Universidade do Futebol

Entrevistas

15/05/2015

Felipe Carrilho, consultor financeiro

Segundo estudo publicado em 2011 pela consultoria alemã Schips Finanz, ao menos 50% dos jogadores de futebol perdem depois da aposentadoria todo o dinheiro que amealharam durante a carreira. A ruína financeira atinge até mesmo atletas que ainda estão em atividade – o mesmo estudo aponta que até 30% têm problemas para administrar receitas. Foi pensando nesse cenário que o empresário Felipe Carrilho, 35, decidiu criar uma consultoria financeira especialmente focada em profissionais do esporte.

O projeto surgiu como uma demanda pessoal do ex-atacante Deivid, 35, que havia sido pego na malha fina da Receita Federal em 2006. Carrilho montou um plano para ajudar o então jogador, e essa ação pontual evoluiu até formatar a Viguer, que também trabalha com executivos e outros profissionais do esporte.

O diferencial que a Viguer oferece a seus clientes é fazer todos os serviços administrativos e financeiros. “A minoria dos jogadores ganha muito bem, quase como uma empresa. Então, eles têm de ser geridos como uma empresa para ficarem focados apenas no que acontece dentro das quatro linhas. A gente gera essa facilidade e dá esse tempo”, explica Felipe em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

Formado em administração de empresas, o profissional trabalhou no mercado financeiro durante a maior parte da carreira. O conhecimento acadêmico e a vivência empírica são as bases que ele usou para criar o modelo da Viguer, que atualmente conta com nove funcionários diretos.

No bate-papo sobre a empresa, Felipe falou também sobre as necessidades financeiras específicas dos profissionais do futebol, segmento que convive com atrasos, dificuldade de pensar no longo prazo e pouco tempo de vida profissional (no caso dos atletas).

Ex-jogador Deivid, que hoje tenta carreira como técnico, foi o primeiro cliente da Viguer, empresa que faz consultoria financeira para profissionais do esporte

Ex-jogador Deivid, que hoje tenta carreira como técnico, foi o primeiro cliente da Viguer, empresa que faz consultoria financeira para profissionais do esporte

Universidade do Futebol – Qual é a origem da Viguer? Ela já surgiu com ideia de ter atletas como foco ou isso foi uma reação do mercado à proposta?
Felipe Carrilho –
A ideia de montar a empresa vem desde 2006, quando eu já tinha trabalhado numa instituição financeira. Vários amigos vinham pedir orientações, inclusive o pessoal do futebol. Acabei trabalhando com um atleta, e em 2010 decidi montar a Viguer para cuidar da carreira e não apenas da parte financeira dele. Fazemos o administrativo e o financeiro baseado em planejamento. Sou formado em administração de empresas e acredito muito em planejamento, controle e direção. Isso faltava no futebol. A minoria dos jogadores ganha muito bem, quase como uma empresa. Então, eles têm de ser geridos como uma empresa para ficarem focados apenas no que acontece dentro das quatro linhas. A gente gera essa facilidade e dá esse tempo. É uma segurança e um profissionalismo.

Universidade do Futebol – E quem é o público-alvo do serviço que vocês oferecem?
Felipe Carrilho –
Não só atletas de futebol, mas também diretores e executivos. Trabalhamos com outras pessoas do futebol.

Universidade do Futebol – Qual é o tamanho da empresa e que estrutura ela oferece aos clientes?
Felipe Carrilho –
Hoje a nossa sede é em Santos. Temos escritórios no Rio de Janeiro e em São Paulo, e hoje contamos com nove funcionários diretos e 20 indiretos, que são os parceiros. Temos representantes comerciais na Ásia, advocacia, assessoria de imprensa e assessoria contábil.

Universidade do Futebol – Por que representação comercial apenas na Ásia? Isso tem algo a ver com o perfil de investimento dos atletas ou é uma decisão da empresa?
Felipe Carrilho –
A gente acha os nichos. A gente vê uma evolução no mercado asiático e muita migração de brasileiros para lá. É claro que a Europa é ainda é um mercado forte, e inclusive a gente tem um planejamento agora para os Estados Unidos. Hoje a gente está na Ásia, e depois a gente pensa em Estados Unidos e Europa. A ideia é o caminho inverso do que o pessoal acredita. A gente vai aonde tem a maior quantidade de brasileiros e busca para eles, independentemente do quanto eles ganham, que eles deixem de gastar. A gente maximiza o resultado.

Universidade do Futebol – Qual foi o primeiro atleta que trabalhou com vocês? Quantos são atualmente?
Felipe Carrilho –
Foi em 2006. Comecei com o Deivid, que estava jogando no Santos. A gente tinha amigos em comum, e ele propôs para eu cuidar da parte dele. Ele estava com dificuldade porque tinha caído na malha fina. Eu comecei a fazer em paralelo, junto com o outro trabalho, e em 2010 eu decidi abrir a empresa. Hoje a gente tem 16 atletas no total. Temos o Renatinho, o Renan Marques…

Universidade do Futebol – E como funciona a prospecção desses atletas?
Felipe Carrilho –
Na realidade, como o atleta é muito desconfiado e a gente trabalha num meio de muita confiabilidade, eu nem vou ao cliente. O cliente que vem a mim por indicação. Nossa captação é sempre por indicação dos próprios clientes. Eles vêm, marcam reunião, e a gente acaba fechando. Às vezes o contrato não se gera de imediato. Você tem de adquirir confiança, e isso demora de três a seis meses desde o primeiro contato. É um mercado em crescimento, mas nem todos têm essa visão. O brasileiro, e aí eu nem falo apenas de atletas, é muito imediatista. A gente fala de longo prazo.

Universidade do Futebol – Que tipo de serviço os atletas procuram? Apenas controle de investimento?
Felipe Carrilho –
Para a maioria a gente presta serviços contábeis. A gente é quase procurador: cuida de todos os interesses, como ações judiciais e coisas que a gente consegue resolver com procuração. A gente acaba fazendo também um serviço de personal assistance: cotações de compras, de viagens, contratação de serviços… Além disso, se ele tem X reais para investir, ele joga para conta e a gente administra. Mas também tem casos de consultoria: ele vem nos procurar quando tem um débito muito grande, por exemplo, e a gente faz consultoria de gestão financeira.

Universidade do Futebol – Existe um modelo para esse tipo de trabalho? Vocês partem de um protocolo estabelecido ou definem a abordagem de acordo com o cliente?
Felipe Carrilho –
É tudo personalizado. Vai de encontro com o perfil de cada cliente. Eu gosto de enfatizar que eles não precisam correr riscos para ganhar muito mais. A maioria já fatura bem. A gente gerencia esse patrimônio com um perfil conservador-moderado, mas vários querem investir até por ficarem curiosos. A gente coloca por eles, mas nunca orienta mais do que 10 ou 20% nesse mercado.

Universidade do Futebol – O William, ex-jogador de Corinthians e Grêmio, já havia lançado um serviço similar. Existe mercado para isso? Que diferenciais a Viguer oferece?
Felipe Carrilho –
É até bom que mais pessoas tenham essa visão. A gente tem diferencial de não ser apenas investimento. A gente faz uma parte administrativa e financeira, e nesse processo tem uma reeducação do atleta e da família: poupar, saber gastar, saber quanto vale o dinheiro. Muitos atletas acham que ganham milhões, mas não consideram o imposto. Meu diferencial é não lidar apenas com o investimento, mas com toda a parte administrativa. A gente faz contas a pagar e receber, cobra os clubes e faz todo o bastidor.

Universidade do Futebol – E quais são os grandes entraves para a consolidação do modelo que vocês oferecem?
Felipe Carrilho –
A gente ainda tem vários entraves. Hoje no futebol brasileiro, e aí eu defendo a tese de planejamento, os clubes veem que estão inadimplentes e não resolvem. Trabalhei com atletas que ficaram 24 e até 36 meses sem receber. Eu trabalho com planejamento, e planejamento inclui pensar em receitas fixas. Outra coisa é trazer o jogador para o princípio da empresa. Hoje o atleta tem de ter a consciência que ele vai ganhar de oito a dez anos de receita, mas depois tem de viver pelo menos 40. É preciso saber gerir para sobrar lá na frente. Isso a gente mostra que o jogador tem de economizar no mínimo 50% do que ele recebe. Quando ele estiver numa faixa de vida entre os 26 e os 30 anos, num processo de amadurecimento e ganhando mais, ele tem de economizar 80% da receita. É difícil trazer o cara com a gente nesse propósito: a gente lida com ego, com vaidade entre eles, e vários fatores externos acabam vindo de encontro com o propósito. Mas é um projeto que não vem de imediato, e graças a Deus a maioria entende.

Universidade do Futebol – Um processo como o que vocês propõem demanda um alto grau de reeducação e combina pouco com o perfil perdulário de muitos boleiros. Como fazer para que eles entendam a necessidade de um planejamento de tão longo prazo?
Felipe Carrilho –
Reeducação é feita por consultoria, muitas vezes por videoconferência. É como se fosse um coach. Duas vezes por semana, uma hora por dia, e a família participa daquilo porque participa daquele orçamento. Tem lição de casa como planilha financeira para as pessoas preencherem. Quando a gente dá pra eles, eles automaticamente começam a cair em consciência. O resultado vai com mais eficiência.

“O jogador tem de economizar no mínimo 50% do que ele recebe. Quando ele estiver numa faixa de vida entre os 26 e os 30 anos, num processo de amadurecimento e ganhando mais, ele tem de economizar 80% da receita”.

Universidade do Futebol – E já houve algum episódio curioso causado pela dificuldade dos jogadores para esse processo de reeducação?
Felipe Carrilho –
Já houve vários episódios. Alguns eu não consegui nem manter o vínculo, e outros vieram nos procurar, a gente começou o trabalho, mas o recurso que ele estava me pagando podia ficar para ele. Ele não estava utilizando. A gente orientava, mas ele fazia totalmente diferente. Aí é o nome da minha empresa. Amanhã você vai ver o noticiário dele e vai ver minha empresa. Não quero trabalhar com gente assim. Um jogador queria comprar dez empreendimentos numa incorporação. A gente orientou a não fazer, e isso foi baseado no arquivo dele. Ele tem acesso remoto a um dispositivo nosso em que consegue visualizar tudo. Foi relatado isso, e hoje esse cliente está querendo vender os dez empreendimentos, mas não consegue. Mesmo com valor menor do que o mercado, ele não consegue. Acho que ele pagou R$ 5 milhões, mas não está conseguindo vender a R$ 4 milhões. A maioria é isso. Também tem restaurante e lazer, área em que eles às vezes passam do limite. Restaurante o cliente às vezes gasta R$ 10 mil ou R$ 5 mil. A gente orienta que ele não precisa gastar sempre R$ 1 mil numa garrafa de vinho. Infelizmente, isso acontece depois que eles fazem. A gente orienta, mas parece que muitos querem passar por isso e ter essa experiência ruim.

Universidade do Futebol – Existe um limite para esse trabalho? Quantos clientes a empresa é capaz de abarcar? A ideia é ficar restrito ao futebol?
Felipe Carrilho –
A gente sempre trabalha com um limite. É um segmento premium, e eu trabalho com limite de 20 atletas. Vão entrando uns e saindo outros, e eu vou ficando nessa quantidade máxima. Já fiz trabalhos pontuais com pessoal do vôlei, com o Rodrigão, mas foi coisa pontual.

Universidade do Futebol – Que tipo de dica é indispensável para um atleta que tenha interesse de fazer um planejamento financeiro?
Felipe Carrilho –
Aquilo que eu sempre defendo: não importa quanto a gente ganha, mas o quanto a gente deixa de gastar. Esse vai ser o resultado. Se você não souber economizar, não vai ter sobrando para viver lá na frente. Aí cada um vai viver no seu padrão. Minha realidade foi assim: em determinado ciclo eu não tinha condição como eu tenho hoje, mas sempre poupava tirando do vencimento imediato, e não do que sobra no final do mês. Você tem de tirar do salário que cai no dia 5, e não do que sobra no fim do mês. Isso é fundamental.

Universidade do Futebol – E os caminhos que você oferece aos atletas vêm de onde? Experiência empírica, formação acadêmica ou um misto entre as coisas?
Felipe Carrilho –
Da minha experiência e da minha formação em administração de empresas. A maturidade também nos ensina bastante coisa. É um treinamento. Isso vai indo, e isso é um trabalho lento, contínuo, que tem de ter sequência. Isso não vem de um dia para outro. É até difícil eles aceitarem porque eles querem comprar um produto.

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