Universidade do Futebol

Entrevistas

06/06/2014

Fernando Corrêa, preparador de goleiros do Grêmio Novorizontino

O presente do Grêmio Novorizontino é vitorioso. A equipe conquistou nesta temporada o título da Série A3 do Campeonato Paulista. O troféu foi o primeiro do clube fundado em 2010 para substituir o Grêmio Esportivo Novorizontino – este, vice-campeão paulista de 1990 e licenciado.

O segundo acesso do clube aurinegro, promovido da segunda divisão do Campeonato Paulista em 2012, reflete o trabalho que tem um futuro promissor. Muito por conta do investimento realizado no departamento de formação de atletas. E quando o assunto é prospecção, seleção e captação de goleiros, especificamente, a agremiação de Novo Horizonte está bem servida.

Fernando Corrêa, natural de Minas Gerais, sempre teve o sonho de ser jogador profissional. Em sua cidade natal, Juiz de Fora, passou a jogar em uma escolinha de futebol, até que recebeu um convite para realizar uma avaliação em um clube da capital.

“A partir daí o futebol tornou-se um trabalho para mim. Passei cinco anos da minha vida atuando como goleiro de base, passando por quatro diferentes clubes em três estados”, relembra.

Em um determinado momento, ele teve de optar entre continuar jogando sabendo que não atingiria uma estatura ideal que hoje é exigida ao goleiro ou estudar para continuar no futebol de outra forma.

Ele ingressou em um curso de Educação Física e Desportos e passou a se dedicar a pensar o treinamento de goleiro. Diante da literatura escassa, Fernando buscou desenvolver alguns estudos para tentar contribuir com o desenvolvimento da preparação para este atleta no Brasil.

Ainda na faculdade, ele construiu um documento intitulado Plano de Seleção e Formação de Goleiros nas Categorias de Base, no qual elaborou um compilado de conteúdos a serem trabalhados nas idades sub- 11 a sub- 20.

“A forma como a equipe se comporta no jogo desencadeia algumas funções ao goleiro além de sua função de defesa da meta, e os treinos são executados dentro de um ambiente menos previsível possível seja em seu ambiente particular ou com o restante da equipe”, avalia.

Hoje preparador de goleiros da base do Novorizontino, Fernando fala nesta entrevista à Universidade do Futebol, onde divulgou seus estudos, sobre o projeto do clube e como enxerga a evolução dos arqueiros no cenário nacional.

Universidade do Futebol – Qual a sua formação? Como você se preparou para assumir o atual cargo no Grêmio Novorizontino?

Fernando Corrêa – O futebol esta em minha vida desde criança, quando comecei a dar os primeiros passos com o objetivo de me tornar um goleiro profissional, e tudo começou exatamente em Minas Gerais, meu estado de origem. Em minha cidade natal comecei a jogar em uma escolinha de futebol e logo a coisa foi ficando mais seria, recebi então um convite para realizar uma avaliação em um clube da capital e a partir daí o futebol tornou-se um trabalho para mim. Passei cinco anos da minha vida atuando como goleiro de base, passando por quatro diferentes clubes em três estados.

Em um determinado momento tive que optar entre continuar jogando sabendo que não atingiria uma estatura ideal que hoje é exigida ao goleiro ou estudar para continuar no futebol de outra forma. Foi então que em 2008 tive a felicidade de ingressar na Universidade Federal de Juiz de Fora no curso de Educação Física e Desportos, concluído o em 2013. Ao longo de minha estadia na universidade me dediquei a estudar o treinamento de goleiro, onde me deparei com uma escassa literatura na área, e a partir disso busquei desenvolver alguns estudos para tentar contribuir com o desenvolvimento da preparação de goleiro no Brasil.

Em 2011 recebi o convite para atuar como treinador de goleiro nas categorias de base do Sport Club JF e, a partir daí passei por Ubaense EC – 2012, Tupi – 2013, Sport Club JF – 2013 e ao final de 2013 tive o convite para fazer parte da comissão técnica de base do Grêmio Novorizontino onde me encontro até o momento.


Nesta temporada, Grêmio Novorizontino venceu Independente e faturou o título da Série A3 do Estadual
 

 

Universidade do Futebol – Como são planejados, executados e avaliados os treinamentos dos goleiros no clube? Explique um pouco sobre as atividades cotidianas dos goleiros no seu treinamento.

Fernando Corrêa – Ainda na faculdade desenvolvi um documento intitulado Plano de Seleção e Formação de Goleiros nas Categorias de Base, publicado na Universidade do Futebol, onde elaborei um compilado de conteúdos a serem trabalhados nas idades sub – 11 a sub – 20, este documento se tornou um norte para o desenvolvimento do meu trabalho. Os treinos então são planejados de acordo com este documento e a forma de jogar da equipe, pois a forma como a equipe se comporta no jogo desencadeia algumas funções ao goleiro além de sua função de defesa da meta (ex: circulação de bola, cobertura defensiva, rápida transição defesa/ataque), os treinos são executados dentro de um ambiente menos previsível possível seja em seu ambiente particular ou com o restante da equipe.

Em nossos treinos utilizamos pontuação nas atividades e esta pontuação nos da uma noção de como esta sendo o aproveitamento do atleta ao final da semana. A pontuação tem sido uma ferramenta muito útil para estimular a competitividade dos atletas além de ir ao encontro do que é o jogo. No jogo quem erra menos tem a chance de fazer mais gols e quem faz mais gols conseqüentemente ganha o jogo, assim é com a pontuação, quem erra menos tem mais pontos e consequentemente ganha o jogo. Ao final de cada mês elaboramos um relatório completo de jogos e treinos dos atletas onde são registrados todos os dados pertinentes para seqüência do nosso trabalho.

Nossas atividades cotidianas buscam oferecer um vasto repertório de ações técnicas que possibilite a atuação dos goleiros nos momentos defensivos e ofensivos. Buscamos desenvolver as atividades em um ambiente menos previsível possível, onde a tomada de decisão e a velocidade de reação são elementos que estão inseridos em praticamente todas as atividades, pois não adianta termos um goleiro muito técnico e bem preparado fisicamente se este não consegue fazer a correta leitura de um problema e após a leitura selecionar a resposta o mais rápido possível para solucioná-lo.

A concentração e o controle emocional também são fatores exigidos constantemente no treinamento, a concentração é um fator determinante para que o atleta consiga realizar suas ações com sucesso nos treinos e nos jogos. O controle emocional é trabalhado constantemente durante as seções de treino, pois sempre existe alguém em desvantagem na pontuação, e com isso conseguimos observar como o atleta se comporta quando está perdendo e quando está ganhando, isto nos permite ter uma idéia do que poderá acontecer durante os jogos quando o goleiro se encontrar em uma dessas situações.
 

 


Elaboração do treinamento de goleiro em seu ambiente particular e específico

 

Universidade do Futebol – Como o goleiro se insere no jogo coletivo do Grêmio Novorizontino, tanto defensivamente quanto ofensivamente?

Fernando Corrêa – O goleiro está inserido constantemente em nossa maneira de jogar, isto se deve ao entendimento dos treinadores da necessidade de utilizar estratégias distintas para obtermos vantagens sobre nossos adversários, utilizando o goleiro como membro atuante da equipe em todos os momentos do jogo. Dentro desse contexto os goleiros trabalham defensivamente realizando a defesa da meta, cobertura defensiva e organização defensiva (orientações ex: retardamento da progressão dos adversários). Nos momentos ofensivos o goleiro atua realizando a transição defesa/ataque por meio da reposição de bola, escolhendo a melhor opção para dar início à ação ofensiva. Quando a equipe está em sua fase ofensiva o goleiro sobe o bloco junto com toda a equipe. O goleiro também atua constantemente na circulação de bola, abrindo linha de passe para a circulação e orientando sobre a retirada de bola da pressão.

Universidade do Futebol – Qual a importância do aspecto de liderança na formação de um jovem goleiro?

Fernando Corrêa – A liderança é um fator importante no futebol não só para o goleiro, mas para todos os jogadores e até mesmo comissão técnica. Acredito que existam várias formas de liderança e esta liderança é um fator que pode sim ajudar muito o sucesso do goleiro, visto que a posição exige certa ascendência perante a equipe.

O goleiro não precisa ser necessariamente o principal líder de uma equipe, acredito que essa liderança não será um fator de exclusão do goleiro em um processo de formação, se este apresentar-se como um bom comunicador conseguindo passar às informações necessárias a equipe.

 

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Universidade do Futebol – Em seu dia a dia, o que você acredita ser importante avaliar na evolução dos goleiros em treinamentos e jogos? Quais informações julga importante um treinador extrair de uma partida?

Fernando Corrêa – É importante avaliar em um processo de formação como está sendo a evolução do goleiro nos aspectos técnicos, táticos, físicos e psicológicos, tanto em treinos como jogos. Não podemos desvincular esses quatro aspectos para avaliá-los, pois eles estão em constante interação, e sim avaliar o quanto o goleiro evoluiu de acordo com as demandas da categoria que ele se encontra (ex: infantil, juvenil, júnior).

A avaliação técnica consiste em observar a evolução dos gestos motores do atleta (ex: pegada, entrada, queda-lateral, relação com bola nos pés), tático (ex: entendimento do jogo, escolha das ações para solucionar os problemas, orientações), físico (velocidade de reação) e psicológico (concentração, controle-emocional, liderança) estes são aspectos observados diariamente.

O mais importante para ser observado nos jogos pelo treinador é o quanto de transferência o atleta está conseguindo ter do treino para o jogo em relação aos aspectos, técnicos, táticos, físicos e psicológicos.

Universidade do Futebol – Alguns clubes, no seu processo seletivo, exigem certa altura para que o candidato a goleiro tenha chance de ser avaliado. O que você pensa disso? Será que em vez de altura, o maior pré-requisito para o goleiro não seria aprender a ler o jogo de maneira eficaz?

Fernando Corrêa – Não podemos fugir das exigências da posição, e hoje a posição exige que os atletas tenham uma estatura final entre 1,85 a 1,90. Mas exigir certa estatura de um atleta como pré-requisito para ser avaliado não vejo necessidade, pois este atleta pode apresentar uma maturação tardia e atingir uma estatura final dentro do que se é exigido.

Se conseguirmos formar um goleiro com uma estatura final exigida para a posição e que consiga realizar as leituras necessárias no jogo, teremos um ótimo goleiro. Mas precisamos entender também que esta leitura de jogo pode ser treinada e aprimorada, já a estatura final está em seu genótipo, o que infelizmente não pode ser mudado facilmente e isso acaba sendo usado como critério de exclusão.

 


"Se conseguirmos formar um goleiro com uma estatura final exigida para a posição e que consiga realizar as leituras necessárias no jogo, teremos um ótimo goleiro", diz

 

Universidade do Futebol – Como você avalia o processo de detecção e desenvolvimento de talento dos goleiros de futebol no Brasil? Os grandes clubes formadores sabem exatamente que jogador estão procurando para fazer parte desse contexto?

Fernando Corrêa – Acredito que estamos evoluindo muito no que diz respeito ao processo de captação de jovens futebolistas com perfil para a posição. Hoje podemos ver grandes clubes realizando monitoramento de atletas sub 11 para em um futuro próximo poderem fazer parte de seus elencos de base, onde estes clubes estabelecem alguns padrões para que o atleta possa fazer parte de seu monitoramento, então acredito que os clubes sabem sim o que estão buscando. Já o processo de desenvolvimento do goleiro após sua captação precisa receber uma nova formatação que consiga desenvolver o atleta integralmente nos aspectos técnicos, táticos, físicos e psicológicos, dando a ele os conteúdos necessários para sua total atuação nos momentos defensivos e ofensivos do jogo.

Universidade do Futebol – O jogo de futebol exige de um goleiro informações sobre uma situação constantemente variável e imprevisível. Como utilizar conteúdos de treinamento dentro de todo processo de percepção, decisão e resposta motora, o chamado mecanismo de informação?

Fernando Corrêa – Para conseguirmos atingir as exigências do jogo, nada melhor do que treinar em um cenário de jogo, seja nos treinos com a equipe ou em um ambiente particular e específico. A construção do treino no ambiente particular deve ser norteada de acordo com as demandas que o jogo exige aos goleiros, para isso precisamos observar durante os jogos quais tipos de intervenções que o goleiro executa, e, a partir desta análise criar um banco de dados que posteriormente auxiliará na elaboração dos treinamentos.

Buscamos desenvolver atividades que ofereçam o máximo de situações que posteriormente possam vir a ocorrer nos jogos, dentro de um ambiente menos previsível possível, deixando a cargo dos goleiros as decisões para solucionar os problemas, fazendo as correções e orientações pertinentes ao atleta para que ele tenha condição de fazer uma intervenção eficaz.

Um bom exemplo de atividade que realizamos e que engloba todo o mecanismo de informação é o treinamento de cobertura defensiva, saída 1 x 1, transição defesa/ataque. Objetivo do treino: cobertura defensiva; saída 1×1; transição defesa/ataque; tomada de decisão e reposição. Descrição: lançamento frontal, com barreira simulando a linha defensiva e dificultando a visão do goleiro; dois goleiros como atacantes, onde estes vão receber a bola lançada pelo treinador de goleiro, sendo a escolha do atacante feita pelo treinador sem aviso prévio.

Os lançamentos podem ser rasteiros, pelo alto e também a opção de chute direto ao gol. O goleiro precisa fazer a leitura, se deve sair ou se manter no gol. Quando o goleiro executa uma defesa em que consegue manter a bola sobre seu domínio, este executa uma reposição em um dos quatro gols de acordo com a cor de cone definida pelo treinador. Os cones são de cores diferentes utilizados para marcar os gols, estes são trocados quando há mudança do goleiro.

Pontuação: interceptação do lançamento – 3 pontos; defesa completa no 1×1 – 3 pontos; defesa parcial no 1×1 – 2 pontos; reposição certa – 2 pontos; reposição errada- -2 pontos e gol sofrido – -4 pontos.


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Universidade do Futebol – Na posição de goleiro, os erros costumam ser decisivos e duramente cobrados. Como você vê a importância do erro para o processo de ensino-aprendizagem no futebol?

Fernando Corrêa – Quando falamos de formação estamos falando de acertos e erros. Em categorias mais novas os erros são mais constantes, por isso temos que entender até onde cabe a cobrança em idades mais novas para que o atleta não se exclua, ou seja, excluído do processo de formação.

Os erros também servem como aprendizado do atleta, para que não volte a cometer o mesmo erro, seja este em treino ou jogos.

Universidade do Futebol – Em sua opinião, como deve ocorrer a transição de um jovem goleiro de destaque para a equipe profissional?

Fernando Corrêa – É preciso um cuidado muito grande para que o atleta não se perca neste processo, pois provavelmente este goleiro irá vivenciar algumas experiências ainda não vividas, como começar na condição de terceiro reserva, não entrar em coletivo, não ser relacionado para jogos, deslumbramento pela promoção, entre outros. Para amenizar este choque inicial, assim que detectado o potencial para a promoção do atleta, este deve ser inserido ao contexto profissional aos poucos, realizando alguns treinos durante a semana com a equipe profissional e voltando para a base e se possível fazer esta transição do atleta com o auxílio dos goleiros profissionais que já se encontram no elenco e que poderão orientar este atleta quanto às possíveis mudanças em sua carreira.

Universidade do Futebol – Você faz uso de algum aparato tecnológico no treinamento?

Fernando Corrêa – Sim, utilizamos as filmagens dos jogos para avaliarmos o que foi positivo e o que precisa ser melhorado, usamos também vídeos de outros atletas para demonstrarmos alguma ação que pretendemos realizar.


Parte da comissão técnica do Grêmio Novorizontino, que também conta com o treinador Rodrigo Bellão, ex-Lusa

 

Universidade do Futebol – Pra você, o que é um jogador de futebol inteligente?

Fernando Corrêa – Jogador inteligente é aquele que consegue fazer uma leitura precisa do problema em que se encontra dentro do jogo e que logo após esta leitura consegue selecionar uma resposta que o permitira intervir com eficácia para a solução do problema.

Universidade do Futebol – Qual a sua avaliação sobre o nível dos goleiros em atividade no Brasil? Como estamos em relação ao cenário internacional?

Fernando Corrêa – Vejo que temos no Brasil ótimos goleiros técnicos, ou seja, com todos os fundamentos muito bem trabalhados, com uma exceção em relação ao jogo dos goleiros com os pés, que ainda podemos melhorar, mas em contra partida vejo estes mesmos goleiros sendo pouco táticos, tendo pouca participação coletiva.

Um bom exemplo de goleiro técnico e tático é Manuel Neuer, podemos observar uma técnica muito eficaz e também uma frequente participação no jogo coletivo da equipe.

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