Universidade do Futebol

Entrevistas

22/08/2014

Fabio Eidelwein, técnico formado na Federação Alemã de Futebol

O título mundial de sua seleção na Copa do Mundo no Brasil colocou a Alemanha no centro das atenções e como o modelo a ser seguido para se ter sucesso dentro das quatro linhas.

Porém, poucos ainda se atentam ao fato de a mudança no futebol alemão ter começado pelo menos 14 anos atrás, com um trabalho de integração entre as federações regionais, escolas de primeiro e segundo graus, a federação de árbitros e todas as outras organizações envolvidas com o futebol daquele país.

O brasileiro Fabio Eidelwein vivenciou de perto a reestruturação do futebol alemão, que começou por volta do ano 2000, seis anos antes de a Alemanha sediar a Copa do Mundo no próprio país e quando a Federação Alemã (DFB) criou a DFL (Associação da Liga de Futebol Profissional) com o objetivo de especializar todos os departamentos ligados a esse esporte.

Com uma Licença A obtida na federação nacional da Alemanha, além de uma especialização em Gerenciamento Esportivo em Dusseldorf, o profissional que hoje atua como chefe de Scouting do Suphanburi FC, da Tailândia, afirma que a formação de talentos nas categorias de base tornou-se essencial e de absoluta prioridade na Alemanha após os fracassos da sua seleção dentro de campo.

“Especialmente depois dos desempenhos não satisfatórios na Copa de 1998 e da Eurocopa de 2000, houve uma preocupação de que o número de horas que as crianças alemãs “investiam” jogando futebol de rua, em “horas vagas” ou em clubes, não era suficiente para qualificá-las, baixando a qualidade técnica dos jogadores das próximas gerações. Com isso, chegaram a conclusão de que seria importante qualificar os treinamentos em clubes”, lembra Fabio Eidelwein.

Para ele, uma mudança no futebol brasileiro não ocorreria de uma hora para outra e que o importante seria qualificar técnicos, assim como os gestores, para que em um prazo entre 10 e 15 anos o país também colhesse frutos destas novas realizações.

“Porém, não se trata somente em reestruturar o futebol em si. Tudo começa com a educação familiar, escolar e social. Enfim, almejando uma cultura onde também a disciplina e respeito ao próximo sejam estimulados”, completa.

Nesta entrevista concedida à Universidade do Futebol diretamente da Tailândia, Fabio Eidelwein conta também como funciona o processo de detecção e desenvolvimento de talento do jogador de futebol na Alemanha. Confira a íntegra: 

 

Universidade do Futebol – Qual é a sua formação acadêmica e como se deu sua trajetória no futebol profissional?

Fabio Eidelwein – Nos últimos cinco anos, me licenciei como Técnico de Futebol na DFB (Federação Alemã de Futebol), obtendo a Licença-A da DFB/UEFA, tendo a oportunidade de aprender mais de perto o futebol alemão e seu desenvolvimento. Em 2001, obtive o bacharelado em Vídeo-Comunicação nos Estados Unidos e, anos mais tarde, fiz uma especialização em Gerenciamento Esportivo em Dusseldorf na Alemanha.

Após disputar campeonatos estaduais e Copa do Brasil como atleta em 1996 e 1997 pelo Guará, de Brasília, tive a oportunidade de estudar e jogar no futebol universitário americano nos quatro anos seguintes, quando fui selecionado para jogar a Major League Soccer. Voltando ao futebol brasileiro em 2002, tive passagem pelo São José de Porto Alegre. Após uma lesão que me levou a uma recuperação de seis meses, fui para a Alemanha, onde joguei até 2010, entre outros clubes no Darmstadt 98, hoje na segunda divisão alemã.

Depois de três anos trabalhando como analista de vídeo e desempenho na Alemanha, fui contratado no começo de 2014 para trabalhar na Ásia, como Chefe do Departamento de Scouting e análise de video no Suphaburi FC, do futebol tailandês, onde estou até os dias de hoje.

A inteligência de jogo dos jogadores do futebol alemão também é resultado de treinamentos padrões, já desde cedo. É mais fácil saber onde o companheiro estará posicionado em campo em uma determinada situação de jogo se essa situação já foi treinada especificamente no passado, afirma Fabio Eidelwein

Universidade do Futebol – Por favor, conte-nos como se deu o projeto da DFB (Federação Alemã) para a integração do futebol em todo o país? Como foi essa reestruturação dos métodos e conceitos no futebol alemão?

Fabio Eidelwein – A reestruturação do futebol alemão começou em 2000, seis anos antes de a Alemanha sediar a Copa do Mundo no próprio país, quando a Federação Alemã (DFB) criou a DFL (Associação da Liga de Futebol Profissional) com o objetivo de especializar departamentos.

A DFL foi encarregada da operação dos jogos das duas ligas nacionais do futebol profissional, do licenciamento e do marketing do futebol alemão. A DFB continuou responsável pela seleção alemã, pela Copa da Alemanha, arbitragem, jurisprudência, desenvolvimento de talentos e todas as outras áreas que antes eram cobertas em caráter voluntário.

A DFB planejou reformas estruturais profundas. O detalhado projeto estabeleceu uma maior autonomia para a Associação da Liga (DFL), composta pelos 36 clubes das 1ª e 2ª Bundesliga, com presidentes próprios. Também foi estipulado que, para os cargos de gestão em clubes, seria possível a contratação de profissionais em tempo integral mediante pagamento.

"As reformas não significam uma revolução, mas uma evolução. Elas são um desenvolvimento das estruturas existentes", disse Niersbach, naquela ocasião diretor de mídia da DFB e hoje presidente da entidade. O desenvolvimento de métodos e conceitos foi uma consequência desse desenvolvimento.

Naquele momento, existia a preocupação, especialmente depois dos desempenhos não satisfatórios na Copa de 1998 e da Eurocopa de 2000, que o número de horas que as crianças “investiam” jogando futebol de rua, em “horas vagas” ou em clubes, não era suficiente para qualificá-las, baixando a qualidade técnica dos jogadores das próximas gerações. Com isso, chegaram a conclusão de que seria importante qualificar os treinamentos em clubes.

Portanto, a formação de talentos na base tornou-se essencial e de absoluta prioridade. O futebol passou a ser examinado mais detalhadamente de acordo com suas necessidades. Situações de jogo passaram a ser descritas, especificando características de cada posição e seus respectivos requisitos físicos, técnicos e táticos. Características essas que influenciam diretamente a função de cada posição em relação a diferentes sistemas de jogo. Através desses conceitos foram criadas formas de treinamento também com o objetivo de maximizar o fluxo de informação específica e qualificada em um curto espaço de tempo, de acordo com a faixa etária.

A DFB planejou reformas estruturais profundas. O detalhado projeto estabeleceu uma maior autonomia para a Associação da Liga (DFL), composta pelos 36 clubes das 1ª e 2ª Bundesliga, com presidentes próprios. Também foi estipulado que, para os cargos de gestão em clubes, seria possível a contratação de profissionais em tempo integral mediante pagamento, conta o profissional

Universidade do Futebol – Como você avalia o processo de detecção e desenvolvimento de talento do jogador de futebol na Alemanha? Por favor, explique também como ele funciona.

Fabio Eidelwein – O processo de detecção de talentos na Alemanha não é muito diferente do Brasil, já acontecendo cedo nas escolas. O que difere é o conteúdo repassado, que é ensinado de forma praticamente padrão, devido à formação padrão dos técnicos.

Esse fato propicia um desenvolvimento homogêneo e eficiente. A ideia inicial do projeto era colher frutos em dez anos, ou seja, qualificar a próxima geração. O resultado é essa nova safra de jogadores como Mario Götze, Andre Schürlle, Thomas Müller, Marco Reus e outros tantos.

A Federação Alemã é responsável pelas áreas de formação de técnicos de futebol, de treinadores com licença, começando pelas Licenças C, B e A, seguidas pelo curso para Professor de Treinadores. Os cursos C e B são oferecidos por Centros de Treinamentos estaduais, enquanto o curso A e o curso para Professor de Treinadores são centralizados. As carteiras de treinadores não são vitalícias, ou seja, devem ser renovadas de dois em dois anos através de cursos suplementares de aperfeiçoamento, gerando uma constante renovação.

A DFB integrou as federações regionais, escolas de primeiro e segundo graus, a federação de árbitros, assim como outras organizações envolvidas com o futebol, para participarem ativamente na formação e educação contínua de técnicos e atletas de base, levando em consideração valores de cidadania, como respeito, personalidade e integridade.

Os clubes cooperam com as escolas e acompanham o desenvolvimento, não somente do jogador, mas também do cidadão. Essa cooperação é muito importante para facilitar a conciliação das duas atividades, uma vez que esses adolescentes possuem uma carga grande de treinamentos, horário escolar e viagens pelo clube. Estudantes com dificuldades escolares têm à disposição aulas particulares no próprio clube. Notas escolares são muitas vezes diferencias na escolha de quem recebe o tão almejado lugar no internato (alojamento) do clube. Os alemães são ensinados desde pequenos a ter um plano B, caso por um motivo ou outro não se tornem jogadores profissionais, ou seja, há valorização da base educacional.

Além do trabalho conjunto com escolas, treinamentos extras são oferecidos por treinadores licenciados uma vez por semana para atletas mais jovens (9 a 17 anos) que se destacam em seus clubes locais. Esses treinamentos são realizados em clubes e centros de treinamento distribuídos geograficamente de tal modo a facilitar o acesso dos meninos aos treinos. Esses treinos específicos têm o objetivo, entre outros, de não permitir que haja um aumento da discrepância entre esses atletas de clubes menores e os garotos que já treinam na base de clubes grandes ou grandes centros, onde treinadores mais qualificados estão à disposição.

A DFB integrou as federações regionais, escolas de primeiro e segundo graus, a federação de árbitros, assim como outras organizações envolvidas com o futebol, para participarem ativamente na formação e educação contínua de técnicos e atletas de base, levando em consideração valores de cidadania, como respeito, personalidade e integridade, aponta

Universidade do Futebol – Quais as semelhanças e especificidades que a grade curricular (programa de conteúdos) de formação de treinador na Alemanha tem se comparado com as grades curriculares para formação de treinadores na Inglaterra, Itália, e outros países europeus que têm uma tradição na formação de treinadores?

Fabio Eidelwein – A formação de treinadores na Itália, Espanha e Holanda, por exemplo, não é recente. Cursos padrões para técnicos nesses países já vêm sendo oferecidos há mais de 15 anos. Cada país desenvolveu seu programa de acordo com suas características e necessidades.

Tenho conhecimento da grade curricular alemã, onde o Curso da Licença C contém temas mais abrangentes e básicos, além de táticas individuais e de grupos. O Curso B é mais voltado para a base, enquanto que o Curso para a Licença A contém, entre outros tópicos, as táticas de equipe.

A Federação Alemã é responsável pelas áreas de formação de técnicos de futebol, e as carteiras de treinadores não são vitalícias, ou seja, devem ser renovadas de dois em dois anos através de cursos suplementares de aperfeiçoamento, gerando uma constante renovação, explica

Universidade do Futebol – De modo geral, o que você acha do jogador de futebol alemão atual em termos técnicos e de inteligência de jogo? E qual o paralelo você faz com o jogador brasileiro?

Fabio Eidelwein – Em termos técnicos como passe, domínio e condução de bola, chute e cruzamento, por exemplo, os jogadores alemães se desenvolveram muito, justamente devido aos treinamentos técnicos específicos. Os jogadores dessa geração campeã mundial passaram quase que totalmente pela nova escola de formação alemã. Eles não ficam mais para trás dos jogadores brasileiros que, em sua maioria, crescem passando a tarde jogando “peladas” e desenvolvendo essa técnica automaticamente.

A inteligência de jogo dos jogadores do futebol alemão também é resultado de treinamentos padrões, já desde cedo. É mais fácil saber onde o companheiro estará posicionado em campo em uma determinada situação de jogo se essa situação já foi treinada especificamente no passado.

Essas situações, treinadas em campos reduzidos, se simuladas com alto número de repetições, geram automatismo. Isso, porém, não impede os jogadores de serem criativos, aspecto esse muito importante e estimulado na Alemanha.

Uma diferença fundamental é a disciplina tática. Os jogadores alemães são em sua origem disciplinados e trabalham arduamente. Esse fato facilita com que os treinadores ponham em prática suas ideias. No Brasil, muitos jogadores, além de não valorizarem devidamente a disciplina tática e a intensidade de treinamento, ainda acreditam que são “os melhores” e que não têm mais nada para aprender, não contribuindo para a evolução da equipe e, em consequência, gerando estagnação.

Os clubes cooperam com as escolas e acompanham o desenvolvimento, não somente do jogador, mas também do cidadão. Essa cooperação é muito importante para facilitar a conciliação das duas atividades, uma vez que esses adolescentes possuem uma carga grande de treinamentos, horário escolar e viagens pelo clube, revela Fabio Eidelwein

Universidade do Futebol – Você também atua na área de scouting. Quais as principais diferenças entre a análise de desempenho realizada no Brasil e nas principais ligas da Europa?

Fabio Eidelwein – O Brasil vem se adaptando cada vez mais a esta realidade. Na Europa, essas avaliações já fazem parte do cotidiano há um bom tempo. Análises da própria equipe, jogadores específicos, oponentes, assim como a avaliação detalhada de possíveis contratações, tornaram-se essenciais. Os provedores desse tipo de serviço vêm se desenvolvendo rapidamente, fato esse que propicia uma certa vantagem para clubes que investem em tais sistemas.

Essas análises de desempenho podem ter diferentes finalidades. O preparador físico, o treinador, o diretor de futebol; cada um analisa os dados empíricos (estatísticas) diferentemente. O fato de se analisar um jogador mais detalhadamente antes de uma contratação, por exemplo, baseando-se em análises de vídeo, estatísticas e de acordo com os reais requisitos da posição, cultura e objetivo do clube, diminui a margem de erro de uma contratação.

Na Europa, especialmente em termos de contratações, o analista de desempenho ou vídeo vem adquirindo cada vez mais uma função fundamental. O analista de vídeo apoia o diretor de futebol, uma vez que avalia diariamente sua equipe e adversários, tendo facilidade de reconhecer certas deficiências. Neste caso, não basta ao analista de vídeo ter somente conhecimento de edição.

Conhecimentos de táticas (individuais, de grupo e de equipe) e formas de treinamento são essenciais. Além disso, é importante o analista estar inteirado aos objetivos não somente do técnico, mas também em termos de identidade e modo de jogar do clube.

O processo de detecção de talentos na Alemanha não é muito diferente do Brasil, já acontecendo cedo nas escolas. O que difere é o conteúdo repassado, que é ensinado de forma praticamente padrão. A ideia inicial do projeto era colher frutos em dez anos, ou seja, qualificar a próxima geração. O resultado é essa nova safra de jogadores como Mario Götze, Andre Schürlle, Thomas Müller, Marco Reus e outros tantos, diz
 

Universidade do Futebol – Para você, como o Brasil deve reestruturar os conceitos e as deficiências internas para o desenvolvimento do seu futebol?

Fabio Eidelwein – A mudança não ocorreria de uma hora para outra. O importante seria qualificar técnicos, especialistas do futebol, assim como gestores, para que em um prazo entre 10 e 15 anos também pudéssemos colher os frutos das nossas ideias e realizações, tendo gestores responsáveis e treinadores que não só jogaram, mas também se dedicaram em se especializar mais sobre o assunto. O modelo brasileiro, baseado em características internas, poderia ser especificado e aprimorado.

Porém, não se trata somente em reestruturar o futebol em si. Tudo começa com a educação familiar, escolar e social. Enfim, almejando uma cultura onde também a disciplina e respeito ao próximo sejam estimulados.

O processo de reestruturação poderia ocorrer primeiramente reorganizando as estruturas já existentes na CBF. Nesse caso, o modelo brasileiro deveria ser desenvolvido baseando-se em fatores regionais, culturais, características dos atletas e assim por diante.

Uma diferença fundamental é a disciplina tática. Os jogadores alemães são em sua origem disciplinados e trabalham arduamente. Esse fato facilita com que os treinadores ponham em prática suas ideias. No Brasil, muitos jogadores ainda acreditam que são “os melhores” e que não têm mais nada para aprender, não contribuindo para a evolução da equipe, compara

Universidade do Futebol – Para você, qual a maior virtude e qual o principal defeito do futebol brasileiro?

Fabio Eidelwein – O jogador brasileiro traz consigo em sua grande maioria a criatividade, a ginga, a capacidade de improvisação, características estas vindas primeiramente do futebol de rua, da pelada. O Brasil possui uma quantidade muito grande de jogadores a serem lapidados.

Seria importante ter humildade para reconhecer que os outros países também sabem jogar futebol, e muito bem. Por esse motivo, aceitar novas ideias e adaptá-las ao futebol local seria uma alternativa. Foi exatamente isso que a Alemanha faz há 14 anos, buscando ideias, analisando e filtrando aspectos positivos do futebol de outros países e adaptando às características do futebol local.  

 

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