Universidade do Futebol

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05/05/2018

Filosofando: é possível entender o papel do professor/treinador como algo além do futebol?

A filosofia de educar não está no que se fala, mas no comportamento e nas atitudes mais sutis de um professor/treinador

Começo o último texto dessa série respondendo a pergunta do título: sim!

Mas só consigo discutir esse tema e trazer a reflexão à tona se for buscar argumentos fora do futebol. Primeiro porque o professor é maior do que o futebol, está em todas as áreas de conhecimento. Segundo porque a educação esportiva é nova para a humanidade, por isso as pessoas ainda não dão tanta importância a esta causa e suas consequências, porque não a entendem. Portanto, para ser desenvolvida no seu interior (dentro do esporte), é preciso analogias do ambiente externo, para que possa ser compreendida.

Para isso vou levantar alguns pontos para discussão:

Reconhecimento (capital simbólico)

Pois bem, estamos no Brasil. Aqui não é o Japão. Logo, o imperador não se curva aos mestres. E nem temos (nós professores) o hábito de nos sentirmos poderosos e respeitados. Embora deveríamos, pois a educação é a principal forma de evolução intelectual que a humanidade conheceu até hoje.

A educação não somente foi importante, como o futuro depende dela. Recentemente, António Damásio afirmou em uma entrevista, que não há caminho para a humanidade a não ser através da “fórmula simples e mágica” da educação. Quando percebo no discurso de gente como ele, que o futuro da humanidade depende disso, não tenho dúvidas da direção a seguir e da importância de se discutir a educação esportiva, e mais especificamente, a educação pelo futebol.

Entretanto, aqui ainda vivemos uma crise de consciência. Quando escutamos alguém dizendo: “sou empresário, sou empreendedor, sou advogado, médico, engenheiro, etc.”; percebemos a força que isso causa nas primeiras impressões.

E, quando nos apresentamos como professor/treinador de futebol, professor de educação física, professor de educação fundamental, etc., já não sentimos a mesma coisa.

“Façam o teste com algum desconhecido para ver como ele reage. Se eu estiver errado, me corrijam, por favor”.

Porém, não é assim em todos os lugares. Houve um pronunciamento da primeira ministra alemã, Angela Merkel, dizendo as seguintes palavras: “(…) Professores não são pessoas comuns e pessoas comuns não são Professores. Por favor, não escolha ser Professor até que você esteja certo e preparado pra isso.”

A Alemanha paga melhor seus professores do que médicos, advogados e engenheiros, que quando foram reivindicar à chefe de governo, receberam a seguinte resposta: “(…) Como eu posso comparar vocês com quem ensinou vocês? Essa é a diferença”. Ou seja, o professor possui outro capital simbólico para ela e isso parece ser regular em países desenvolvidos.

Cultura de estudo do futebol

Não tenho dúvidas que vamos demorar para atingir o nível de países como Alemanha e Japão (entre outros…). Mas reconheço no futebol os avanços diminutos, porém importantes, que tivemos.

Cresceu exponencialmente nos últimos anos o número de cursos, licenças de treinadores e o acesso a informação, de forma geral, voltados à professores/treinadores de futebol. Cada vez mais aumenta o número de pessoas capacitadas e capacitando-se constantemente. Isso cria, evidentemente, uma cultura de estudo do futebol. Nessa cultura percebo que alguns conceitos começam a ficar populares. Embora muitas vezes surjam diferentes nomenclaturas para definir as mesmas coisas, é possível notar o aumento do nível dos debates e a criação de uma linguagem própria entre os professores/treinadores, que inclusive começaram a se expandir aos jogadores, jornalistas e até aos torcedores/telespectadores. Fato este que julgo positivo.

O conhecimento para transformar

O futebol, como disse na primeira coluna desta série, ainda é atrativo para as crianças e jovens, ainda há um contingente enorme de gente querendo viver nesse ambiente. E esse ambiente pode ser rico de aprendizagem, se soubermos aproveita-lo. Para isso, precisamos ter cada vez mais professores em busca de capacitação. E mais do que isso, essa busca por conhecimento precisa ser verdadeira e essencial, sem haver superficialidade ao se contentar com títulos, certificados e diplomas que comprovam sua participação. Não adianta só participar, o professor/treinador deve acreditar que sempre está em processo de aprendizagem e que os ambientes que decide participar devem, sobretudo, alavancar seus conhecimentos e não, e tão somente, alavancar sua ascensão profissional.

Tive uma conversa com o professor João Batista Freire alguns dias atrás, falávamos sobre os títulos. Ele me disse que não se envaidece com o rótulo de doutor e que o título importante é o de Professor. Nada vale mais do que esse título, esse reconhecimento, o tal do reconhecimento honoris causa. Ser professor é por vezes um voto de servidão e de compaixão. E é claro que ensinamos e aprendemos muito além do futebol e suas dimensões táticas-técnicas-físicas-psicológicas, aprendemos e ensinamos sobre pessoas, sobre a sociedade e sobre saber viver nela. Portanto, o professor faz uso do conhecimento para transformar a realidade que as pessoas criam acerca da vida.

Reflexões além do futebol: filosofia

Entendo que essa visão filosófica parece transgredir as discussões acerca do futebol. É importante lembrar que na hora do treino não temos tempo para pensar em todas estas questões. Entretanto, a filosofia de educar não é algo que fazemos ao falar durante um treino, ela é o nosso pano de fundo, está no que se é, está dentro de nós ao mesmo tempo que está fora, no nosso comportamento e nas atitudes mais sutis. E no que diz respeito a ser professor/treinador de futebol, essa tarefa carrega toda a complexidade que sustentar ser professor de uma escola de periferia ou da universidade mais conceituada do mundo. Por essa razão, é importante pensar e repensar sobre ser professor/treinador.

E enfim, chegamos em um ponto importante da discussão, no qual após três textos foi possível elencar alguns pontos-chave que pode servir para reflexão agora ou em algum momento da vida:

  • a educação nos fez evoluir intelectualmente e o futuro da humanidade também depende de como vamos tratar a educação daqui por diante;
  • o futebol atrai milhões de pessoas no mundo e deve ser entendido como um ambiente em potencial para educação;
  • todas as pessoas tem necessidade de educação e o professor/treinador é o catalisador desse processo de tomada de consciência;
  • devemos ter em mente que a base da formação através do futebol é a educação, e não somente a preparação para o futebol de alto rendimento;
  • é consciente e certo afirmar que o futebol não substituirá a educação formal, de forma alguma, mas é um dos ambientes em que crianças e jovens podem ser educados;
  • estamos vivendo um momento singular da história, no qual aumenta o número de professores/treinadores capacitando-se;
  • ser professor/treinador não se finda nos títulos, certificados e licenças, nem mesmo é questão de saber métodos e técnicas;
  • os reflexos dessa cultura de estudo do futebol requer um maior reconhecimento dos professores/treinadores, que passa, inevitavelmente, por uma luta contra a ideologia de quem os dirigem;
  • o professor/treinador deve ser comprometido em estabelecer uma relação com o conhecimento, para transformar a realidade das pessoas de uma sociedade;
  • a sociedade será capaz de modelar educação e valorizar o professor/treinador, ao decidir não reproduzir a ideologia dominante.

Assim como comecei vou terminar essa série: #RespeitaOProfessor

Até a próxima…

Comentários

  1. Professor treinador, ainda psicologo,pai,disciplinador,e obrigado conseguir bons resultados nos jogos para ser melhor avaliado.

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