Universidade do Futebol

Cespef

30/01/2008

Estudo quantitativo da ação física velocidade em atletas juniores de futebol

Resumo

O objetivo deste estudo foi analisar quantitativamente a ação física velocidade em atletas de futebol, durante as partidas oficiais de futebol. Métodos e Materiais: o estudo foi realizado com atletas da categoria juniores do Paraná Clube, na faixa etária compreendida entre 18 e 20 anos.

Foram analisadas um total de 50 (cinquenta) scouts físicos, sendo 10 (dez) scouts para cada posição – zagueiros, laterais, volantes, meias e atacantes em 13 (treze) jogos da XV Copa Tribuna de Futebol Juniores. A ação física velocidade foi enquadrada como: corridas rápidas, arranques e piques, com e/ou sem bola. Resultados: Verificou-se que a ação física velocidade corresponde em média a 14,2% das ações físicas totais durante uma partida de futebol. O restante das ações que consiste em andar, trotar, deslocamento lateral, deslocamento de costas e saltos, correspondem aos outros 85,8%.

O número de vezes que o atleta realiza a ação em velocidade foi determinado através da média aritmética por partida de acordo com cada posição específica. Portanto, os atacantes são os que mais vezes atuam em velocidade; com uma quantidade um pouco menor de corridas em velocidade vem os zagueiros e os laterais e por último ficam os meias e os volantes, respectivamente.

Com relação a distância percorrida em cada tiro de velocidade, estes dificilmente ultrapassavam 30 metros. Entretanto, torna-se necessário a realização de novos estudos voltados à ação física velocidade para detectar se realmente ocorrem estas diferenças quantitativas para propiciar um melhor planejamento dos treinamentos de forma condizente com a realidade de jogo.

* Palavras-chave: Ação Física Velocidade, Quantificação, Futebol Júnior, Posições.

Introdução

O profissional encarregado de estruturar o treinamento dos atletas de futebol deve ter conhecimento dos aspectos teóricos relativos ao desenvolvimento das capacidades físicas para o melhor desempenho durante a performance competitiva. Um dos principais motivos de se determinar com exatidão como ocorre a estrutura da atividade desportiva é propiciar ao profissional a aproximação do treinamento ao jogo de futebol. O conhecimento de como de manifestam as ações físicas competitivas é hoje um dos principais pontos de estudo dentro do treinamento desportivo. Conhecer a estrutura competitiva e saber quais são os seus aspectos quantitativos leva-nos a uma especificidade muito maior dentro do programa de treinamento.

O futebol se classifica entre as modalidades coletivas complexas onde as ações motoras não se repetem em intervalos regulares, tornando difícil a criação de treinamentos que reproduzam com exatidão as exigências da atividade competitiva.
Cientes da necessidade da quantificação exata da carga de competição, os preparadores físicos passaram a buscar meios para determinar quais as distâncias totais percorridas e em que intensidade eram realizadas. Viu-se ainda a necessidade de quantificar quantas vezes cada ação se repetia durante uma partida e como a velocidade é considerada uma das principais ou a principal capacidade física para o atleta de futebol, esta ação motora foi estudada mais afundo neste artigo.

Durante uma partida de profissionais de alto nível, um jogador realiza em torno de 1100 mudanças de velocidade, ou seja, o atleta passa do estado de repouso a correr em alta velocidade, depois caminha, logo após corre moderadamente e novamente dá um pique curto em velocidade e assim por diante. Tudo isso custa energia, que é fornecida tanto pelo metabolismo aeróbio (oxidativo), como pelo anaeróbio (sistema ATP-CP e glicólise anaeróbia). O mais impressionante é que toda esta alternância de velocidade ocorre diversas vezes em menos de dois minutos aproximadamente BANGSBO (1997). é importantíssimo ressaltar que segundo FOX (1991, p. 207), “as fontes energéticas para determinada atividade dependem do tempo de execução”. No caso do futebol que é um desporto intermitente (intervalado), o tempo iniciará e cessará de acordo com a duração de cada execução dos movimentos. Ou seja, dificilmente um jogador de futebol corre continuamente por mais de dois minutos, o que representa muito na hora de elaborar seu programa de treinamento FOX (1991).

O autor ainda relata que as contribuições anaeróbias de ATP-CP e AL representam cerca de aproximadamente 60% da obtenção de energia durante o jogo, ao passo que as contribuições anaeróbias-aeróbias AL e O2 contribuem cerca de 20% da obtenção de energia, sobrando em torno de 20% para as condições aeróbias O2 de obtenção de energia.

Para GODIK (1996), é fundamental a importância dos mecanismos anaeróbicos glicolíticos, de maneira que durante o tempo de jogo o jogador realiza em torno de 100 arranques com máxima velocidade em curtas distâncias, com o objetivo único de vencer o adversário no tempo e no espaço. “Se o nível da resistência de velocidade dos jogadores for alta, então a velocidade destes arranques no início, no meio e no fim dos períodos de jogo serão mais ou menos iguais. Se isso não ocorrer, então ele diminuirá” GODIK (1996, p.123).

De acordo com MC´ARDLE (1992, p. 73), “todos os esportes exigem a utilização dos fosfatos de alta energia, porém muitas atividades contam quase exclusivamente com esse meio para a transferência de energia”. É difícil imaginar, por exemplo, um pique no futebol sem a capacidade de gerar energia rapidamente a partir dos fosfogênios armazenados, acrescenta. Segundo FOX (1991), mesmo que fosse possível consumir oxigênio em um alto ritmo que pudesse atender toda a demanda energética, seriam necessários dois a três minutos de exercício para aumentar o consumo de oxigênio até o nível exigido. A razão para esse aumento retardado no consumo de oxigênio corresponde ao tempo que terá de transcorrer para se manifestarem as adaptações bioquímicas e fisiológicas.

Portanto, sempre que houver variação de intensidades num mesmo exercício ou ao sair do repouso para o exercício, o oxigênio fica temporariamente abaixo do exigido para suprir todo o ATP, gerando assim débito de oxigênio. Quando ocorre esse débito, o sistema do fosfogênio e a glicólise anaeróbia serão responsáveis diretos pelo fornecimento da maior parte do ATP exigido.

Além do débito de oxigênio, o nível de ácido lático também constitui um excelente indicador do sistema energético que está sendo utilizado predominantemente durante o exercício. GOLOMAZOV & SHIRVA (1997), destacam que a capacidade aeróbia tem uma contribuição importante, mas muito pequena para o futebol se não for associada a capacidade especial de trabalho (treinos específicos).

Portanto, o atleta de futebol necessita de uma proporção na evolução de todos os sistemas energéticos, pois a desproporção destes sistemas durante o treinamento das qualidades físicas com freqüência conduz a traumas (lesões), influenciando negativamente na condição geral dos jogadores.

Grandes índices de velocidade e de força, fornecidos pelo metabolismo anaeróbio, são necessários para o atleta de futebol suportar as altas cargas que uma partida exige. De acordo com esta idéia, BANGSBO (1997), expõe que os jogadores da 1ª divisão executam corridas com maior velocidade que os da 2ª divisão, e isto é extremamente importantes, pois estes atletas superam seus adversários devido a capacidade de realizar exercícios de altíssima intensidade durante uma partida.
Neste caso, o sistema ATP-CP e o sistema anaeróbio lático (metabolismo anaeróbio) estão em pleno funcionamento. Isto demonstra a fundamental importância das capacidades anaeróbias de obtenção de energia para o jogador de futebol.

Este conceito vem se reforçando por observações feitas em partidas de nível internacional, que contém como características básicas, períodos de exercícios de baixa intensidade alternados com períodos de intensidade muito alta.

Destaca-se também a grande importância do desenvolvimento do sistema músculoesquelético. GOLOMAZOV & SHIRVA (1997, p. 06), comentam que “no futebol, talvez como em nenhuma outra modalidade desportiva, o trem inferior (membros inferiores), além de ser o responsável pelo deslocamento dos atletas é também responsável pela qualidade dos movimentos técnicos”.

Pelas análises feitas em atletas de futebol separando-os por posição, pode-se notar que as exigências físicas são praticamente as mesmas para todos os jogadores, com exceção do goleiro.

Na realidade, o que diferencia entre os jogadores é a distância total percorrida durante o jogo.

BANGSBO (1997) destaca que em um estudo realizado com jogadores dinamarqueses de elite, mediu-se a distância percorrida durante o jogo, cada atleta em sua posição. As posições analisadas foram, zagueiros, meio-campistas e atacantes. Concluiu-se neste estudo que os zagueiros e os atacantes percorrem aproximadamente a mesma distância, mas essa distância foi significativamente menor que a percorrida pelos jogadores de meio campo. Um dos motivos pelo qual os jogadores de meio campo correm mais se deve ao fato de que esta posição cobre uma grande fatia do gramado, exigindo uma maior movimentação durante a partida. O curioso é que não existe diferença significativa entre as posições com relação a distância percorrida em alta intensidade. A diferença está nas corridas de baixa velocidade (trote), onde os jogadores de meio-campo corriam com maior freqüência e duração, do que defensores e atacantes, gerando conseqüentemente uma maior distância percorrida durante o jogo.

Um detalhe a ser levado em consideração é que na pesquisa anterior os laterais foram considerados jogadores de defesa. Mas sabe-se que atualmente ou pelo menos no futebol brasileiro, os laterais já viraram alas (direito e esquerdo), e como conseqüência percorrem em média distâncias maiores que os jogadores de defesa e os de ataque, aproximando-se dos jogadores de meio campo.

Material e método

O estudo foi realizado com atletas da categoria juniores do Paraná Clube, na faixa etária compreendida entre 18 e 20 anos. Foram analisadas um total de 50 (cinqüenta) scouts físicos, sendo 10 (dez) scouts para cada posição – zagueiros, laterais, volantes, meias e atacantes em 13 (treze) jogos da XV Copa Tribuna de Futebol Juniores. A ação física velocidade foi enquadrada como: corridas rápidas, arranques e piques, com e/ou sem bola. O scout físico consistia em anotar a quantidade de vezes que o atleta deslocava em velocidade no primeiro e segundo tempo de jogo, sendo que este tempo era dividido de 10 em 10 minutos até aos 90 minutos, pois dessa forma também pode-se analisar a curva de performance de cada atleta individualmente caso seja necessário.

Resultados e discussão

Verificou-se que a ação física velocidade corresponde em média a 14,2% das ações físicas totais durante uma partida de futebol. O restante das ações que consiste em andar, trotar, deslocamento lateral, deslocamento de costas e saltos, correspondem aos outros 85,8%. Portanto, os atacantes são os que mais vezes atuam em velocidade; com uma quantidade um pouco menor de corridas em velocidade vem os zagueiros e os laterais e por último ficam os meias e os volantes, respectivamente. Com relação a distância percorrida em cada tiro de velocidade, estes dificilmente ultrapassavam 30 metros.

Atacantes

Através das observações efetuadas durante os jogos, os atacantes mantiveram um equilíbrio entre as porcentagens de deslocamento em corridas rápidas, piques e arranques, classificadas como velocidade, durante toda a partida. Os atacantes foram os que mais vezes deslocaram em velocidade, perfazendo um total médio por jogo de 62,6 vezes. É importante salientar que grande parte das vezes que o atleta correu em velocidade, esta não ultrapassou 30 metros. Estes resultados vem de encontro ao que nos mostra a literatura.

Zagueiros

Observou-se que os esforços dos zagueiros durante o jogo são extremamente intensos e curtos. A não ser em situações em que o atleta tenha que ir ao ataque (como num escanteio), o seu retorno a zaga deve ser efetuado de maneira rápida e ele acaba realizando uma corrida em velocidade maior que 30 metros. De acordo com os dados obtidos, os zagueiros realizam em média durante uma partida 50,7 vezes as corridas em velocidade.

Laterais

Os laterais modernos caracterizam-se pelo maior volume de deslocamentos, pois na atualidade do futebol brasileiro eles são bastante exigidos como homens de ala, principalmente no esquema 3-5-2. Em relação a quantidade de vezes que os laterais deslocaram em velocidade em média durante os jogos, os resultados fogem do que a literatura nos apresenta. Os resultados obtidos pelos scouts nos mostra que os laterais realizam em média 51,8 vezes as corridas em velocidade por jogo, ao passo que a literatura nos apresenta uma média de 67 vezes por jogo as execuções de corridas em velocidade.

Volantes

Os volantes, que são os jogadores de meio mais defensivos apresentaram resultados em se tratando de corridas rápidas uma quantidade de deslocamentos bem inferior às outras posições, talvez pelo fato deles serem os jogadores que fortalecem o sistema defensivo e ainda tem a incumbência de sair para o jogo e desta maneira eles tem uma exigência diferenciada, tendo que trotar mais do que correr em velocidade durante o jogo. Os resultados obtidos pelos scouts nos mostra que os volantes realizam corridas em velocidade apenas 44,0 vezes por jogo em média, corroborando com a literatura que nos apresenta praticamente esta mesma média para os volantes.

Meias

Como pode-se observar através dos dados obtidos, os meias realizam esforços rápidos em distâncias que geralmente não ultrapassam os 10 mts. Só que em contrapartida, eles são os que mais correm lentamente no campo e provavelmente por este motivo é que precisem sempre executar tiros mais curtos de velocidade ao invés de longos, pois estão sempre mais perto dos lances ( disputas de bola ). O scoult nos mostra que 45,1 vezes os meias correm rapidamente em média por jogo. É uma quantidade bem menor de corridas rápidas comparada aos atacantes provavelmente pelo fato de os meias trotarem muito mais vezes durantes o jogo e como consequência percorrerem uma distância total muito maior durante cada partida. A tabela abaixo mostra as comparações entre as posições de acordo com a quantidade de vezes que cada atleta realizou em média por jogo a ação física velocidade:

Médias Por Jogo – Corridas em velocidade
Zagueiros – 50,7 vezes – Laterais – 51,8 vezes
Volantes – 44,0 vezes – Meias – 45,1 vezes
Atacantes – 62,6 vezes

Conclusão

No futebol, os registros das atividades são importantes para a obtenção de parâmetros, com o fim de avaliar as exigências físicas durante uma partida. Contudo, os futebolistas não precisam de treinamento para andar ou correr lentamente. Por outro lado, são necessárias grandes quantidades de treinamento em alta intensidade e curta duração repetidas vezes com períodos de intervalos extremamente curtos, o que requer esforços que são supridos energeticamente pelo metabolismo anaeróbio. Essas intensidades elevadas de exercício mantida durante os noventa minutos, impõe fortes demandas sobre o sistema de transporte de oxigênio e sobre a capacidade de resistência da musculatura esquelética.

As ações físicas gerais e mais especificamente a velocidade que foi estudada neste artigo, evidenciou que existem variações quantitativas importantes que devem ser analisadas com muito critério quando o profissional da área for elaborar seu programa de treinos de velocidade.

Estas informações são de vital importância para a elaboração e estruturação dos treinamentos desde que correlacionadas com os resultados quantitativos obtidos através de artigos como este.

Entretanto, torna-se necessário a realização de novos estudos voltados a ação física velocidade para detectar se realmente ocorrem estas diferenças quantitativas para propiciar um melhor planejamento dos treinamentos de forma condizente com a realidade de jogo.

* Fernando Tonet é coordenador do Curso de Pós-Graduação em Futebol e Professor do Curso de Graduação em Educação Física (UNIANDRADE). Rodrigo Filoco de Rezende é preparador físico da equipe juniores do Paraná Clube.

Ambos são membros do CESPEF – Centro de Estudos e Pesquisas em Futebol.

Referências Bibliográficas

BANGSBO, J. Entreinamiento de la condición física en el fútbol. Barcelona: Editorial Paidotribo,
1997.
FOX, Edward L.; BOWERS, Richard W.; FOSS, Merle L. Bases fisiológicas da educação física e
dos desportos. 4 ed, Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1991.
GODIK, M. Alexandrovic. Futebol: preparação dos futebolistas de alto nível. Londrina: Grupo
Palestra Sport, 1996.
GOLOMAZOV, S. ; SHIRVA, B. Futebol: preparação física. Londrina: Lazer e Esporte, 1997.
MC´ARDLE, Willian D.; KATCH, Franck I.; KATCH, Victor L. Fisiologia do exercício: energia,
nutrição e desempenho humano. 3ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1992.

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