Universidade do Futebol

Entrevistas

03/02/2006

Fernando Miranda, ex-presidente do Internacional-RS e da Liga Sul-Minas

Fernando Miranda, além de presidente do Internacional de Porto Alegre, foi também presidente da Liga Sul-Minas e participou de um dos momentos mais dinâmicos da história recente do futebol brasileiro. Isso aconteceu na época do “Pacto da Bola” e da criação das ligas regionais que apontavam para mudanças radicais e saudáveis para o nosso futebol, inclusive com a proposta de um novo calendário. Fazendo parte de um grupo minoritário de dirigentes que, de fato, preocupa-se com a evolução profissional do maior esporte brasileiro, Miranda deixou a direção do Inter e a Liga, mas não abandonou sua crença no papel que as melhores práticas administrativas podem representar na gestão desportiva dos clubes.

 

Nesta entrevista exclusiva para a Cidade do Futebol, ele fala sobre o significado político dos clubes, da relação dos mesmos com a TV e com os seus atletas e, não menos importante, discute a ação dos dirigentes e da CBF na gestão de um dos maiores patrimônios deste país, o futebol. Para ele, apesar dos problemas, o futebol tem enorme apelo popular, bem como espaços para um amplo desenvolvimento. “Há grande espaço para crescimento da receita e do ‘PIB’ desse esporte”, diz. Conheça essas e outras idéias de Miranda, a seguir:

 

Cidade do Futebol – O senhor presidiu a Liga Sul-Minas entre 2002 e 2003 e, na ocasião, os torneios regionais tiveram um relativo sucesso. Como explica o desaparecimento dessas competições e qual o papel que as ligas poderiam ter numa nova estrutura do futebol no país?

Fernando Miranda – As competições regionais, no formato estabelecido pelo calendário quadrienal, divulgado pelo Ministério dos Esportes , CBF, Clube dos 13, João Havelange, Pelé entre outros, fruto do “Pacto da Bola”, firmado em 2001, aconteceram apenas no ano de 2002. A competição Sul-Minas foi um efetivo sucesso financeiro, de público e, especialmente, técnico, uma vez que colocava os clubes disputando uma competição de nível bem superior às competições estaduais no início do ano. Elas desapareceram quando o “Pacto da Bola” foi revogado e o Calendário Quadrienal foi rasgado, desconsiderando todos os compromissos assumidos em função da sua divulgação.

 

Cidade do Futebol – Na sua opinião, qual seria o verdadeiro papel de uma Liga?

Miranda – O papel de uma Liga é o de gerenciar uma competição específica, com permanência no calendário esportivo. Ela precisa estar a serviço dos clubes que a integram e nunca de outros interesses. No desempenho desta função, a Liga deve buscar, ao máximo, a valorização da disputa em todos os aspectos, fazendo com que o “produto” possua cada vez mais valor no mercado. Além disto, precisa prezar pelo cumprimento dos compromissos que forem assumidos. Por exemplo, entregando a competição para uma rede de televisão que adquira os direitos de televisionamento, sem que isto signifique a transferência do poder em relação ao comando da competição ou submissão.

 

Cidade do Futebol – O que o senhor acha que deve mudar nos clubes para que o futebol brasileiro possa evoluir e se adaptar mais adequadamente aos novos tempos?

Miranda – O ponto principal é a compreensão de que o crescimento do futebol só acontecerá a partir da verdadeira união dos clubes. O desenvolvimento pontual de um clube sem que o “produto” futebol cresça não tem sustentabilidade. Para que isto aconteça será necessário, também, o surgimento de uma liderança no futebol brasileiro que realmente busque o interesse dos clubes e o crescimento do produto, deixando de lado questões menores e interesses particulares. Internamente, os clubes precisam buscar a efetiva profissionalização, o que não pode significar simplesmente passar a remunerar algumas figuras que exerceriam a mesma função na condição de dirigente. Profissionalização requer compromisso, competência e conhecimento.

 

Cidade do Futebol – Tendo convivido com a atual estrutura do futebol brasileiro como presidente do Internacional e da Liga Sul-Minas, que análise o senhor faz da postura da CBF em relação aos clubes?

Miranda – Primeiramente chama-me a atenção o fato da CBF nunca ser penalizada. Se a CBF não possui, por exemplo, um sistema de registro atualizado e competente e isto gera desvalorização do produto, ou seja, a competição, de quem é o problema? Dos clubes. Se a CBF indica para apitar um jogo um árbitro que já tinha tido problemas com documentação irregular e este árbitro desvaloriza absurdamente a competição, de quem é o problema? Dos clubes. Se a CBF convoca atletas e não cumpre a Legislação remunerando os mesmos, de quem é o problema? Dos clubes. Se a CBF coloca no regulamento um número de vagas para a Libertadores e isto não corresponde à realidade, de quem é o problema? De novo, dos clubes.

O mais assustador é o comportamento dos clubes em relação à CBF. Observemos as eleições das federações: as agremiações invariavelmente elegem presidentes ligados ao sistema e à CBF, quando têm a oportunidade de eleger pessoas comprometidas com elas. E o que dizer da última eleição da CBF? Apenas o São Paulo Futebol Clube não votou no senhor Ricardo Teixeira. Curiosamente, provando como é possível ser independente, o mesmo São Paulo Futebol Clube venceu a Libertadores da América e foi para o Japão sagrar-se campeão mundial de clubes.

 

Cidade do Futebol – No futebol brasileiro a dependência do dinheiro da televisão por parte dos clubes ainda é muito forte. Como o senhor acha que deveria ser o papel dos clubes em relação à geração de receitas e qual deve ser a função da televisão?

Miranda – Eu diria que a dependência do dinheiro da televisão e deste sistema é cada vez mais forte. E se os clubes não romperem esse ciclo, ficará cada vez mais clara a submissão. Acredito que há dois aspectos a serem abordados no sentido de crescimento de receitas dos clubes: um é a valorização das competições, com regras claras e sendo cumpridas, o que gerará credibilidade. Isso precisa ser feito, como disse antes, em conjunto. E não é uma tarefa para dois ou três anos apenas. O outro aspecto é a qualificação do trabalho de prospecção, valorização e comercialização de atletas. Aqui há um brutal espaço de crescimento, empregando as ferramentas que estão disponíveis para qualquer empresa e aproveitando o potencial de geração de talentos que existe em nosso país.

 

Cidade do Futebol – O senhor parece ser um dos poucos dirigentes que se preocupa com a questão da integração das diferentes áreas de um clube dentro de um projeto realmente profissional. Como deve ser este processo que envolve dimensões técnicas, administrativas e políticas?

Miranda – A dimensão política interna dos clubes é realmente bastante complicada. Além de estar relacionada com resultados de curto prazo (o que conflita com uma administração voltada para o futuro), há muitos interesses envolvidos, de ordem econômica e até mesmo de ordem político-partidária. A coerência do trabalho nas dimensões técnicas e administrativas precisa partir de uma convicção de quem tem poder no clube. É impensável um trabalho com conseqüências positivas não partindo da convicção da alta direção do clube para com seus comandados.

 

Cidade do Futebol – O Brasil é um dos maiores exportadores de jogadores do mundo. Isto é sinal que o trabalho nas categorias de base realizado por nossos clubes é bom? Como o senhor analisa o trabalho nos clubes para a formação de jovens atletas?

Miranda – Não concordo que o fato do Brasil ser um grande exportador de atletas signifique um bom trabalho nas categorias de base dos clubes em geral. Este fenômeno precisa ser compreendido dentro do contexto geográfico, cultural e econômico em que está inserido o Brasil. Num país como o nosso, de grandes dimensões, com o nosso clima e com a atenção voltada para o futebol e para a oportunidade de crescimento social que esse esporte representa no imaginário de nossos jovens, um trabalho realmente qualificado de prospecção, que vislumbre o crescimento do atleta e do ser humano, certamente, teria uma repercussão muito mais positiva na realidade dos clubes. Ou seja, o volume de exportação de atletas está muito mais vinculado a fatores geográficos, culturais e econômicos do que à competência do trabalho realizado pelos clubes nas categorias de base.

 

Cidade do Futebol – O senhor acredita que os clubes têm condições de vencer a queda de braços com os empresários de atletas?

Miranda – Não vejo queda de braço com empresários. O que acontece é o preenchimento, por meio desses profissionais, de lacunas deixadas pelos clubes. Imagino dois grandes grupos de lacunas preenchidas pelos empresários e que poderiam ser ocupadas pelos clubes. A primeira é a da confiança. Muitas vezes os atletas sentem-se prejudicados pelos clubes; e em algumas ocasiões isto é verdadeiro, o que gera uma desconfiança e aproxima o atleta de empresários. Muitos deles agem de forma correta e competente defendendo o interesse de seus clientes. A outra questão é assistencial: a grande maioria dos atletas é oriunda de uma faixa social que apresenta inúmeras dificuldades na formação do ser humano. Se o clube não estiver atento a estes aspectos, alguém exercerá este papel.

 

Cidade do Futebol – O que o senhor acha da Lei Pelé e das mudanças prováveis na legislação esportiva do país?

Miranda – Contrariamente ao que muitos disseram inicialmente, a Lei Pelé obriga os clubes a qualificarem o trabalho nas categorias de base. Isto é um ponto positivo. Acredito que poderíamos pensar em formulações que criassem maior proteção ao clube formador e estimulassem ainda mais a qualificação deste trabalho. Desconheço as “prováveis” mudanças na legislação esportiva do país. Mas me preocuparia primeiramente com a criação de dispositivos que garantissem o cumprimento das regras existentes, sejam elas quais forem. Sem isto jamais teremos credibilidade.

 

Cidade do Futebol – O que há de pior e de melhor no futebol brasileiro?

Miranda – De melhor há o grande apelo popular; a geração quase espontânea de talentos e o grande espaço para crescimento da receita e do “PIB” do futebol. Já de pior, há a desobediência ao acordado e conseqüente falta de credibilidade, a pusilanimidade de muitos dirigentes e a falta de desenvolvimento de ferramentas técnicas que qualifiquem o trabalho de prospecção e valorização de atletas.

 

03/02/2006

 

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