Universidade do Futebol

Entrevistas

31/03/2006

Eurico Brás, especialista em tecnologia

 

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Brás: “Estados Unidos podem ser

uma potência no futebol”

 

 

 

O árbitro Cléber Wellington Abade e seus auxiliares apresentaram uma inovação no clássico entre Palmeiras e Corinthians, disputado no último domingo. O trio responsável pela arbitragem utilizou um sistema de comunicação entre eles, mas anulou um gol polêmico do alvinegro Tevez e transformou a tecnologia em assunto principal da partida. Apesar da experiência malfadada, a evolução do futebol ainda tem ferrenhos defensores no Brasil.

 

Um deles é Eurico Brás, diretor-executivo da BrasFigueiredo. Atualmente, o executivo está envolvido em projetos pioneiros no ambiente Microsoft.NET 2.0 e como aplicar melhor a tecnologia no esporte, sobretudo no futebol.

 

Brás, um dos principais Microsoft Partners do Brasil, trabalha com sistemas Microsoft desde 1985, sendo um dos principais responsáveis pela divulgação e adoção da plataforma em diversas empresas mundiais.

 

Nesta entrevista exclusiva, o diretor da BrasFigueiredo critica a postura reticente que a Fifa adota quanto ao uso de tecnologia para solucionar dúvidas na arbitragem de partidas de futebol.

 

Além disso, Brás garante que a tecnologia vai determinar os países que serão potências no futebol daqui a alguns anos. Por isso, segundo o executivo, o Brasil precisa mudar de postura ou pode até perder sua hegemonia.

 

Cidade do Futebol – A tecnologia pode ajudar o futebol só na preparação dos atletas ou há outras áreas de atuação na modalidade?

Eurico Brás – Existem três âmbitos de atuação para os sistemas tecnológicos. Eles podem aparecer na preparação dos atletas, na administração dos clubes e para a evolução do próprio jogo. O problema é que o uso deles precisa ser bem feito, não como aconteceu no jogo entre Palmeiras e Corinthians*. A tecnologia serve para ajudar e pode solucionar muita coisa no esporte, mas depende de como ela é usada.

 

(*) No clássico entre Palmeiras e Corinthians, disputado no dia 26 de março, o trio de arbitragem utilizou um sistema de comunicação entre eles. Aos 30 minutos do primeiro tempo, o argentino Carlitos Tevez, do time alvinegro, recebeu lançamento na esquerda, driblou Leonardo Silva para o meio e completou para o gol. No entanto, o árbitro Cléber Wellington Abade foi avisado pela auxiliar Ana Paula Oliveira que o outro auxiliar, Evandro Luís Silveira, havia apontado uma infração do atacante antes de dominar a bola. Com isso, o gol foi anulado.

 

Cidade do Futebol – Mas se a tecnologia pode ser tão benéfica para o desenvolvimento do esporte, porque a Fifa sempre foi tão reticente quanto ao advento de novas técnicas no futebol?

Eurico Brás – Alguns sujeitos menos preparados ainda contestam a viabilidade da tecnologia para melhorar o futebol, mas eu discordo totalmente. Acho que esse veto à tecnologia é uma forma de justificar os desmandos de toda a ordem que acontecem no futebol. Não quero acusar ninguém porque não tenho como provar nada, mas é claro que a margem de manobra diminui profundamente quando existe um envolvimento com a tecnologia.

 

Cidade do Futebol -O ex-presidente da Fifa João Havelange dizia que o uso da tecnologia para solucionar dúvidas quanto à arbitragem acabaria com a graça do futebol…

Eurico Brás – O que acaba com a graça é uma equipe se preparar a semana inteira, chegar à partida em um estado superior ao do adversário, fazer tudo certo para conseguir a vitória e ser prejudicada. Isso precisa acabar. O ideal é que as decisões acontecessem apenas dentro de campo e hoje nós temos condições de garantir isso.

 

Cidade do Futebol – Como?

Eurico Brás – Dentro de campo, por exemplo, é possível colocar um chip na bola. Isso resolveria as dúvidas se ela ultrapassou ou não a linha. E para o juiz não ter que consultar nada, poderia haver um painel que se acenderia em cima do gol ou na mão do quarto árbitro. O quarto árbitro é um cara que fica lá na mesa e não faz nada. Além disso, ele poderia controlar um sistema de imagens para não termos mais erros com impedimentos. Isso não levaria tempo algum e acabaria com as polêmicas. Para completar, cada jogador poderia ter uma câmera focada nele. Seriam 22 imagens, e quando um jogador reclamasse de uma agressão, o árbitro poderia consultar os vídeos de quem bateu e de quem apanhou. Para não ficar parando o jogo toda hora, ele poderia expulsar o atleta em caso de simulação de agressão.

 

Cidade do Futebol – Atualmente, alguns países já usam o videoteipe para punir atletas depois das partidas. Essa também não é uma boa saída?

Eurico Brás – É legal, mas não resolve nada. Não adianta só você prender o assassino que matou alguém. Você precisa é buscar meios para impedir o assassino de matar. Só assim é que você resolve a situação. O ideal é que os erros de árbitros não aconteçam, e não que alguém tenha que corrigir isso depois.

 

Cidade do Futebol – E fora de campo, como a tecnologia pode ser útil ao futebol?

Eurico Brás – Já existe um uso disso no sentido de preparação dos atletas. O investimento é direcionado, principalmente, à compra de equipamentos. É o caso do Reffis, do São Paulo. Além disso, há a tecnologia aplicada à medicina. Mas isso acontece, principalmente, por conta de investimento das próprias clínicas e não dos clubes. Os clubes ainda estão descobrindo que podem dosar a alimentação de cada atleta de acordo com a complexidade física dele ou com a posição. Assim, é possível aumentar o desempenho. O problema é que a tecnologia é usada atualmente no Brasil para coletar dados, mas nem sempre esses dados têm alguma utilidade prática. Falta aplicação de tudo isso.

 

Cidade do Futebol – A falta de investimento em tecnologia também não reflete a situação financeira ruim das equipes brasileiras?

Eurico Brás – Aí você entra em um dilema complicado. As pessoas não investem em organização porque não têm dinheiro ou não têm dinheiro por que não investem em organização? Ainda existem clubes que guardam todas as informações em fichários e não usam nenhum computador. É por isso que acontecem coisas como jogador atuar sem ter regularizado a documentação. Isso é inadmissível. Estou falando só de coisas básicas aqui, mas a tecnologia é algo multidisciplinar e os clubes deveriam entender isso. Só que o tratamento não é esse.

 

Cidade do Futebol – Ainda existe muito preconceito quanto ao uso de tecnologia no esporte?

Eurico Brás – Infelizmente, muitos dos profissionais de primeira linha no futebol ainda não usam a tecnologia. Os treinadores, por exemplo, podem ser divididos em três categorias: os que são contra a evolução tecnológica, os que gostam e não sabem usar e os que gostam e sabem usar. E o último grupo é a minoria absoluta. Muitos ainda acham que são auto-suficientes dentro do esporte e isso reflete a postura do povo brasileiro. Somos um país que não está acostumado com planejamento. É por isso que, em alguns anos, podemos até perder a nossa hegemonia no futebol. Nós temos muita confiança no aparecimento de um Robinho a cada esquina, mas os outros países investem é na formação de equipes competitivas e fisicamente mais desenvolvidas.

 

Cidade do Futebol – Por falar em treinadores, alguns reclamaram de forma contundente sobre as novas bolas e chuteiras que são produzidas. A maior crítica deles é que não existe o acompanhamento de alguém ligado aos clubes no desenvolvimento desses produtos. E quanto aos softwares de tecnologia, isso acontece também?

Eurico Brás – A relação não é bem assim. Os técnicos e jogadores não dão opiniões no desenvolvimento de coisas, mas também não estão dispostos a opinar. É muito fácil reclamar depois, mas são eles que não querem conversar e buscar uma outra solução para os produtos. Nós temos que desenvolver as coisas para eles, e é claro que ficaria mais fácil se soubéssemos exatamente o que eles querem.

 

Cidade do Futebol – As empresas de tecnologia já conseguem algum retorno com o investimento no futebol?

Eurico Brás – Ainda não. O futebol é um mercado para o futuro, mas não dá lucro algum ainda no Brasil. A situação é diferente na Inglaterra, que é um dos maiores investidores em tecnologia. Nos Estados Unidos, a tecnologia também aparece em qualquer esporte. Esses países tendem a crescer muito nos próximos anos.

 

Cidade do Futebol – Só Estados Unidos e Inglaterra investem de forma pesada na tecnologia voltada para o esporte?

Eurico Brás – Há os países orientais também. Coréia e Japão, que têm mão-de-obra e vendem tecnologia para os outros países do mundo, já começaram a apostar na aplicação desse conhecimento para o esporte.

 

Cidade do Futebol – Então, a tendência é que esses países ganhem espaço rapidamente no futebol mundial?

Eurico Brás – Sim, isso é claro. Se os Estados Unidos resolvessem levar o futebol a sério, por exemplo, seriam uma potência. A tecnologia pode fazer muita diferença no esporte. Se a seleção brasileira de 1970 jogasse hoje, não conseguiria ganhar de um time de terceira divisão. Aquele time era fantástico, mas precisaria fazer uns 20 gols nos primeiros 30 minutos para poder administrar a vantagem depois. A preparação física de hoje é muito superior a que existia naquela época.

 

31/3/2006

 

 

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