema de Qualificação de Treinadores do Futebol Brasileiro”. Em parceria com a PUC-Minas, vem sendo realizado um curso de treinadores em quatro níveis – Escolinhas; Categorias de Base; Profissionais e Especialização. Outras Federações da América do Sul estão partindo para o mesmo caminho.

Ao meu ver, a existência deste curso é o primeiro passo à criação da verdadeira “escola brasileira de futebol”. A partir dela unifica-se conteúdo, metodologia e linguagem especializada para o futebol em todos os recantos nacionais. Costumo dizer aos alunos que esta é uma célula que não pode morrer, pois sem ela vamos ficar perambulando desorganizadamente com o nosso jogo, apesar das ótimas individualidades que temos.


Juliano Fernandes da Silva, professor da disciplina de metodologia do futebol na Universidade do Estado de Santa Catarina (CEFID-UDESC)

1) Na minha opinião o curso de Educação Física e os cursos de treinadores oferecidos atualmente não conseguem fornecer uma gama de conhecimentos que é necessária para se formar um treinador. Desta forma, acredito que precisamos ter rapidamente a categorização dos treinadores por diferentes níveis. Não pode um recém formado ou um ex jogador virar treinador de uma hora para a outra. Tem que haver especialização para a função.

2) Não é necessário que tenha sido jogador profissional, mas o fato de ter competido no processo formal do futebol (categorias de base) poderá ser muito útil, desde que acompanhado de uma boa formação. No Brasil os jogadores se lesionam muito, acredito que além da parte tática os treinadores tem que entender muito mais de fisiologia para dosar seus treinamentos.

3) Dominar: Relação interpessoal; Conhecimento tático e técnico elevado; Bom conhecimento sobre a parte física e psicológica do grupo de atletas; Conhecimento da gestão do clube.
Ser: Sério (caráter), líder, autocrítico, trabalhador, ter um modelo de jogo definido para a equipe.

4) Aspectos táticos, demanda de esforço do futebol, aspectos psicológicos, ensino e aperfeiçoamento da técnica, gestão de pessoas.

5) Nunca tive contatos com treinadores europeus. Nos próximos meses viajarei e poderei ter uma opinião mais sólida. O que posso dizer é que a formação dos nossos treinadores é muito defasada.

6) Ter o curso nacional de formação de treinadores, em que todos os postulantes ao cargo de treinador de futebol deveriam fazer. Criar o nivelamento dos profissionais, onde os iniciantes passariam por escalões inferiores antes de assumirem equipes profissionais.

Vinícius Eutrópio, treinador de futebol.

1) Fundamental, pois, assim ele receberá informações pontuais que irão potencializá-lo, ajudando-o na sua essência e direcionar melhor suas capacidades.

2) Não, mas, acredito que por ter sido um jogador de futebol, ele possa ter uma visão diferente de quem não vivenciou,porém, ele precisa agregar novos conhecimentos em outras áreas.

 

3) Inicialmente ser um modelo a seus jogadores, com conhecimento técnico pratico, teórico pratico, com comando e respeito adquirido pelo seu dia-a-dia e não por imposição. Ter um domínio básico de todas as áreas que envolvem o futebol: planejamento, psicológico, fisiológico, preparação desportiva, nutrição, etc.

4) Oratória e psicologia, didática de trabalhos, fisiologia, scout de jogo (adversário/equipe).

5) Eles não são mais capacitados, mas, reafirmando sua pergunta, são mais preparados, pois, passaram estágios (etapas) e informações obrigatórias para capacitá-los.

6) Níveis e procedimentos, estabelecer critérios e regras para os técnicos, além de um sindicato com liberdade e autonomia de atuação diretamente ligado à CBF Buscar sempre agregar informações e conhecimento através de cursos, estágios e outros. É basicamente isso.

 

Milton Leite, narrador do Sportv

1) Acredito que para exercer qualquer profissão ou função, a pessoa deve ter uma formação específica. Que pode variar desde um curso de uma orientação de meia hora até um curso superior, pós-graduação, etc. No caso do técnico de futebol não é diferente. Não basta conhecer de futebol para ser treinador.

2) Não. Acredito que a experiência como jogador seja boa, mas não a classifico como fundamental. Em minha opinião é possível ser bom treinador sem ter sido jogador profissional.

3) Uma das características mais importantes, acredito, seja ser um bom gestor de pessoas. Você ter um grupo heterogêneo de 30, 40 pessoas sob o seu comando e ter que deixar todos satisfeitos, motivados, pensando mais no grupo do que em si mesmo não é nada fácil. Ter boa capacidade de formação de grupos, não só levando em consideração a parte técnica, mas também a psicológica, capacidade de contribuir com o grupo, liderança… Além de ter de ter os conhecimentos necessários de como organizar treinamentos, fazê-los fazer refletir nos jogos. Claro que conhecer futebol, conhecer o mercado de jogadores e estratégias de jogo também é essencial.
 


 
4) Gestão de pessoas, psicologia, liderança.
 
5) Acredito que um dos grandes diferenciais é o fato de que estes profissionais recebem boa formação educacional desde cedo, quando crianças. Aqui no Brasil, em geral, a primeira coisa que alguém faz é abandonar a escola para ser jogador de futebol. Quando a carreira acaba e a pessoa resolve ser treinadora, o prejuízo já é muito grande – e a maioria demonstra pouco interesse em recuperar o tempo perdido.

6) Primeiramente, o Brasil deveria criar uma nova cultura, não transformando esses técnicos em super-homens. Boa parte da culpa dessa situação é da mídia, que costuma dar mais espaço para eles do que para quem joga.
 

Carlos Rogério Thiengo, analista de desempenho das categorias de base do São Paulo e mestre em Formação Profissional em Educação Física.

1) É de extrema importância o treinador possuir uma formação adequada para exercer suas funções no futebol. No entanto, esta formação deverá atender a complexidade que envolve o futebol. Pois, de acordo com o professor Manuel Sérgio, “Quem sabe muito só sobre futebol, pouco sabe sobre futebol”. Caso uma formação assuma um caráter estritamente especializado (centrado exclusivamente no futebol), esta se torna insuficiente para a intervenção na modalidade.

Deste modo advogo por um modelo de formação dos profissionais para a modalidade, que deverá possuir uma amplitude e profundidade suficiente, para possibilitar uma compreensão ampla do fenômeno, porém sem perder a sua especificidade.

2) Não. Pois os significados da palavra fundamental são: que serve de fundamento, essencial, principal. Deste modo não considero a experiência como futebolista aspecto essencial para intervenção na modalidade. Porém, o conhecimento adquirido durante a atuação como futebolista, quando submetido a um processo de reflexão adequado, é de muito valor para a intervenção como treinador, especialmente no que se refere ao conhecimento de como ocorre às relações entre as pessoas neste espaço.

3) Acredito que o conjunto de características que o treinador deve possuir para ser considerado um bom profissional é bem amplo e podem ser agrupadas em três grandes grupos: os saberes da esfera conceitual (saber sobre), da esfera procedimental (saber fazer) e da esfera atitudinal (saber ser). No primeiro grupo temos o saberes conceituais sobre os aspectos relacionados à atividade profissional, como por exemplo: as definições de modelo de jogo, princípios táticos, capacidades motoras, entre outras. Na esfera procedimental o treinador deve saber planejar, realizar e avaliar o processo de treinamento e as competições. Já, no grupo dos saberes atitudinais temos o conjunto de características relacionadas ao comportamento, entre eles se destacam a liderança e o controle emocional. Sob meu ponto de vista os três grupos de saberes acima são primordiais para a intervenção dos treinadores. Porém, são os saberes da esfera atitudinal que parecem diferenciar os treinadores considerados de excelência no cenário internacional.

Veja o vídeo em que Carlos Rogério Thiengo explica o tema do seu mestrado, que aborda questões sobre a formação profissional dos profissionais do futebol:
 

 

4) A meu ver este é o ponto que necessitamos da maior modificação na maneira de preparar os profissionais para a intervenção profissional no campo esportivo. Pois, com comentado anteriormente, o futebol requer que seus profissionais conseguiam “enxergá-lo” a partir das lentes da complexidade. A partir disso surge uma questão: Como podemos desejar que os treinadores realizem suas intervenções alicerçadas no paradigma da complexidade, quando sua formação é pautada no modelo disciplinar (o qual apresenta os conhecimentos fragmentados e descontextualizados)? Sendo assim, antes de discutirmos os conteúdos que deverão fazer da “grade curricular” para os cursos de formação de treinadores acredito ser relevante primeiramente discutir o modelo de tais cursos.

Neste sentido penso que poderíamos experimentar um modelo de abordagem baseada nos “problemas” da intervenção profissional, ou seja, a partir dos saberes procedimentais teríamos a construção dos demais saberes necessários à formação dos treinadores. Penso que esta abordagem possibilitaria com maior facilidade a constituição do saber reflexivo, fundamental para os profissionais que atuam em um contexto de competitivo em constante modificação.

Além disso, acredito ser de fundamental importância que os treinadores sejam submetidos concomitantemente ao curso de formação a um programa de acompanhamento psicoterápico para desenvolver principalmente a inteligência emocional em situações de grande pressão, que interfere imensamente nas decisões tomadas, principalmente no ambiente do futebol de alto rendimento.

5) Sim. Pois, primeiramente, o nível educacional europeu é maior que o do Brasil. Além disso, os treinadores dos países onde o futebol é organizado pela Uefa, os cursos de formação de treinadores está consolidado há muitos anos e com uma carga horária significativamente maior dos realizados no território brasileiro.

Carlos Rogério Thiengo leciona aula na Escola Brasileira de Formação de Treinadores

6) Primeiramente que as instituições responsáveis pela organização do futebol em âmbito nacional e estadual (confederação e federações) assumam o papel de oferecer a formação destinada aos interessados em atuar na modalidade em seus diferentes níveis, de forma articulada e contínua.

Além disso, temos a necessidade da aproximação dos diversos segmentos: universo acadêmico, os profissionais que realizam a intervenção profissional no futebol e as instituições organizadoras da modalidade, de forma a proporcionar o desenvolvimento de pesquisas voltadas aos aspectos relacionados à atuação dos profissionais na modalidade afim proporcionar a sustentação científica necessária aos cursos de formação profissional oferecidos pela confederação e federação. 

Comentários

  1. Paulo Henrique Rodrigues disse:

    Bom dia, me chamo Paulo Henrique Rodrigues, hoje sou treinador num centro de treinamento com garotos 99/2000/2001/2002. Fiz o Curso de Treinador na ABTF e no Sindicato dos Treinadores de Futebol. Apesar de não ter sido jogador profissional no Brasil, integrei a Seleção da Ilha da Madeira em Portugal e tenho um enorme conhecimento, técnico e social dentro deste universo. Tenho o CREF, na prática do Voleibol, apesar de não ter nível superior, sempre estive envolvido na prática de esportes. Gostaria de uma ajuda de vocês, para entender qual curso hoje me daria um maior conhecimento na minha profissão.

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