Universidade do Futebol

Entrevistas

14/04/2006

Fábio Correia, preparador físico

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Correia: “Ronaldo merece uma
atenção especial” 

 

O futebol foi a porta de entrada para Fábio Correia na carreira de preparador físico. Formado pela Universidade de São Paulo, ele ostenta em seus primeiros anos como profissional um estágio com Moraci Sant’Anna, então no São Paulo, durante 1992 e 1993. Por conta disso, o atual preparador do Banespa, que faz parte da comissão técnica da seleção feminina de vôlei, analisa com autoridade que o desenvolvimento das duas modalidades é muito similar.

 

Seguindo o modelo utilizado no futebol, as equipes de vôlei têm apostado na especificidade como diretriz básica para a preparação física. Além disso, as duas modalidades apostam em um novo perfil de comissão técnica, fundamentada no aspecto multidisciplinar.

 

A relação entre futebol e voleibol ainda compreende um atraso na evolução da interdiscilpinaridade dentro da comissão técnica. “Existe um começo de trabalho nesse sentido, mas ainda temos um caminho grande a ser percorrido”, contou Fábio Correia nesta entrevista exclusiva.

 

A evolução similar entre o futebol e o vôlei proporcionou até os mesmos problemas para as duas modalidades. Assim como nos campos, destaques das quadras brasileiras estão se transferindo para o exterior. Assim, a preparação física precisa solucionar a diferença entre os níveis de condicionamento de atletas de diferentes origens.

 

Em conversa por telefone para a reportagem da Cidade do Futebol, o preparador físico Fábio Correia apontou a proximidade entre os dois esportes, sobretudo na questão de condicionamento. Afinal, o atual preparador do time masculino de vôlei do Banespa se formou como profissional tendo como base Moraci Sant’Anna, que na época estava no São Paulo e agora trabalha na seleção brasileira.

 

Cidade do Futebol – Qual é a importância da experiência obtida no futebol para seu momento como preparador físico no vôlei?

Fábio Correia – Eu tive a graça e a sorte de começar estagiando no futebol e com o Moraci Sant’Anna, que é o profissional mais renomado do país e justifica isso. Acompanhei o trabalho dele no São Paulo durante dois anos, e justamente dois anos vitoriosos do clube. Em 1992 e 1993, pude ver de perto a reação dos atletas à seqüência pesada dos atletas e o trabalho que a comissão técnica fez para minimizar isso.

 

Cidade do Futebol – Quais pontos da preparação física no futebol são importantes para o vôlei atualmente?

Fábio Correia – O Moraci me ajudou bastante a ter contato com o futebol de campo, que é uma paixão minha, e me fez adquirir muitos conhecimentos que eu uso até hoje. Também contou muito a experiência de trabalhar com o Turíbio [Leite de Barros, fisiologista do São Paulo], que me mostrou a importância de muitos valores para o esporte.

 

Cidade do Futebol – Com a vivência no futebol e no vôlei, quais são os pontos que você acha comuns às duas modalidades sobre a preparação física?

Fábio Correia – Desde o início no São Paulo, eu procurei conhecer todos os métodos e técnicas de preparação para um atleta. E o que eu pude concluir é que o sucesso em um programa de condicionamento é regido pela especificidade da prescrição.

 

Cidade do Futebol – Até que ponto é possível uma preparação ser específica em um elenco grande como o do Banespa?

Fábio Correia – É importante considerar vários pontos para isso. Há as particularidades de cada atleta, o histórico do trabalho, as capacidades mais e menos desenvolvidas de cada um. O talento do preparador físico é exatamente fazer a leitura dessas qualidades de cada jogador. Eu vi uma declaração do Moraci Sant’Anna dizendo que o Ronaldo vai chegar bem na Copa, por exemplo*. O Ronaldo não precisa treinar como outro jogador para termos certeza de que ele estará bem. Ele precisa respeitar suas características, e não a posição ou a modalidade que ele disputa. Ele merece uma atenção especial.

 

*Na última quinta-feira, o preparador físico da seleção brasileira, Moraci Sant’Anna, assegurou à reportagem da Cidade do Futebol que o centroavante Ronaldo terá plenas condições para a  Copa do Mundo da Alemanha. “Acredito que ele chegará 100% fisicamente para a estréia”, disse ele.

 

Cidade do Futebol – É por causa dessa busca pela especificidade que o voleibol costuma ter mais de um preparador físico em suas comissões técnicas?

Fábio Correia – Não é só por isso. O trabalho com mais de uma pessoa é uma forma de aumentar a abrangência dos preparadores. Nas seleções de vôlei, o Bernardinho e o Zé Roberto gerenciam a comissão técnica e seguem esse caminho. No masculino, a equipe de preparadores físicos é comandada pelo José Inácio. Ele não só trabalha como preparador, mas produz conhecimento no centro de treinamento. Na feminina, o José Elias de Proença é um dos melhores profissionais do país. Ele consegue atingir a preparação no conceito mais global possível e consegue passar muito para outros profissionais que trabalham com ele.

 

Cidade do Futebol – E para os atletas, qual a importância de uma comissão técnica tão cheia?

Fábio Correia – Existe um trabalho que aproxima o preparador de um personal trainer, mas eu não curto muito essa palavra. Prefiro dizer que são preparadores individualizados e que estão muito mais atentos à especificidade.

 

Cidade do Futebol – O vôlei vem sofrendo um processo parecido com o que acontece no futebol, com extenso êxodo de atletas para o exterior. Em que ponto isso prejudica a preparação física da seleção brasileira?

Fábio Correia – Prejudica muito. Principalmente porque os treinamentos no Brasil são muito diferentes dos que acontecem nos outros países. Não quero discriminar ninguém, mas os treinamentos em alguns lugares acontecem em ritmos muito menos intensos. Outros nem preparação física têm. É complicado você montar um grupo de atletas com características tão diferentes.

 

Além disso, a Confederação Brasileira de Vôlei faz um encontro nacional de preparadores todo ano. Existe um ciclo de palestras e todo mundo conversa com todo mundo. Essa troca de idéias faz com que todo mundo saiba o que está acontecendo no país inteiro.

 

Cidade do Futebol – Quais outras particularidades são similares entre o futebol e vôlei?

Fábio Correia – Algumas comissões técnicas de equipes de voleibol já trabalham com o conceito de uma formação multidisciplinar. Existem profissionais de nutrição, fisiologia, fisioterapia, medicina, massagem e estatística. Assim, a preparação dos atletas pode ser plena.

 

Cidade do Futebol – E a interdisciplinaridade nas equipes de vôlei, como funciona?

Fábio Correia – Existe um começo de trabalho nesse sentido, mas ainda temos um caminho grande a ser percorrido. A comissão técnica do Banespa tem o hábito de buscar reuniões entre os profissionais para que todos que atuam com o atleta possam intervir no desenvolvimento de cada um.

 

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14/4/2006

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