Fernando Diniz, treinador do Clube Atlético Sorocaba

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“Se não fosse treinador seria psicólogo”. É com esta afirmação que o ex-jogador e atual treinador do Atlético Sorocaba, Fernando Diniz, mostra como é marcante o seu jeito de analisar todas as coisas dentro do futebol, que vão muito além de fatores como a técnica, tática ou física, de uma forma muito serena.

O comportamento racional e sempre muito analítico contribuiu para que já tivesse sucesso na sua curta carreira como profissional da prancheta. Logo no seu primeiro trabalho como treinador, em 2009, Fernando Diniz conquistou dois títulos: a Copa Paulista e o Campeonato Paulista da Série A-3, ambos pelo Votoraty. Um ano depois, já pelo Paulista de Jundiaí, voltaria a ganhar a Copa Paulista.

“Quando eu era atleta já sentia que o aspecto emocional pesava muito. E, assim que terminei minha carreira de jogador, fui estudar Psicologia. Sempre gostei de Ciências Humanas”, explica Fernando Diniz, que está com 37 anos e cursa o quarto ano da faculdade.

Diniz começou como meio-campista do Juventus da Mooca, em 1993. Três anos mais tarde, transferiu-se para o Guarani, no qual ficou pouco tempo. No mesmo ano, o atleta transferiu-se para o Palmeiras e logo em seguida foi jogar pelo rival Corinthians. No clube do Parque São Jorge, ele conquistou seu primeiro troféu como jogador: o Campeonato Paulista de 1997.

Em 1999, acertou sua ida para o Paraná. Lá, Diniz talvez tenha vivido uma das suas melhores fases dentro das quatro linhas, o que fez ser contratado pelo Fluminense, para onde foi no ano seguinte e conquistou o Estadual do Rio de 2002.

Após a boa passagem pelo time carioca, ele começou sua peregrinação pelos gramados do Brasil, mas sempre atuando por grandes clubes do cenário nacional, como Flamengo, Juventude, Cruzeiro e Santos. Ainda chegou a jogar no Paulista de Jundiaí de 2006 a 2007, Santo André em 2007, e Juventus em 2008 antes de se aposentar quando era atleta do Gama.

Já o Atlético Sorocaba é apenas o seu quarto trabalho como treinador, depois de uma rápida passagem pelo Botafogo, de Ribeirão Preto. Mas, apesar de ser um iniciante na nova profissão, Diniz sabe que tem a cobrança de levar o time do interior paulista ao acesso para a Série A-1 do Paulistão. E, para isso, pretende utilizar, sempre que achar conveniente, a Psicologia a seu favor.

No entanto, nesta entrevista à Universidade do Futebol, Fernando Diniz também fez críticas e falou que a Psicologia ainda precisa evoluir muito dentro do Esporte. “Não temos muitos profissionais preparados para atuar em psicologia esportiva. É uma área que tem muito a crescer ainda como ciência e os clubes devem abrir as portas para contribuir para esta evolução”, avalia.

O treinador da nova geração do país ainda mostrou sua opinião sobre as novas metodologias de treinamento e até sobre quais as deficiências na formação e na qualificação dos novos técnicos de futebol. Confira:

Universidade do Futebol – Como foi o processo de transição do fim da carreira de atleta para o início do trabalho na área técnica? Por que optou por estudar Psicologia após se aposentar?

Fernando Diniz – Foi natural essa transição. Assim que terminei minha carreira de jogador fui estudar. Mas fui estudar Psicologia porque eu gosto. Sempre gostei de Ciências Humanas. Se não fosse treinador seria psicólogo. A Psicologia é uma ciência que conversa muito bem com as outras. Ela é fundamental hoje em dia. Acho que tem tudo a ver com a minha profissão de técnico. Quando jogava já sentia que o aspecto emocional pesava muito.

Com passagem de sucesso por vários clubes importantes do futebol brasileiro, Diniz revela que, se não fosse treinador, seria psicólogo

 

Universidade do Futebol – Qual a fronteira entre a participação do treinador no amparo psicológico aos atletas e o trabalho propriamente dito de um profissional específico da área? Você aborda conceitos de autoajuda e neurolinguística no trabalho diário com sua equipe?

Fernando Diniz – Não aplico não. Quando joguei, os trabalhos das psicólogas eram pontuais. Porém, as partes emocional e psicológica devem ser trabalhadas concomitantemente com todo o restante do trabalho da comissão técnica. Devemos trabalhar juntos, de forma integrada.

Na minha época de jogador, chamavam um psicólogo somente quando o time estava para cair (rebaixado), como se fosse um salvador da pátria. Além disso, a Psicologia em si depende muito da relação de confiança nos profissionais, porque se não tiver a empatia dos jogadores, o trabalho não vai funcionar. E os clubes também precisam fazer um trabalho contínuo, sem interrupções. Ainda precisamos evoluir muito neste assunto.

Nas próprias faculdades isso é uma coisa recente. Não temos muitos profissionais preparados para atuar em psicologia do esporte. É uma área que tem muito a crescer ainda como ciência e os clubes devem abrir as portas para contribuir para esta evolução.

Universidade do Futebol – Atualmente no futebol, o ingresso de jovens atletas no ambiente profissional acontece de maneira precoce, sujeitando-os aos holofotes midiáticos de maneira prematura. Como a psicologia pode atuar nessa construção da imagem diante de um processo de espetacularização?

Fernando Diniz – Acho que é aí neste aspecto que a Psicologia deveria trabalhar mais. Em minha opinião, a atuação deveria ser mais focada nesta área do que no empenho do atleta, que é onde é mais trabalhado atualmente.

Na Psicologia, o foco não é ter sucesso profissional, mas sim trazer bem-estar para o ser humano. Atuar para que o sofrimento seja mais bem absorvido. E, no caso do futebol, deveria dar uma base para que o atleta consiga suportar o sucesso.

Os atletas vêm de classes menos favorecidas, sem instrução, e saem de casa com 12 ou 13 anos. Isso ainda é um peso. E esse deveria ser o foco principal da Psicologia. Porém, hoje em dia, os trabalhos são voltados para que o jogador tenha alto rendimento.

“Na Psicologia, o foco não é ter sucesso profissional, mas sim trazer bem-estar para o ser humano”, avalia Diniz

 

Universidade do Futebol – Falando um pouco agora sobre a formação dos treinadores, no Brasil cada vez mais se acirram as discussões acerca da capacitação profissional para exercer a função de treinador de futebol. De um lado, graduados em Educação Física prendem-se no conhecimento acadêmico para questionar treinadores que são ex-atletas profissionais da modalidade, que por sua vez, justificam a experiência prática adquirida como indispensável para o exercício da profissão. Qual é a sua posição em relação a esta questão? Falta capacitação profissional aos treinadores no Brasil?

Fernando Diniz – Creio que estes dois tipos de formação (acadêmica e prática) são complementares e não excludentes. O principal, para mim, é ter vocação para ser treinador. A paixão por aquilo que faz. E o principal disso tudo é ter boa liderança. O fato de ter sido craque dentro de campo não quer dizer que ele seja bem sucedido como técnico. E
ssa discussão é muito pobre. Tive grandes treinadores das duas maneiras.

Quando um técnico é ex-jogador, ele tem uma pequena vantagem, já que conta com uma sensibilidade um pouco maior de quem nunca foi atleta. Mas isso não vai fazer o cara ser um bom treinador ou não. Já em relação à capacitação profissional, acho que não temos muitos cursos para tal formação. Tem pouca coisa séria que é feita, como o professor [João Paulo] Medina, com o projeto da Universidade do Futebol. Mas faltam mais cursos.

Universidade do Futebol – Você disse que o principal em um treinador é ter boa liderança. Como você trabalha a questão da liderança com seus atletas? Você considera que esta qualidade é inata ou pode ser desenvolvida com um trabalho adequado?

Fernando Diniz – O cara que não nasceu para ser líder não vai conseguir desenvolver. Você pode desenvolver em quem já tenha um perfil, uma pré-disposição naturalmente para aquilo. Mas é difícil falar se é inata. Acredito que a carga genética, a quantidade de estímulos que a pessoa receber fará desenvolver isso ao longo da vida.

“O cara que não nasceu para ser líder não vai conseguir desenvolver”, acredita Diniz

 

Universidade do Futebol – Hoje em dia se discute muito a eficácia de se usar uma metodologia de treinamento que parta do modelo de jogo pretendido pelo treinador, ou seja, preparar a equipe (nos aspectos físicos, técnicos, táticos e até psicológicos) a partir das ações táticas, sem fragmentar muito os treinamentos. O que você acha dela?

Fernando Diniz – Os sucessos do Barcelona, do José Mourinho, fazem isso se tornar uma coisa a ser copiada. Mas temos de ser cuidadosos para afirmar que isso é bom ou não. Estou ainda em uma fase de observação. Acho que primeiramente precisamos saber o porquê aquilo acontece. Saber a causa. Para depois cada um criar o seu modo de treinar no futebol. Não é captando coisas que vêm de fora e copiando que você vai ganhar. Eu acho que não funciona assim.
 

Quem é José Mourinho: a trajetória de sucesso de um dos principais treinadores de futebol do mundo

Precisa saber o que você quer com o jogo reduzido. Qual será a intensidade do treino. Devemos estudar as maneiras como os treinadores elaboram os treinos lá fora e adaptá-las à cultura do nosso país. Fala-se muito nessas metodologias, mas não é aprofundado. O Mourinho tem uma metodologia, mas a liderança dele é essencial. Então tem muitas questões que ainda não foram devidamente discutidas. Isso é uma confusão sem fim.

 

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Universidade do Futebol – Você acredita que o jogador de futebol brasileiro evoluiu nos aspectos técnicos e táticos? Hoje existe uma preocupação maior por parte dos treinadores para estimular a chamada “inteligência de jogo”? O futebol mudou muito se comparado com a época em que você era jogador?

Fernando Diniz – Acho que não. Da época que eu jogava até hoje pouca coisa mudou. Até porque não faz tanto tempo assim que parei de jogar. Talvez se nós pegarmos décadas passadas, aí sim veremos diferenças. Mas eu não vejo uma mudança tática em relação ao período que eu era jogador.

Se você pegar um jogo da Copa do Mundo de 2002 é quase igual aos jogos de hoje. Talvez uma pequena diferença no posicionamento dos atletas, mas é muito insignificante. Vejo muita similaridade na forma de jogo.

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Universidade do Futebol –
Por fim Fernando, em se pensando o futebol no aspecto humano e social, você acredita que a influência da cultura condiciona um determinado tipo de comportamento? É possível se falar em escolas regionais de futebol?

Fernando Diniz – Eu não acredito muito nisso não. Esses aspectos culturais influenciam, mas não determinam um comportamento. Para mim, um bom trabalho é trazer jogadores bons e ter um bom tempo para trabalhar.

O Dener, por exemplo, jogou bem na Portuguesa, no Grêmio e no Vasco. Jogou bem em São Paulo, que dizem que tem um futebol mais competitivo, no Rio Grande do Sul, onde falam que é mais “pegado”, e no Rio Janeiro, que pregam um futebol mais artístico. Ele foi bem em três praças diferentes.


 

*Guilherme Yoshida é jornalista e colaborador da Universidade do Futebol.

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