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05/08/2019

Excertos sobre o futebol feminino

O primeiro time feminino da história. (Reprodução: Divulgação)

 

Creio que quaisquer análises dessa modalidade, perpassam pelo esforço de cada um de nós em lançarmos mão das visões sociológica, antropológica e até mesmo ontológica que influencia o ser humano. Ademais, também não podemos desprezar o aspecto moral e cultural da sociedade brasileira, posto que eles consubstanciam nossos usos e costumes, sendo, como tal, elementos retro alimentadores para a manutenção do status quo vigente.

Esse estado é algo imanente à condição de desigualdade histórica do tratamento dispensado a homens e mulheres, o que torna compreensível, embora não mais aceitável, as diferenças entre aqueles e estas. Portanto, não me parece que seja o futebol ou mesmo que dele derive a origem dessas diferenças. Não por acaso, tenho dito que essa situação da mulher no futebol feminino deve inspirar-se na busca da superação de um atavismo que tem muito de renitência, o que dificulta sua extirpação. Daí, temos no Brasil um quadro em que a conquista do futebol feminino pode ser traduzida pela luta da igualdade de gênero, pelo esforço da mulher por sua emancipação, e por fim, pela busca épica, embora incessante e gradativa, de uma pretensa e legítima condição de igualdade. Mas aqui cabe uma observação importante e para a qual chamamos a atenção, ao introduzirmos a igualdade preconizada na filosofia do direito de certo pensador, que preconizava ‘dá-se aos desiguais com desigualdade, na proporção em que se desigualem’. O mais, segundo ele, seria desvario da inveja ou mesmo da própria loucura.

CBF e seu Comitê de Reformas. (Reprodução: Divulgação)

 

CBF e investimentos

É interessante relembrar que ao inaugurar o Comitê de Reformas, a CBF deu-nos a oportunidade, por nós desperdiçada, de promovermos uma revolução em sua estrutura, a partir de uma retumbante reforma em seu estatuto. Aquelas 66 páginas poderiam expressar muito do que gostaríamos de ver, como resultante do esforço das nossas entidades de administração e de prática desportiva, no sentido de um balizamento da gestão daquela entidade-master. Nossa experiência na lida e cogestão do Conselho do Desporto do Estado do Ceará consubstanciava nossa crença não só nessa possibilidade, como também na maior legitimação das decisões da Confederação Brasileira de Futebol.

Com a frustração dos efeitos positivos do tal Comitê, embora o futebol feminino tenha obtido destaque pelo mérito de sua extraordinária mobilização, tivemos mais do mesmo, e a modalidade só não ficou na mesma pelas iniciativas da FIFA, que ainda assim, por razões de natureza ética e legal, reteve o repasse da verba oriunda do legado da Copa do Mundo de futebol masculino de 2014, destinada ao futebol feminino, só liberando os recursos a posteriori, mediante condições de lisura exigidas pela entidade maior do futebol mundial.

A CBF me parece não uma empresa única, mas um conglomerado de departamentos empresariais estanques. Isso não deve ser encarado como um equívoco de sua administração, mas como característica e estilo da administração da entidade. Ao que nos consta, o departamento de maior superávit é o que trata da Seleção Principal de Futebol Masculino. E para quem tem uma noção da filosofia da entidade, sabe-se que as boas ideias não são devidamente valorizadas se não forem acompanhadas da solução financeira.

Na verdade, só nos resta torcermos para que o atual ciclo histórico da CBF contemple uma nova discussão quanto à utilização de seus superávits. Afinal, a história tem mais trens do que pode nos parecer.

Outro fator ligado à CBF ao qual frequentemente se direcionam críticas é o que respeita ao fomento do futebol feminino. Sobre essa questão, conversamos com o diretor de competições da entidade, Manoel Flores, através de entrevista que ele concedeu à FCFTV, quando na ocasião sugerimos que fosse instaurado um regime de intercooperação entre o ente público federal (governo) e a CBF, a fim de que pudéssemos engendrar uma política de desenvolvimento para a modalidade (futebol feminino). Flores se mostrou receptivo à ideia, revelando inclusive que esse diálogo seria interessante.

A ideia da intercooperação era, além de dividir responsabilidades pelo ideário das políticas de fomento, teríamos ainda uma divisão dos custos dessas políticas. Ademais, a criação desse diálogo entre o ente público e o privado, certamente se constituiria num elemento de sensibilização da FIFA, situação que poderia render dividendos para a modalidade em nosso país.

CBF Social em Fortaleza/Ceará. (Reprodução: Divulgação)

 

Modelo de desenvolvimento “made in Brasil

Quaisquer modelos de desenvolvimento pensado para o futebol feminino, não pode descurar de dois aspectos básicos. O primeiro deles é o esportivo, com todas as suas implicações, complexidades e dificuldades. O outro é o modelo de desenvolvimento e fomento a esse desenvolvimento, sem o quê será improvável dar-se exequibilidade a quaisquer projetos.

Neste ponto, vale uma reflexão quanto à gênese de inspiração do modelo desenvolvimentista, evitando-se as corruptelas das ‘copyrights’ ou cópias ‘ipsis litteris’ de modelos como o norte-americano e francês, que não guardam uma relação factual de viabilidade com a realidade brasileira.  Distamos do modelo estadunidense pela desestrutura do estado brasileiro, que promove as carências de nossas escolas públicas e universidades. Já quanto ao modelo francês, com o qual temos maior identificação, ainda assim é-nos impossível constituirmos mil núcleos subsidiados para a modalidade, a partir do sub-8. Portanto, cabe-nos o desafio de pensarmos um modelo meio que híbrido de desenvolvimento, iniciando-se o apoio aos principais núcleos de futebol feminino em diferentes regiões do território nacional. Esses núcleos teriam que ser identificados, mapeados, mais qualificados e por fim credenciados, com o objetivo de, como núcleos formadores e fomentadores da modalidade, pudessem receber os bônus do apoio público-privado, sendo periodicamente fiscalizados e avaliados, nos moldes da certificação dos clubes formadores. Desse modo, cumprir-se-ia a premissa de que “seleção não é lugar de formação”, devendo tal processo se dar no âmbito das entidades de prática desportiva, tais como times em geral, associações e projetos sócio-desportivos.

Seleção Feminina Principal. (Reprodução: Divulgação)

 

Um modelo de gestão, coordenação e comando técnico harmônicos

O futebol feminino é um negócio, um mega negócio, e como tal não lhe cabem digressões misóginas ou sexistas. Logo, a seleção de seus dirigentes não precisa estar apoiada em reserva de mercado ou questão de gênero. Há que se terem critérios e a meritocracia deve nortear as escolhas e indicações de nomes. O modelo de gestão deve ser evidentemente de responsabilidade da CBF, enquanto que a coordenação da modalidade deve ser exercida por um dirigente que saiba estabelecer o necessário link entre o comando da entidade e os executores de suas políticas, em todos os níveis que se possa conceber. Essa coordenação também promoverá a integração das políticas gerais de desenvolvimento da modalidade, bem como estabelecerá um diálogo constante entre as diferentes categorias da formação e base, observando ainda a hierarquização necessária de todos os processos, em que a Seleção Principal será o desaguadouro. Todavia, a adequação do Calendário de Competições ao projeto desenvolvimentista far-se-á também necessária, sob pena de termos tal processo de desenvolvimento atrofiado.

Buscar-se-á a compatibilidade na execução das políticas, desse modo evitando-se as desarmonias departamentais. Um exemplo clássico disso é fazer-se com que o comando técnico da Seleção Principal esteja consensualmente harmonizado com o que se pretende levar a efeito como ações. Um treinador ou treinadora não poderá jamais discrepar das matrizes conceituais do projeto, tampouco tentar interferir na execução de quaisquer das políticas, sejam esportivas ou de gestão.

A discussão encontra-se em aberto, e as contribuições serão sempre bem-vindas.

 

*Benê Lima é Cronista Esportivo, Gestor Esportivo, Ex-Membro do Conselho do Desporto do Estado do Ceará, Ex-Presidente da Liga Cearense de Futebol Feminino, Ex-Coordenador de Futebol Feminino da Federação Cearense de Futebol, Membro do Instituto UNIFUT (Unidos Pelo Futebol)

Comentários

  1. Ale disse:

    Na minha opinião vejo o futebol feminino como os demais esportes no Brasil tais como Basquete, Handebol etc. Onde esses esportes não tem o apoio devido de suas federações que poderiam de certa forma visualizar mais as bases e projetos que tem espalhados pelo país. No futebol feminino não é diferente chegamos a ver a grande diferença com o futebol masculino, onde há uma absurda diferença em tudo como preparação de atletas desde categorias iniciantes até chegar ao profissional e quando chegam, salários absurdamente diferenciados e estruturas bem melhores que as do futebol feminino.
    Quando será que veremos essa igualdade principalmente aqui no Brasil?
    Espero um dia poder presenciar esse fato.

    • Caro Ale, podemos alcançar a igualdade pretendida, mas desde que também consideremos as diferenças entre as duas modalidades, a masculina e a feminina. A absolutização não é viável, porém uma igualdade relativizada pelos aspectos inerentes às categorias e a seus estágios de desenvolvimento é possível, provável e já caminhamos muito nesse sentido. Afinal, o futebol é um negócio, um mega-negócio e deve ser visto como tal. Antes de quaisquer reivindicações, devemos preparar o futebol feminino para ser um produto um pouco mais atraente. Palavra de quem luta pela modalidade. (Benê Lima)

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