Universidade do Futebol

Colunas

19/03/2016

Formação de atletas: versatilidade ou especialização na posição?

A existência de jogadores que fazem várias funções ajuda na resolução de problemas

Olá amigos!

Convido-lhes para mais uma discussão sobre um tema intrigante aqui neste espaço. Quem vive o ambiente de formação sabe que, invariavelmente, por motivos diversos, deparamo-nos com o problema exposto no título desta coluna. Atento ao fato de que, novamente, não irei propor simplesmente a defesa de uma das ideias, e sim provocá-los a mergulhar (fugindo da superfície) numa análise mais aprofundada.

Primeiramente, nosso principal papel é contribuir com a formação de pessoas. Pessoas estas que podem vir (assim imaginamos) a se tornar futebolistas de alto nível. Penso que aqui cabe a primeira observação: a especificidade do jogador de futebol é jogar futebol! E isso passa por entender o jogo, conseguir jogá-lo e fazê-lo bem.

Olhemos para o futebol de alto nível, e perguntemo-nos: como se joga o futebol hoje? Se buscarmos referência nas principais equipes do mundo, poderemos enumerar diversos jogadores que fazem mais de uma posição em campo (inclusive em diferentes setores), e isso torna-se uma virtude na resolução de problemas de uma ou mais partidas. Pep Guardiola faz esta manipulação com maestria, tanto no Barcelona quanto no Bayern, trazendo volantes e laterais para o centro da defesa (ou primeiros atacantes) afim de melhorar o processo de construção ofensiva; no Barcelona trouxe Mascherano para trás, utilizou Lionel Messi em várias funções (inclusive de “falso 9”), também alterou constantemente o posicionamento de Iniesta, entre outros. Poderíamos citar aqui uma grande quantidade de outros atletas (no Brasil e na Europa) que foram muito bem aproveitados em mais de uma função em campo – Lucas Leiva, David Luiz, Alaba, Di Maria, Philip Lahm, Zé Roberto, Jadson, Danilo, Renato Augusto. Em contraponto, alguns atletas foram, ao longo de sua carreira, especialistas em somente uma posição – Ibrahimovic, Ronaldo, Adriano.

Voltemos nosso olhar para a formação de atletas. Quando pensamos em formar para o alto nível (lembrando que o topo da pirâmide é restrito a pouquíssimos), obviamente estamos pensando em atletas que vão se destacar por algum ponto forte, muito claro aos olhos dos espectadores. Porém, os motivos para oferecermos a versatilidade na formação são mais relevantes. Lidamos com pessoas e, como professores, temos a obrigação de oferecer um ambiente rico de possibilidades, além de incentivar o desenvolvimento da autonomia. Proporcionar variadas vivências durante treinos e jogos na formação permitirá um desenvolvimento rico do repertório essencial para se jogar futebol (relação com bola, leitura de jogo, estruturação de espaço) e também contribuirá para que o atleta pense, crie, erre e vá se tornando cada vez mais autônomo nas decisões necessárias para resolver os problemas do jogo. A partir destas vivências, naturalmente, ao longo do processo ele tenderá a contribuir em melhor rendimento em um leque menor de posições no campo – salvo exceções. Saliento aqui que estimular diferentes vivências nos treinos e jogos não elimina orientações voltadas para regras de ação predominantes para cada posição.

Ao final do processo de formação devemos ter atletas que compreendam e joguem em alto nível o jogo de futebol, da maneira mais inteligente possível. Muitos são os exemplos de jogadores que ganham grandes oportunidades durante contratações ou trocas de técnico nas equipes principais, atuando em outras funções, e isto só é possível a partir de uma formação realmente enriquecedora para o seu repertório de jogo. Acredito ser inadmissível que um atleta transite da formação para a equipe principal tendo passado todos os anos anteriores jogando só numa função. Nós, formadores, não somos “deuses” para determinar tão cedo o que é e o que fará aquele ser humano. Portanto, proponho que constantemente façamos reflexões sobre o quanto nosso treino e nossas escolhas em jogos estão sendo favoráveis para criar um ambiente rico e desafiador, visando o desenvolvimento de cada um dos nossos atletas.

E você, leitor, o que acha deste tema? Escreva para rafael@universidadedofutebol.com.br e vamos debater!

Um grande abraço e até a próxima!

Comentários

  1. Nelson da Costa Duarte disse:

    O tema é excelente para ser debatido.
    Mo meu ponto de vista o melhor seria até o juvenil ter a versatilidade do aluno/atleta, assim quando chegar ao profissional não ficará sem espaço. E já nos juniores passar ter a especialização dentro da sua posição.

    • Olá Nelson!
      Penso que, de maneira geral, não há momento específico para deixar de oferecer diferentes funções, assim como não há momento específico para iniciar a “especialização”. Quando um atleta está exercendo uma função devemos dar a ele as orientações específicas das regras de ação (sem tirar a autonomia, sempre!), seja no sub-15, sub-20 ou profissional.

      Muito obrigado pela sua contribuição!
      Abraços!

  2. Mike disse:

    O tema é muito relevante, trabalho na iniciação esportiva, em uma escola de futebol que atua nas três áreas mais conhecidas do futebol, society, campo e futsal. Fui atleta da equipe do Paulínia e vivenciei essa realidade nos treinamentos, atuava como volante, lateral e as vezes zagueiro, isso foi muito produtivo pra mim no tocante as oportunidades de jogo, assim quando fui pra equipe do Avaí o fato de saber jogar em diferentes posições me deu mais oportunidades e um contrato profissional. Hoje com as crianças tenho proporcionado ambientes de aprendizagem com essas características e tem feito uma diferença significativa para os alunos. Quando é necessário troca-los de função no jogo, eles se adaptam rapidamente e acredito que se eles já estão fazendo isso hoje com 8 anos de idade, isso facilitará e ajudará e muito no decorrer do processo de aprendizagem.

    • Olá Mike!
      Sua contribuição é muito rica aqui. Você viveu diferentes realidades e pôde tirar sua própria opinião acerca disso.
      Obrigado e fique à vontade para propor ideias e participar das discussões!

      Abraços!

  3. rivanildo lima ribeiro disse:

    o tema e excelente para se debatido

  4. Cesar Sampaio disse:

    Boa tarde Rafael,

    Entendo que a definição de uma posição para um jogador esta diretamente relacionada as valências físicas, técnicas, cognitivas e inteligencia de jogo que um atleta apresenta de forma inata. Como ex-atleta entendo que existem princípios e sub-princípios atrelados a função a ser exercida por um atleta dentro de um modelo de jogo, que tronam o todo capaz de atuar de diferentes maneiras sem a substituição do jogador durante uma partida, e sem perder a sua originalidade.
    Concordo que o atleta saber jogar exercendo mais de uma função, pode em determinado jogo ou determinado momento do jogo, suprir uma necessidade de um elenco, mas acredito que uma equipe bem treinada é aquela que o treinador consegue extrair o máximo de cada jogador sem prostituir sua principal característica em uma evolução constante para a equipe. Definir uma posição para um atleta e ensina-lo em todas as variáveis que esta posição possibilita, é um trabalho árduo, de médio e longo prazo. É construir em conjunto com o atleta a posição que ele mais se sentirá a vontade para jogar e que mais contribuirá para o time. Desta forma o modelo de jogo e suas variáveis são os pilares na construção de uma forma de jogar. Extrair o máximo desses atletas que compõem o elenco, é deixá-los a vontade para contribuírem com feedback dos treinos e jogos.
    Ordem; um treinador – um modelo de jogo – valências a serem observadas para cada posição – seleção de atletas – treinar este modelo – treinar as variáveis deste modelo, por ultimo a improvisação de atletas por necessidade do jogo.
    Sou mais tradicional e gosto de equipes com lógica e conceitos de atuar.
    Um forte abraço,

    Cesar Sampaio

    • Olá César!

      Primeiramente agradeço a sua participação, que devido à sua experiência como ex-atleta de alto nível, enriquece muito o debate. Conforme citei, a análise deve ser aprofundada e aqui, neste caso, procurei instigar os formadores – categorias de base – a pensar em treinos que ofereçam diversas possibilidades de desenvolvimento do jogo e dos jogadores.

      Quando citei versatilidade, enxerguei-a diferentemente de improviso na função. Pra que um atleta seja versátil, ele deve ter tido a oportunidade de aprender diferentes funções. Eu acredito no desenvolvimento da autonomia, um conceito que vai além de só jogar futebol – até porque, sabemos que muitos que passam pelas categorias de base não serão jogadores de alto nível, ou seja, formamos também para a vida. E quando penso em autonomia, penso em educar respeitando a liberdade e dando chances de escolha (o que só é possível a partir de múltiplas vivências).

      Se olharmos para o final do processo de formação e para os atletas de sucesso, jogadores adultos, profissionais, atuando em alto nível, estamos falando de pessoas que vivenciaram muitos anos de futebol, seja na rua, escolinha, categorias de base, etc. Obviamente, no futebol profissional, a realidade e as metas são diferentes – há menos tempo para treinos, a exposição é maior, o foco é vencer sempre. Acredito que um atleta com poder de autonomia e inteligência de jogo possa se sobressair a partir disso.

      Em tempo, como eu disse na coluna, a cada vivência, nossa obrigação também é ensinar/discutir as principais funções em cada posição (o que citei no texto como Regras de Ação, a partir de algumas literaturas) e sempre fazer os devidos ajustes e correções. E creio que, ao longo do tempo, respeitando a autonomia e características (inatas + adquiridas) de cada jogador, com bons métodos de treinamento a especialização será facilitada.

      Um grande abraço e obrigado pela colaboração!

  5. Acredito que cada jogador deva jogar na posição em que é especialista, mas, oferecendo para ele situações diferentes no treino em que seja necessária para no momento do jogo ele possa fazer outra função com o objetivo de levar vantagem em relação ao esquema adversário.
    Como exemplo posso citar o caso do Neymar na atual formação da Seleção Brasileira, jogando de falso 9. Neymar foi o 3° melhor jogador do mundo jogando de Ponta Esquerda, e por ele ser o melhor jogador da Seleção, ele tem que jogar na função em que ele é especialista, e a partir dele ser formada a Seleção. Ele até poderia jogar de Falso 9, mas, em uma situação dentro do jogo em que se obtivesse vantagem ao esquema adversário.

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